quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Economia estagnada e governo trapalhão


Semana de 17 a 23 de fevereiro de 2020

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
Com a situação de estagnação da economia era de se esperar que o governo estivesse concentrando todas as suas forças para ultrapassar a difícil situação. Mas não foi isto que ocorreu. A semana que passou esteve muito agitada, mas não por razões econômicas. Os grandes acontecimentos, ou melhor, as grandes trapalhadas foram causadas pelos membros do próprio governo a começar pelo insensato presidente, ao fazer grosseiras e machistas referências a uma jornalista, perante sua claque imbecil, paga para rir e aplaudir seus medíocres comentários na porta do palácio. Não satisfeito, acusou o governador da Bahia pelo assassinato do miliciano Adriano da Nóbrega e, em vez de aplausos, recebeu uma carta assinada por 20 governadores repudiando a maldosa e descabida insinuação. A bola passou então para o poderoso sinistro da Economia Paulo Guedes. Depois de declarar-se satisfeito com a alta do dólar, afirmou que, com o dólar baixo, qualquer pé rapado, como as empregadas domésticas, podia ficar viajando para a Disneylândia em vez de ir ver as belezas de Cachoeiro do Itapemirim. Mas ainda foi pouco. Foi preciso a ratazana velha mostrar seus dentes e rosnar um “foda-se” contra o Congresso Nacional, chamado de chantagista. O general Heleno, iminência parda do governo, encabeça agora a tropa de generais na convocação das manifestações de março em apoio ao governo.
Outro acontecimento que ocupou a semana foi a revolta das polícias que ocorre em vários estados e atingiu níveis de motim no Ceará, estado governado pelo PT. A rebelião culminou com os disparos de arma de fogo que atingiram o senador Cid Gomes e levou ao decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com envio de tropas federais.
Estes acontecimentos tiraram o foco do cenário econômico onde se agravam as tendências por nós apontadas até agora. No panorama internacional, no Japão, no último trimestre de 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) sofreu a maior contração em cinco anos. Em relação ao trimestre anterior a queda foi de 6,3% e espera-se nova queda no primeiro trimestre de 2020. Os gastos com bens de capital caíram 14,1% e as exportações 0,4%. Cingapura e Coréia do Sul começaram a tomar medidas emergenciais contra a desaceleração. A ameaça do corona vírus fez algumas grandes companhias, como a Apple, informar que não atingirá suas metas de produção e lucratividade, provocando pânico nas bolsas.
Embora estas ressacas internacionais ainda não tenham atingido nossas praias, a economia do país continua a arrastar-se para desespero do super sinistro da Economia Guedes que levou um puxão de orelhas do presidente, que exige resultados. Depois de desmoralizar as previsões oficiais de crescimento em torno de 3%, o PIB cresceu 1,3% em 2017 e 2018. Agora em 2019, a previsão que era de 2,5% já está rebaixada para 1%, apesar das reformas trabalhistas e da previdência, que prometiam milagres. Nem a atração dos capitais estrangeiros se confirmou.
Segundo Renato Baumann, secretário de Investimentos Estrangeiros da Secretaria Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) ligada ao Ministério da Economia, só 15% dos investimentos estrangeiros diretos vieram para abertura de novos negócios. 85% se destinaram a compra de empresas existentes e a preço de banana. Além disso, não vieram para atividades industriais, mas sim para serviços.
Os fracos resultados econômicos provocam lamentações gerais. Segundo estudo feito pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) esta é a mais lenta recuperação que o país já conheceu. Há 22 trimestres que a produção está abaixo dos níveis de 2014 a 2016. Lamentavelmente a pouca demanda existente está sendo suprida pelas importações, apesar da indústria estar trabalhando com 70,6% da capacidade instalada. O Ibre da FGV calcula que o PIB no último trimestre cresceu apenas 0,6% e que a FBCF encolheu 0,8%. Estimou ainda, para 2019, um crescimento de 1,2%. A produção de bens de capital caiu 0,4% e as importações subiram 18,2%. O Banco Central publicou o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) para 2019: 0,89%.  É para apoiar estes resultados que o governo está convocando as manifestações para meados de março.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O cenário econômico traduzido em números, não em vontades


