quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Davos: a montanha pariu um rato


Semana de 21 a 27 de janeiro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]
        
Quatro cadeiras vazias com os nomes do presidente e de três de seus ministros mais importantes, entre os quais as duas grandes estrelas do governo: o Chicago oldie Paulo Guedes, com sua pregação liberal, e o ex-juiz Moro, o paladino da moralidade. Para vergonha de uma nação ninguém apareceu na conferência marcada sem que qualquer desculpa ou satisfação fosse dada aos organizadores do evento. O fato gerou “constrangimento e perplexidade” segundo a imprensa internacional.
Mas não foi a única decepção. O esperado discurso do presidente Bolsonaro, que devia durar 45 minutos, não passou dos 6, e vazios. Foi considerado “decepcionante”. Não foi além das afirmações genéricas do tipo: aumentar a segurança, combater a corrupção, reduzir o tamanho do estado, privatizar tudo, garantir os contratos, aumentar a abertura comercial, equilibrar as finanças, defender a família, a propriedade privada, os direitos humanos, etc. Não foi mais longe que isto. Um verdadeiro fiasco que só contribuiu para derrubar a bolsa de valores no Brasil. O IBOVESPA caiu 0,94%.
O que salvou a missão foram as importantes reuniões do presidente com o lixo da ultradireita europeia: o primeiro ministro da República Tcheca Andrej Babis e o presidente da Polônia Andrzej Duda, além do premier da Itália. Ainda teve tempo de aconselhar o candidato direitista à presidência do Uruguai, o magnata Juan Sartori. Outros importantes encontros anunciados foram os do ministro Guedes com ministros dos Países Baixos e de Isael.
Além da decepção Brasil, o Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça teve outras desilusões. Foi sentida a ausência de três grandes: os EUA, ocupados com o muro anti-mexicano e a briga Trump x congresso, o Reino Unido, desunido pelo Brexit e a França ameaçada pelos coletes amarelos.
Além desses contratempos, o Fórum sofreu o impacto do pessimismo com a possibilidade de uma nova grande crise que se aproxima. A Diretora Gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) Christine Lagarde, alertou os países que “... é preciso tratar as vulnerabilidades e estar pronto para quando uma séria desaceleração se materializar”. E não foi só ela. Os CEOs globais manifestaram seu pessimismo em uma pesquisa que envolveu 1.370 dirigentes empresariais em 91 países. Apenas 35% deles acreditam em ampliar seu faturamento nos próximos anos.
Como resultado deste pessimismo o fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) para o Brasil, em 2018, teve uma queda de 12%, segundo a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
A redução o crescimento da China é outro agravante. Em 2018, o país cresceu apenas 6,6%, a menor taxa desde 1990. Tanto as vendas no varejo quanto a produção industrial sofreram um processo de desaceleração.
Na União Europeia (UE) a situação não é melhor. O Banco Central Europeu (BCE) veio dar a sua colaboração ao clima de pessimismo ao afirmar que “a persistência das incertezas” moveu as perspectivas de crescimento “para o lado negativo”. O BCE divulgou o seu Índice dos Gerentes de Compras (PMI) que indicou que a economia da zona do euro se aproxima da estagnação. O índice caiu de 51,1 para 50,7 (abaixo de 50 significa depressão). Foi o mais baixo em 66 meses. No terceiro trimestre do ano passado a economia cresceu 0,2%. Diante deste quadro o banco decidiu manter a taxa de juros de referência em zero e a de depósito compulsório dos bancos em -0,4%. A estimativa de expansão da economia para 2018 foi rebaixada para 1,9%.
Aqui no nosso continente a coisa não é muito diferente. Além da tensão com a Venezuela, que pode descambar para uma solução militar, a crise da Argentina afeta diretamente nossa produção industrial com a queda nas exportações.
Neste ambiente o governo é torpedeado com fogo amigo, com as brigas internas no PSL, o bate-boca entre o guru Olavo de Carvalho e os deputados, e com as denúncias de corrupção do filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, para não falar da cirurgia.
Está ficando complicado. Além de queda, ... coice.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Queiroz, Flávio, Economia e Davos: tudo junto e misturado