Semana de 10 a 16 de fevereiro de 2020

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, o mundo continua lidando com as consequências do surto do coronavírus que ameaçam se estender também à economia. Empresas sediadas na China, onde o surto se iniciou, mesmo autorizadas a voltar a produzir, prorrogaram férias e adotaram o trabalho remoto. Escolas continuam fechadas e consultorias já começam a rever as projeções para o crescimento daquele país. A doença já custou mais de um bilhão de euros à Alemanha, por exemplo. O setor industrial alemão que vem apresentando dificuldades pode liderar uma recessão na economia. Lá, já se espera uma contração para o quarto trimestre de 2019 e o resultado do primeiro trimestre deste ano é incerto, segundo levantamento feito pelo Deutsche Bank.
Enquanto isso, no Brasil, o governo, seus apoiadores e alguns economistas, continuam surfando na onda de “otimismo” que eles mesmos criaram. O presidente já declarou várias vezes que a economia “vai muito bem”. Sendo assim, gasta seu tempo fazendo o que sabe efetivamente fazer: atacar de maneira vil e rasteira jornalistas, oposição, ambientalistas e todos os que considerar inimigos.
Os recentes números só respaldam a percepção defendida em nossas análises anteriores. O cenário rosa que alguns querem pintar mostra-se cinza, sua cor real. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgou uma queda do varejo de 0,1% em dezembro em relação a novembro, após sete meses seguidos de alta. O número retrata o recuo das vendas no mês de Natal e deu uma rasteira no mercado que previa alta de 0,2% nas vendas. Pelo segundo mês consecutivo, a realidade atropelou os “otimistas” e de novo já se cogita que a recuperação pode não ser “tão sólida”. Como consequência, o dólar bateu novo recorde e chegou a R$ 4,35. Só neste ano, o dólar acumula alta de 8,4%, tornando o real a moeda que mais se desvalorizou no período.
Como as coisas “estão indo muito bem”, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reafirmou durante esta semana que o real desvalorizado é positivo para a economia e para as contas do governo. E de quebra, “ilustrou”: “Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos exportar menos, substituição de importações, turismo, todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada. (...)”. Pessoas de quinta, como os parasitas dos funcionários públicos e as atrevidas domésticas que se aventuram na Disney, incomodam o Posto Ipiranga. E para coroar seu ranço, lacrou (afinal está na moda): “Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeiro do Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu, vai passear o Brasil...”.
Com seu profundo conhecimento do poder de compra das domésticas brasileiras e sua grande sapiência em mercado cambial, o ministro contribuiu para que a moeda estrangeira alcançasse um novo recorde, fechando a R$ 4,38. O Banco Central, liberal que é, aplicou o liberalismo de Guedes e fez uma intervenção surpresa no mercado de câmbio para conter a alta.
Enquanto o ministro se diverte, assim como seu chefe, atacando pessoas, a divulgação do resultado do Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br), que funciona como uma prévia do PIB, confirma a fragilidade da economia brasileira. O IBC-Br registrou queda de 0,27% em dezembro quando comparado a novembro e crescimento de apenas 0,89% em 2019. Vale lembrar que a expectativa de crescimento oficial que estava prevista no orçamento, era de 2,5%.
E, pelo visto, a situação só está piorando. Levantamento feito pela Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, mostra que apenas 3 dos 15 estados investigados apresentaram produção industrial acima do nível registrado em 2013. Pará, com alta acumulada de 35,3% no período, Mato Grosso com 10,4% e Santa Catarina com 0,2%, se destacam num cenário de piora da produção industrial nacional que registrou queda de 1,1% em 2019, segundo o IBGE.
Gostando ou não, esta é a realidade conjuntural da economia brasileira, que sempre se impõe às grosserias, achismos e torcidas.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Alguns pontos sobre a reforma tributária