Semana de 14 a 20 de janeiro de 2019

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, após leve alta de 0,02% em outubro, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), cresceu apenas 0,29%, em novembro. Este número fortalece a projeção de que o resultado do quarto trimestre será fraco, e ainda pôs em dúvida a projeção de 2,5% para o PIB de 2019. No mês, a produção industrial aumentou somente 0,1%, o setor de serviços ficou estável e as vendas no varejo cresceram 2,9%, influenciadas pela Black Friday.
Outros números preocupam. Os indicadores antecedentes de dezembro deram péssimos sinais. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a LCA Consultores, a utilização da capacidade instalada da indústria diminuiu 0,8%, o tráfego de veículos pesados nas estradas caiu 1,4%, a expedição de papelão ondulado diminuiu 4,4% e a venda de veículos caiu 3,8%.
O desemprego, segundo apurou a PNAD (Pesquisa nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, caiu para 11,6%, no trimestre encerrado em novembro. Mas, o BTG Pactual levantou preocupações referentes ao mercado de trabalho, pois permanece o alto nível de informalidade, com salários reais estagnados e cresce a mão de obra subutilizada (desempregados somados àqueles que desejam trabalhar por mais tempo e trabalhadores que deixaram de procurar uma vaga).
Mesmo assim os analistas demonstram otimismo. A melhoria das condições financeiras, a possível aprovação das reformas, a inflação baixa com manutenção de juros também baixos, a recuperação do crédito e a melhora do mercado de trabalho são, segundo eles, indicadores potenciais da nossa recuperação. Mas, eles não consideram a evolução da situação mundial coisa que temos alertado em nossas últimas análises.
O Fórum Econômico Mundial começa diante da iminência de uma nova crise. Uma das ameaças vem da dívida global acumulada de 225% do PIB de todo o mundo, volume que está maior do que o de antes da crise de 2008. As demais ameaças vêm da desaceleração econômica dos países. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já constatou gradual desaceleração para os próximos anos. E as projeções de crescimento menor na China, de 6,6% em 2018, para 6,2% neste ano e 5,8% em 2022 são também alvos de preocupação. A Capital Economics declarou que a desaceleração global vai ser impulsionada pelos EUA, pelo aumento dos juros e pela exaustão dos estímulos fiscais promovidos por Donald Trump. A Itália e a Alemanha também estão à beira de uma recessão. Diante deste cenário, o Rabobank apontou até uma data para a eclosão do evento: a partir de maio de 2020.
Enquanto isso, assistimos, internamente, nada surpresos, a queda dos arautos da honestidade, retratada no episódio sem fim do Fabrício Queiroz que atingiu em cheio a “família tradicional” a partir do envolvimento de Flávio Bolsonaro.
Com a atenção voltada para estes escândalos a situação externa está passando despercebida. E como o superministro da Economia ainda está deslumbrado com a sua própria posse, não se deu conta do perigo iminente. Alheia à realidade, a comitiva presidencial partiu para Davos. Paulo Guedes desfilará como autoridade suprema que traz nas mãos o grande milagre econômico liberal. Sérgio Moro posará de caçador de corruptos e o presidente ganhou mais importância diante da ausência das autoridades dos Estados Unidos, França e Reino Unido.
Ao pisar em solo suíço, Bolsonaro deu o tom do seu discurso. Em entrevista, disse que seu maior objetivo é garantir que os negócios “voltem a florescer entre o Brasil e o mundo, sem o viés ideológico”.
Tais afirmações sem sentido refletem as ideias de uma equipe de governo formada com grupos de interesses diversos que vão desde as questões econômicas e de infraestrutura (os moderados) às questões dos costumes, lendas, conspirações e coisas afins (os alucinados) que defendem a luta contra a dominação comunista mundial (!) e o marxismo cultural.
 Por enquanto está ganhando o discurso alucinado. Começamos mal.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O que esperar do “Resto do mundo” em 2019


Semana de 07 a 13 de janeiro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Em economia, como o próprio nome sugere, “Resto do mundo” é como classificamos todos os demais países que realizam algum tipo de transação com o nosso. Isto é importante, naturalmente, porque esta relação influencia a atividade produtiva de qualquer nação individualmente, seja na entrada seja na saída de recursos.
No caso do Brasil, segundo o IBGE, do PIB total produzido entre 2000 e 2017, 12,5% foram exportados para o “Resto do mundo”. Entre 2003 e 2008, quando passamos por um período de forte crescimento da demanda mundial por commodities (basicamente produtos primários e de baixo valor agregado), as exportações corresponderam a 14,5% do PIB. De lá pra cá (a partir de 2009), o percentual do PIB brasileiro que foi exportado caiu para 11,9%. De qualquer forma, esta cifra é significativamente superior ao visto na última metade da década de 1990 (década em que o país passou por uma “reestruturação produtiva”), quando o Brasil exportou apenas 7,6% do PIB.
As importações apresentaram cifras semelhantes, mas com menor oscilação ao longo do tempo. De acordo com os dados do IBGE, durante a última metade da década de 1990, as importações corresponderam a 9,8% do PIB brasileiro, ou seja, aquilo que foi necessário comprar do “Resto do mundo” correspondeu a quase um décimo do valor de tudo o que o país produziu entre 1995 e 1999. Isto fez parte da já falada reestruturação produtiva dos anos de 1990. Findo este processo, as importações como proporção do PIB passaram a apresentar um padrão nas décadas seguintes: 12,8% entre 2000 e 2017, sendo que entre 2003 e 2008 foi de 12,6% e entre 2009 e 2017 foi de 12,8%.
Assim, vemos que parte do comportamento da economia brasileira tem relação direta com os produtos vindos e vendidos ao “Resto do mundo”. Somando as importações e exportações, a corrente comercial do Brasil com os demais países do mundo correspondeu a 25,3% do PIB, entre 2000 e 2017.
Em análises anteriores, já foi dito que a economia nacional está saindo a passos curtos da sua pior crise. Contudo, também foi dito que a economia mundial está dando sinais de que entrará em fase de crise. Pois bem, os dados referentes ao fim de 2018 mostram que ela já pode ter chegado nesta fase.
O primeiro sinal vem da maior economia da Europa, a alemã, que, segundo estimativas preliminares de órgãos oficiais, cresceu apenas 1,5%, em 2018. Este é o menor valor dos últimos 5 anos. Esta taxa deve ter evitado uma recessão técnica (quando há decrescimento do PIB em dois trimestres consecutivos), na medida em que representa crescimento positivo no último trimestre de 2018, ante a queda de 0,2% no terceiro trimestre. De qualquer forma, isto sinaliza que as turbulências na economia do “velho continente” não foram superadas. Na União Europeia, segundo a Eurostat, entre novembro e outubro de 2018, a produção de bens de capital caiu 1,6%, bens intermediários 1,1%, bens de consumo duráveis 1,0%, bens de consumo não-duráveis 0,6% e energia 0,5%. Dentre as principais causas apontadas para isto está a redução da atividade chinesa.
Apesar de todo o ano de 2018 apresentar um crescimento significativo no comércio exterior (9,9% nas vendas e 15,8% nas compras em relação a 2017), em dezembro de 2018 as exportações da China reduziram-se em 4,4%, em relação ao mesmo mês de 2017, e as importações caíram 7,6% na mesma comparação. A desaceleração do país asiático ao longo de 2018 foi tal que o governo chinês está preparando um pacote de estímulos fiscais para reaquecer a demanda doméstica.
A partir dos dados oficiais a serem divulgados sobre a atividade produtiva internacional nos últimos meses de 2018 poderemos ter maiores informações do que está acontecendo (e já aconteceu) com o ciclo econômico mundial. Contudo, as informações disponíveis, as políticas econômicas (fiscais e monetárias) e as perspectivas de vários analistas nos dão fortes indícios de que a crise mundial já se manifesta.
Resta saber como nosso superministro irá enfrentá-la já que ele nem se dá conta de que ela vem aí.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A espera de um milagre