Semana de 03 a 09 de fevereiro de 2020

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

O Brasil está passando por um conjunto de reformas estruturais. Claro, como já vem sendo posto na presente coluna há tempo, tais reformas têm apresentado um caráter negativo para a classe trabalhadora. A bola da vez agora, é a reforma tributária.
Duas são as propostas principais em discussão na atualidade: uma na Câmara dos Deputados (PEC 45/2019), a outra no Senado (PEC 110/2019). Segundo trecho do site da Câmara: “Em ambas as proposições, a alteração do Sistema Tributário Nacional tem como principal objetivo a simplificação e a racionalização da tributação sobre a produção e a comercialização de bens e a prestação de serviços”. Isto já mostra que ambas estão partindo do ponto errado, pois visam essencialmente simplificar os tributos indiretos.
Basicamente esses tributos são pagos por um indivíduo e repassados ao governo por outro (por isso são indiretos). Por exemplo, os tributos indiretos são os que recaem sobre a aquisição de bens e serviços em geral, como é o caso do ICMS, pago por quem compra uma mercadoria (consumidor) e repassado ao governo por quem vende (empresário, caso este não seja um sonegador). Por outro lado, existem os tributos diretos, que recaem diretamente sobre o devedor. É o caso do imposto de renda, por exemplo: quem tem renda mensal acima de R$ 1.903,98 é obrigado a pagar à Receita Federal um percentual dessa renda como imposto. É o indivíduo pagando diretamente ao Estado, tendo parte da sua renda retida na fonte (o que diminui a possibilidade de sonegação).
Agora o leitor se pergunta, por que é importante se compreender a diferença entre os dois tipos de tributos? Vamos fazer um exercício bem simplificado.
Vamos admitir que existem duas famílias, uma que recebe mensalmente R$ 2.000 e gasta um total de R$ 500 “na feira” todo mês, e a outra família recebe R$ 50.000 por mês e gasta “na feira” um total de R$ 5.000 cada mês. Vamos supor que a tributação indireta média sobre “a feira” seja de 20%, ou seja, de cada R$ 100 que se gasta “na feira”, R$ 20 é imposto. Assim, os impostos indiretos pagos “na feira” pela família mais pobre totalizam R$ 100, enquanto a família mais rica paga de imposto indireto com “a feira” um total de R$ 1.000. Colocando o pagamento de impostos de cada família como proporção da sua respectiva renda, a gente vê a perversidade desse tipo de tributação. Enquanto a família mais pobre gasta um percentual de 5% da renda com impostos indiretos (R$ 100/R$ 2.000), a família mais rica, que gasta 10 vezes mais “na feira”, paga um percentual de 2% da renda em impostos indiretos (R$ 1.000/R$ 50.000). Isto é piorado pela estrutura tributária brasileira. Parte dos bens e serviços consumidos pelos mais ricos (bens de luxo) tem uma incidência tributária diferenciada. É o exemplo dos iates e helicópteros, que não pagam alguns impostos, enquanto a família que anda de moto tem que pagar o IPVA. No exemplo acima descrito, o total arrecadado é R$ 1.100.
Agora, vejamos o caso do imposto direto sobre a renda.
Vamos admitir as mesmas famílias, com o mesmo rendimento mensal: R$ 2.000 e R$ 50.000. Neste caso, vamos admitir que os impostos incidam diretamente sobre a renda e a alíquota seja de 5% (que é o mesmo percentual pago pela família mais pobre no exemplo anterior). Desta forma, a família mais pobre paga os mesmos R$ 100 de antes (5% sobre R$ 2.000), enquanto a família mais rica paga um imposto total de R$ 2.500 (5% sobre R$ 50.000). Como arrecadação total nesse sistema de tributação direta sobre a renda, teríamos um valor de R$ 2.600. Além da arrecadação no exemplo ter sido maior, temos maior equidade, pois todos pagam um valor proporcional à renda que recebem.
Se quiséssemos ampliar as possibilidades e introduzir as discussões que têm tomado o debate econômico em escala internacional, poderíamos introduzir na discussão o conceito de justiça social. Nele, como forma de amenizar as mazelas históricas e as distorções que qualquer economia de mercado (economia capitalista) gera, discute-se formas de melhorar a distribuição de renda para a parcela mais pobre da população.
Nesse contexto, a questão que se coloca é: a elite brasileira está disposta a fazer isso? Se não, o que a classe trabalhadora está disposta a fazer? À luta!