Semana de 01 a 06 de janeiro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
No campo da economia as perspectivas continuam inalteradas: crise mundial em marcha, recuperação interna lenta e instável. Os dados confirmam as mesmas tendências. No terreno político as novidades são inúmeras e diárias. Continuamos perplexos com os discursos de posse do presidente e de seus ministros e colaboradores.
A cada pronunciamento pensamos que ocorreu o pior e no momento seguinte algo maior acontece. Pelo que está sendo prometido e por alguns atos que são anunciados a situação promete ser desastrosa. Não são poucas as contradições entre os grupos que compõem o governo. O mais ridículo é formado pelos defensores da moral e da família. São os pupilos do astrólogo Olavo de Carvalho, guru do presidente, e que infelizmente controlam a educação, as relações exteriores e o meio ambiente. Entre outras coisas eles pretendem queimar o Professor Paulo Freire e acabar o comunismo. Defendem uma aliança com o grotesco Trump transferindo a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém a fim de contribuir para o apocalipse e o juízo final. Tal é o tamanho da ignorância que se aproxima da debilidade mental. Como se não bastasse, e para aumentar a nossa vergonha, a eles juntou-se a fanática ministra das mulheres, a tal que surpreendeu Jesus em cima de uma goiabeira e determinou que as meninas e os meninos devem usar roupas rosa e azuis.
Ainda não se sabe como este projeto moral será executado.
Na área da segurança o projeto de acabar com a violência e o crime organizado ainda não tomou forma e elas continuam aumentando. O grupo encarregado dessa área além de contar com o competente Sergio Moro, controla um aparato militar formidável comandado por uma elite de generais e outros oficiais. Há mais militares no governo do que na época da ditadura. Ainda não sabemos contra quem este aparato será utilizado: contra os bandidos ou contra os “vermelhos”, como prometeu o presidente.
Em relação à agricultura e o meio ambiente o caminho será único. Com o ministério da agricultura na mão dos ruralistas, adeus meio ambiente e preservação da natureza. Vão envenenar tudo e passar o trator em cima de florestas e pessoas (coitados dos índios). O Luiz Nabhan, produtor rural e secretário especial de assuntos fundiários do Ministério da Agricultura já avisou: não tem dinheiro para ONGs, não conversa com movimentos criminosos (MST, MTST) e qualquer invasão de terras será tratada como crime. O próprio presidente declarou que não demarcaria nem um centímetro de terra indígena. Conclusão: adeus Amazônia, índios, animais, preservação, etc.
No meio de tanta loucura, fanatismo e insensatez o grupo dos militares desponta como o mais equilibrado e pragmático. Afinal não é com Jesus em cima de goiabeiras que se ganham batalhas. Eles também sabem, graças aos estudos de história, que, com a queda do muro de Berlim, o comunismo acabou e os interesses nacionais são outros.
No terreno da economia a situação é previsível. Aí não há visões celestiais, mas crenças teóricas. A equipe monolítica dos “Chicago oldies” comandada pelo super sinistro Paulo Guedes sabe o que quer, já disse, está pondo em prática e vai continuar em uma só direção. Não haverá surpresas. Pretendem reduzir o tamanho do estado, privatizar tudo, fazer a reforma da previdência urgente, fazer o ajuste fiscal para equilibrar o orçamento a qualquer custo. Outra linha é a liberalização da economia e do mercado de trabalho. A legislação trabalhista deve ser liquidada e a carteira de trabalho verde amarela é um caminho para isto. Por um ato de fé, eles acreditam, creem, que com isto a confiança dos consumidores, empresas e investidores será restaurada e o milagre acontecerá: os consumidores vão consumir, os empresários vão investir, os empregos serão criados, o desemprego cai, as taxas de juros caem e a economia iniciará um processo de crescimento sustentado. O milagre estará feito, o liberalismo triunfará e o governo será consolidado por muitos anos.
 E se não houver o milagre?
Enquanto isso não ocorre nomeiam-se e protegem seus corruptos, parentes e afilhados. Tudo como dantes. E o bate cabeça continua nos mentidos e desmentidos das diferentes autoridades.
Eis o governo do ex-capitão. Tudo previsível, não reclamem.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2019: O ano do mit... mico


Semana de 24 a 30 de dezembro de 2018

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Nesta última semana do ano disponibilizamos a derradeira análise de conjuntura de 2018 agradecendo àqueles que nos acompanharam semanalmente. Nos despedimos do ano que finda desejando o melhor para o ano vindouro. Mas como temos consciência de que os nossos desejos nem sempre se tornam realidade, vamos aos fatos.
Embora a maioria dos prognósticos econômicos para 2019 sejam positivos, com média de crescimento para o PIB de 3%, os últimos dados da conjuntura não permitem afirmar que este número será real. A Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) apurou que as vendas dos lojistas em shopping centers cresceram nominalmente 5,5% neste Natal em relação ao mesmo período do ano passado. A alta foi menor 0,5 ponto percentual que a apresentada em 2017. Se a inflação do período for considerada, a queda é mais clara: o crescimento real nas vendas das lojas de shoppings fechou em 1,8% quando a elevação de 2017 foi de 3%.
Quanto ao emprego, os últimos números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE (Pnad contínua) mostram que a taxa de desocupação fechou em 11,6% no trimestre móvel encerrado em novembro de 2018. Houve queda de 0,5 ponto percentual em relação ao trimestre de junho a agosto de 2018 e, em relação ao mesmo trimestre móvel de 2017, a queda foi de 0,4 ponto percentual. O número de trabalhadores desalentados, que ainda é muito alto (4,7 milhões), ficou estável em relação ao trimestre junho a agosto de 2018 e subiu 9,9% em relação ao mesmo trimestre de 2017. O número de empregados no setor privado com carteira assinada foi de 33 milhões mantendo-se estável. 11,7 milhões é o total de empregados sem carteira assinada e 23,8 milhões representa o total de trabalhadores por conta própria, ambos apresentando o maior contingente da série histórica. É uma tragédia. A resiliência do mercado de trabalho brasileiro mostra que o problema não reside apenas nas questões políticas. A saída de Dilma e dos “petistas” do poder, o desmonte de algumas políticas econômicas e a aprovação da reforma trabalhista não salvaram o Brasil do desemprego, nem produziram grandes prodígios econômicos.
Portanto, o que esperar em 2019? Indicadores econômicos já apresentados em análises anteriores mostram que o milagre esperado, com a ascensão de um novo presidente da República ao Planalto, não irá acontecer. A análise pragmática da realidade nos apresenta uma economia com alta capacidade ociosa, níveis baixíssimos de investimento público, baixa taxa de juros, baixa inflação e alto desemprego. São enormes os desafios da próxima gestão mesmo sem considerar as ameaças externas.
Os prognósticos ficam ainda piores se olharmos para os diferentes interesses dos grupos que formatam o governo Bolsonaro: além da prole do presidente temos os liberais, militares, evangélicos e ruralistas. Desengessar, desmontar, reduzir o tamanho do Estado, desregulamentar, são as palavras de ordem dos integrantes do novo governo.
O discurso soa fácil. E daí, se o Estado perder a sua função social? E daí, se o mercado de trabalho estiver cada vez mais próximo da informalidade? E daí, se o sistema S for liquidado? Quem liga para o Mercosul? E daí, se os trabalhadores sem-terra forem tratados como terroristas? E daí, se fecharmos o supremo apenas com um soldado e um cabo? E daí, se a posse de arma de fogo for liberada ao cidadão comum? E daí, se as relações com Israel forem estreitadas e desagradarem alguns “árabes”? E daí, se eliminarmos os “vermelhos”?
O que mais assusta é o desinteresse em relação às consequências destes atos, caso se concretizem. Parece que se ignora que elas recairão sobre uma sociedade formada por pessoas, seres humanos.
Neste cenário tudo leva a crer que o tal mito, figura alegórica criada por alguns e encampada por seguidores em redes sociais (que representam apenas 3,92% da população brasileira), terá que descer do seu pedestal artificial e reduzir-se a sua verdadeira pequenez sabendo que governará para 209,2 milhões de brasileiros.
Será 2019 o ano do mito ou do mico?