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Incompetência, ignorância e economia: nada mudou


Semana de 27 de janeiro a 02 de fevereiro de 2020

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, o desgoverno brasileiro continua. As demonstrações de incompetência e desconexão da realidade tornaram-se uma prática corriqueira da atual administração federal. Com teses gerais que podem ser desmontadas por uma criança de 5 anos, olavistas terraplanistas e o incapaz ministro da Educação, continuam a produzir lambanças na pasta. A credibilidade do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi comprometida à medida que os estudantes passaram a detectar as falhas na divulgação dos resultados que culminaram em intervenção do Poder Judiciário. A trapalhada rendeu um convite do Senado ao ministro para que ele preste explicações sobre o ocorrido.
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, continua a confundir posições religiosas com aplicação de políticas públicas e vai pôr em ação peças publicitárias que aconselham abstinência para prevenir a gravidez na adolescência. Especialistas da área da Saúde pediátrica e obstétrica já lançaram uma série de protestos, pois segundo eles, os resultados desta ação serão nulos.
Outra incompetência colossal foi registrada no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Renato Vieira, presidente do órgão, demitiu-se após a polêmica sobre a fila de 2 milhões de pedidos de benefícios, que se formou e que poderia ter sido prevista, a partir das discussões iniciais sobre a Reforma da Previdência. Agora, para resolver o problema, serão contratados militares da reserva e servidores civis aposentados. O problema não foi criado pelo PT nem pelos comunistas que, segundo os seres inteligentes que compõem o governo, pretendem solapar o país e o mundo. O secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho, disse que cerca de 1.500 servidores que se aposentaram recentemente atuavam como concessores de benefícios e o órgão optou por não contratar novos servidores.
Para fechar as indecências semanais, finamente abriram a caixa preta do BNDES. E? Nada. Indivíduos racionais já sabiam que este seria o resultado. Joaquim Levy, inclusive, foi demitido do órgão por não ter autoziado a abertura imediata da caixa de Pandora. O BNDES pagou R$ 48 milhões à consultoria da Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, para analisar as operações realizadas entre 2005 e 2018. O atual presidente da instituição Gustavo Montezano, teve que admitir: “não há nada mais a se esclarecer a respeito...”. Em vez de bradar seu fracasso, mostrou-se inconformado por não ter encontrado irregularidades: “A verdade é que a gente concluiu que não houve nada de ilegal. A gente construiu leis, normas e aparatos legais e jurídicos que tornaram legal esse esquema de corrupção.” Que esquema? Não houve esquema algum!
Em meio à ignorância e a incompetência, esperanças são lançadas à melhora da conjuntura econômica. Mas, aí não há novidades. Embora se alardeie que a economia está em recuperação, nada de concreto temos para confirmar esta informação.
O Ministério da Economia divulgou que as empresas estatais federais investiram R$ 58,3 bilhões no ano passado. Comparado aos valores de 2018, os investimentos são 31,3% inferiores. A Petrobras foi a estatal que mais investiu no País (R$ 50,9 bilhões), número 36% menor que o de 2018.
No mercado de trabalho, foram criadas em 2019, segundo o Ministério da Economia, 644 mil vagas de trabalho com carteira assinada no país. A contratação foi puxada pelas micro e pequenas empresas, que terminaram o ano com um saldo de 731 mil pontos de trabalho. Em contrapartida, as médias e grandes empresas fecharam 88 mil vagas no ano passado. O resultado veio como alento para a conjuntura. O secretário do Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Dalcolmo, afirmou que o “...emprego tem dado mostras de vigor e sustentabilidade. A tendência é de alta.”
Mas os dados trazem um alerta. A este ritmo, serão necessários mais dois anos para o país recuperar o total de vagas perdidas com a recessão, pois entre 2015 e 2017, o Brasil fechou 2,9 milhões de empregos formais e entre 2018 e 2019, foram abertas 1,2 milhão de vagas, insuficientes para a reposição da perda.
Pouco a pouco, os indicadores de 2019 estão sendo divulgados. E ao contrário do que se propagou, eles novamente lançam incerteza sobre a nossa recuperação.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Depois de Davos