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

As contradições na formação do governo Bolsonaro


Semana de 17 a 23 de dezembro de 2018

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Prezado leitor, apesar da presente coluna tratar de análise de conjuntura econômica, não podemos deixar de lado o entendimento das alianças realizadas em torno daqueles que irão exercer o poder político nos próximos quatro anos. Dentre outras coisas, o resultado dos acordos realizados entre as classes sociais (e suas frações) será o grande fio condutor das ações governamentais daqui por diante.
A primeira coisa a destacar, e mais flagrante, é que os grupos de maior poder econômico são aqueles com maior potencial de impor suas pautas e interesses. Por isso, existem frações da sociedade que tendem a ser mais beneficiadas nas políticas públicas. No Brasil, desde a década de 1990, a elite financeira tem seus interesses atendidos pelos sucessivos governos. Atualmente, uma forma prática de vermos isto é através dos resultados dos balanços anuais dos bancos, que, ano após ano, apresentam lucros cada vez maiores. No governo que se forma, para o período 2019-2022, o superministro Paulo Guedes e sua equipe devem garantir a manutenção e, sem dúvida, reforçar esta situação de dominação.
Uma das grandes bandeiras levantadas pelo setor financeiro é a liberalização e desregulamentação dos mercados: quanto mais “livre” for a mobilidade de dinheiro (entrando e saindo nas diferentes áreas), mais fácil se pode ampliar a rentabilidade das aplicações. A forma de abertura, contudo, pode não ser do interesse de toda classe empresarial. Já citamos, em colunas anteriores, algumas pérolas do futuro superministro. Dentre tantas, lembramos aquela sobre o Mercosul, quando Guedes, além de reduzir a importância do bloco, resolveu criticar e ameaçar os acordos vigentes. Caso cumpra as promessas, suas ações atingirão em cheio grande parte da elite industrial que tem como principal destino das exportações dos seus produtos os mercados da região latino-americana.
Engrossando a fileira dos prováveis insatisfeitos com as medidas favoráveis ao setor financeiro estão os integrantes de alta patente das forças armadas brasileira. Apesar de um general de quatro estrelas ser o vice-presidente, ele está na reserva, goza de menor influência sobre os ativos e, tal como o próprio Bolsonaro, não é unanimidade dentre os oficiais superiores e generais ativos. O motivo maior para a insatisfação dos milicos é a perda de soberania nacional resultante do processo de privatização generalizada defendido pelo super ministro, Paulo Guedes. Já prontos, deixados de presente por Temer, existem projetos de leilões para 12 aeroportos, 4 terminais portuários e 1.537 km de ferrovias. Além dessas, existem 80 projetos que podem ser realizados nos próximos anos.
Mas, isto não significa que interesses de outras frações da elite econômica não sejam atendidos. Por exemplo: a quem interessa a mudança no processo de demarcação de terras e a estúpida lógica de “integração do índio ao Brasil”? Isto é uma bandeira de setores da agroindústria, que é pop mas não é besta. A parcela mais atrasada da elite rural, que se baseia na agropecuária extensiva, e os empresários do setor extrativo, que buscam explorar seus recursos naturais, são os que mais se beneficiariam com as mudanças nas leis que tratam do meio ambiente e dos povos tradicionais.
A ideia de jerico de unir os Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura logo foi descartada. Não por um lampejo de consciência, mas porque os grandes exportadores da agroindústria foram internacionalmente ameaçados de suspensão das compras, caso o Brasil não apresentasse o mínimo de respeito à natureza e aos povos locais. Coisa parecida está acontecendo com o Acordo de Paris, que foi novamente criticado por Bolsonaro e já gerou reação dos chefes de governo da Alemanha e da França, que ameaçaram não realizar negócios com “países poluidores”.
E olhe que não reservamos espaço para falar da loucura desvairada dos ministros pitorescos. A partir do que vimos na campanha, por não dizer muita coisa para além do “mudar isso daí”, o caro leitor acha que Bolsonaro vai conseguir harmonizar as contradições durante todo seu governo?
Se não há resposta, perguntemos no Posto Ipiranga. Quem sabe eles nos digam onde está o Queiroz...