Semana de 20 a 26 de janeiro de 2020

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            
Estamos vivendo a ressaca do Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça. As duas grandes questões que se destacaram foram a desigualdade na distribuição da riqueza e os problemas ambientais. Para ambos os temas o Brasil chegou com a mala vazia.
O fundador do Fórum, o alemão Klaus Schwab, apresentou um novo manifesto, o “Manifesto de Davos 2020” em que propôs uma reforma do capitalismo, pois o modelo atual não é mais sustentável. O novo modelo deveria partir das premissas seguintes: pagamento justo dos impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente, qualificação dos empregados, uso ético das informações, vigilância dos direitos humanos, remuneração responsável dos executivos. Tudo que o Brasil não faz. Para aumentar a vergonha, o Brasil não se fez representar na sessão “Assegurar um Futuro Sustentável para a Amazônia”.
Causou grande impacto o relatório da Oxfam, rede de organizações não governamentais. O relatório mostrou que a desigualdade está fora de controle. Apenas 2.153 bilionários possuem mais riqueza que 60% da população mundial (4,5 bilhões de pessoas). 22 desses bilionários possuem mais dinheiro que todas as mulheres da África
O Fundo Monetário Internacional (FMI) também não foi otimista sobre a situação mundial. Reduziu todas as suas previsões. A economia foi fraca em 2019 e continuará pelo menos até 2021. O crescimento será inferior aos 3,6% registrados em 2018. As reduções foram: de 3% para 2,9%, em 2019; de 3,4% para 3,3% em 2020; de 3,6% para 3,4% em 2021. Todos os ajustamentos foram negativos. O FMI classificou a situação como de “estabilidade provisória e recuperação lenta”.
Estes dados confirmam as afirmações que temos feito sobre a situação da economia mundial e como a recuperação da economia interna não poderá contar com nenhum apoio externo.
Claro que esta situação econômica geral tem consequências para o emprego e a situação dos trabalhadores. Coincidindo com o início do Fórum, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou um relatório com dados assustadores. O relatório constata que em 7 das 11 regiões do mundo fracassaram as tentativas de conseguir um crescimento sustentável. Como consequência, se espalharam as turbulências sociais. Por outro lado, a proporção da renda do trabalho em relação à renda do capital caiu de 54%, em 2004, para 51%, em 2017. Para a OIT a “desigualdade é inaceitável e insustentável”. No mundo há 180 milhões de desempregados, 165 milhões de subempregados e 120 milhões marginalmente empregados. No total 470 milhões de pessoas não conseguem trabalho digno. Além disso, 630 milhões de trabalhadores vivem na pobreza extrema.
As más notícias não pararam por aí. A consultoria Pricewaterhouse Copers (PwC) entrevistou 1.581 CEOs de 83 países e divulgou seu termômetro do humor empresarial, o que faz sempre em Davos. A percentagem dos CEOs que achavam que a economia mundial vai melhorar caiu de 42%, em 2019, para 22%, em 2020. Os que achavam que a economia vai piorar subiu de 29% para 53% nos mesmos anos. Contribuindo para o pessimismo geral, a diretora-gerente do FMI, Kristina Georgieva afirmou que os países devem ficar com o dedo no gatilho para reagir a uma eventual desaceleração: “Estejam preparados para agir”.
Este é o panorama mundial após Davos.
Enquanto isso, o nosso sinistro da economia Guedes voltou de mãos abanando, mas confirmando a “desaceleração sincronizada da economia mundial” e que a América Latina está estagnada. A preocupação do presidente do Banco Central foi outra. Passou a admitir que mesmo os fluxos financeiros estão se ligando aos problemas ambientais. Grandes investidores internacionais começam a exigir dos países uma espécie de “selo ambiental”, como por exemplo a gestora americana Black Rock. Mais essa: com desmatamento não há investimento estrangeiro. Que tristeza!