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Expectativas para o novo ano e governo


Semana de 10 a 16 de dezembro de 2018

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
O panorama externo continua sombrio. Nos EUA, empresas como a Pimco, que administra US$1,72 trilhão em recursos, avisou seus clientes que a probabilidade de recessão no país subiu para 30%, nos próximos 12 meses. Na União Europeia (UE), o Banco Central Europeu (BCE) vê a desaceleração na zona do euro e estima em 1,9% a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, preocupado com a situação da Itália, Alemanha e França. Decidiu manter suas taxas de juros incluindo as taxas negativas de 0,4% para os depósitos bancários. Demonstrou preocupação com a situação de 19 países. Mario Draghi, seu presidente, lastima que precisará de mais tempo para reduzir os estímulos que o banco vinha praticando, afirmando que os riscos aumentaram por causa da onda protecionista, das turbulências geopolíticas e da vulnerabilidade dos mercados emergentes. No terceiro trimestre a taxa de crescimento caiu para 0,2%.
A relação EUA x China subiu de tenção com a prisão, no Canadá, a pedido dos americanos, de Meng Wanzhou, diretora da Huawei, gigante chinesa da informática.
Depois das declarações do presidente da França Emmanuel Macron de que não negociará com países que não respeitam o acordo do clima de Paris, foi a vez de Ângela Merkel, premier da Alemanha, fazer declaração no mesmo sentido. São mais dificuldades para o acordo de livre comércio Mercosul e União Europeia.
Estas são novidades que apontam para o agravamento do ambiente externo.
Internamente continua a “tragédia lenta e errática da recuperação da atividade econômica” segundo as palavras da MCM Consultores Associados.
De fato, o IBC-Br, indicador antecedente do PIB calculado pelo Banco Central (BC), apontou para um crescimento de apenas 0,02% da economia, em outubro. Outro indicador negativo veio da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em outubro, as vendas do varejo restrito caíram 0,4% e as do varejo ampliado (que inclui veículos e materiais de construção) caíram 0,2%. As quedas foram generalizadas: tecidos, vestuários e calçados (-2%), móveis e eletrodomésticos (-2,5%), equipamentos e materiais de escritório (-0,8%). A principal causa apontada foi o desemprego.
Tudo indica que os resultados para o quarto trimestre serão mornos.
O IBGE divulgou ainda uma série de indicadores que mostram a gravidade dos problemas sociais que afetam a desigualdade de renda, a educação, a habitação e o mercado de trabalho. Em 2017 o número de pobres aumentou 1,97 milhão, ou seja, 3,7%, passando a 52,8 milhões de pessoas, 26,5% da população. A extrema pobreza também cresceu 12,5%, passando a 15,2 milhões e representando 7,4% da população do país. A taxa de desemprego subiu de 6,9%, em 2014, para 12,5%, em 2017 e o trabalho informal neste ano alcançou 37,3 milhões de pessoas, ou seja, 40,8% da população ocupada.
A fragilidade da situação econômica levou o Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do BC, a manter a Selic em 6,5%, considerando também que os núcleos da inflação estão sob controle e em nível “confortável”, substituindo a palavra “apropriado”. No entanto também alertou para o cenário externo, com as incertezas do comércio global e o aumento da aversão ao risco.
Neste ambiente, uma ampla maioria da população (64%) tem expectativas positivas sobre o novo governo, segundo pesquisa do IBOPE/CNI e 74% acham que ele está no caminho certo.
Parece que os escândalos envolvendo a família Bolsonaro e os processos pendentes sobre vários de seus ministros (além da quase debilidade mental demonstrada por alguns deles) e nem mesmo as falas do presidente eleito defendendo praticamente a extinção da legislação trabalhista, abalaram a fé das multidões.
Nem a fé do novo “time dos sonhos” agora formada pelos Chicago’s oldies (velhos de Chicago) como se auto intitula a equipe do ministro Guedes.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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