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O que é insanidade?


Semana de 13 a 19 de janeiro de 2020

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

É comum circular em correntes de e-mail ou redes sociais a seguinte frase: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Muitos atribuem tal frase a Albert Einstein. Outros comprovam que isto não foi dito por ele. Existe até um site que, em 2017, resolveu buscar o pai desta célebre citação (https://quoteinvestigator.com/2017/03/23/same/#more-15768).
Obviamente, esta não é a definição de insanidade. Os psicólogos e psiquiatras jamais tratariam o tema com tal superficialidade. Contudo, nós, de outras áreas do conhecimento, podemos afirmar: é insano e estúpido esperar resultados diferentes mantendo-se as mesmas ações de sempre.
Já no final de 2014, no último ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff, foram adotadas medidas de política econômica que visavam sanear os principais problemas da economia brasileira. Que problemas eram esses? Excesso de gastos do governo e consequente interferência excessiva do Estado sobre o mercado. Vale lembrar que a economia já vinha em processo de desaceleração, iniciado em 2011 e aprofundado no início de 2014. O que “maquiou” a economia nesse meio tempo foram as políticas anticíclicas adotadas pela presidenta: redução do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para veículos, linha branca e material de construção; subsídio de crédito via BNDES aos exportadores brasileiros e aos investimentos em máquinas e equipamentos; o INOVAR-AUTO; Minha Casa Minha Vida 2; Minha Casa Melhor; PAC 2; etc.
Refrescando nossa memória, em 2015 um economista liberal ligado ao setor financeiro assumiu o Ministério da Fazenda: Joaquim Levy. Com ele veio um conjunto de medidas que desaqueceram ainda mais a economia. Por exemplo, em julho de 2015 a taxa de juros Selic subiu a 14,25%, maior valor desde agosto de 2006. Soma-se a isso o arrocho fiscal e a drástica redução do consumo governamental. O resultado não poderia ser outro: iniciava-se a pior crise da história recente do Brasil. A ideia era sanear os principais problemas causados pelo inchaço do Estado sobre a economia.
Com o Golpe Parlamentar de 2016, só assumido em 2019 pelo vice-presidente, Michel Temer, as políticas de retração se aprofundaram. Subiu ao posto de ministro da Fazenda outro economista liberal ligado ao mercado financeiro: Henrique Meirelles. Quem não se lembra da PEC do fim do mundo? Ela é aquela que congela quase todos os gastos governamentais por 20 anos, com exceção dos gastos ligados à parte da gestão financeira do Estado (não há teto para o pagamento dos juros, por exemplo, mas há teto para os gastos com saúde, educação, etc.). Novamente, a ideia era sanear os principais problemas causados pelo inchaço do Estado sobre a economia.
Por sua vez, os anos de 2017 e 2018 passaram sem maiores mudanças nessa política. O então presidente passou mais tempo se livrando de acusações de corrupção do que qualquer outra coisa.
Iniciado o ano de 2019, como todos nós sabemos, Jair Bolsonaro assumiu o posto máximo da república brasileira. No pacote, para além de nazistas, fascistas, terra planistas, olavistas e extremistas religiosos, veio mais um economista liberal originado do setor financeiro: Paulo Guedes. Caros leitores, quais foram as medidas adotadas por ele? As mesmas de sempre: arrocho para sanear os principais problemas causados pelo inchaço do Estado sobre a economia. Somando-se a isso está a liquidação do patrimônio estatal que, mesmo lucrativo e trazendo recursos ao Estado brasileiro, é considerado desnecessário ao desenvolvimento da nação. Dentre eles: o filé mignon, a picanha e o contrafilé da Petrobrás, a Eletrobrás, partes dos bancos estatais e uma lista que só cresce.
Pergunto ao caro leitor, diante desses fatos, o que seria insanidade? Se o caro leitor estiver na dúvida quanto ao que está acontecendo com o Brasil, observe como os tão desejados investidores estão reagindo a tudo isso. Se com todos esses anos de medidas iguais eles não se mexeram, como esperar resultados diferentes daqui pra frente?
Além de insano seria estúpido.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Novamente o voo da galinha


Semana de 06 a 12 de janeiro de 2020

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
Começa o ano e aumenta o desespero da “equipe dos pesadelos” comandada pelo sinistro Paulo Guedes. Onde estão as promessas de crescimento econômico, controle da inflação e do câmbio, aumento do emprego e dos investimentos?
Destruíram a previdência social e a legislação trabalhista, criaram a carteira verde e amarela, esmagaram os sindicatos, privatizaram estatais, entregaram o petróleo e a base de Alcântara e os capitais estrangeiros teimam em não vir. Vai ver que a serviço do comunismo internacional e do globalismo esquerdista querem sabotar o governo.
O câmbio disparou com o dólar superando a barreira dos R$4,00 e obrigando o Banco Central (BC) a estourar US$36,9 bilhões das reservas amealhadas pelos governos comunistas do PT que agora ficaram reduzidas a US$356,9 bilhões. Foi preciso alimentar a fome do capital estrangeiro que não caiu no canto da sereia do Guedes e bateu em retirada. Foi a maior saída de capitais da história. Fugiram US$44,8 bilhões para o exterior. Deve ser mais uma ação coordenada do comunismo internacional.
O Produto Interno Bruto (PIB) teima em se arrastar na categoria de “pibinho”. As estimativas para o ano continuam em torno de 1% de crescimento. Os novos dados publicados para a produção industrial de novembro mostram uma queda de 1,1% em relação a outubro e para dezembro é também esperada nova queda. Em novembro, das 26 atividades analisadas 16 foram negativas. A queda na produção de alimentos foi de 3,3%, na de automóveis 4,4%, na de bens de consumo duráveis 2,4%, na de bens de capital 1,3% e mesmo na indústria extrativa foi de 1,7%. Para 2019 espera-se uma queda de 1,1% na produção industrial.
A situação das famílias também não é das mais animadoras. O percentual das famílias endividadas subiu de 65,1% para 65,6%, em dezembro, o maior nível desde janeiro de 2010, início da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cartão de crédito foi o vilão responsável por 79,8% dos endividamentos. Com esta situação não se pode esperar grande estímulo pelo lado da demanda.
Fazendo coro como o governo, as entidades empresariais procuram a todo custo criar um ambiente de otimismo com publicidade e manipulação de estatísticas. É preciso acalmar o descontentamento que cresce antes que surjam os protestos e manifestações de rua. A reacionária classe empresarial precisa defender seu governo que esmaga os direitos dos trabalhadores em benefício dos lucros mesmo que tenha de tolerar as mamadeiras de pirocas e outros vexames e sandices do presidente e de seus colaboradores, liderados por um astrólogo que beira a debilidade mental.
O coro é tão escandaloso que alguns analistas têm denunciado as manipulações. Durante a semana destacaram-se os comentários de Mônica de Bolle, da Globo, e Zeina Latif, da XP Investimentos. Elas mostraram que não há recuperação possível pois, pelo lado da demanda, há 27 milhões de desempregados e desalentados e outros milhões de subempregados, além se salários baixos e endividamento alto. Do ponto de vista dos investimentos, com as falências, pedidos de recuperação judicial, capacidade ociosa alta, consumo reprimido, saída de capitais do país, não haverá investimento privado. Com o aperto fiscal e a redução e contingenciamento das despesas, não haverá investimento público.
Sem investimentos e sem crescimento da demanda não há qualquer possibilidade de recuperação. E ainda temos pela frente a gestação de uma crise mundial e uma grande instabilidade política. O pronunciamento do governo colocando-se ao lado dos EUA no conflito com o Irã já teve seu primeiro resultado, o cancelamento da ida do presidente à reunião de Davos na Suíça por questões de segurança.
Como temos demonstrado em nossas análises, continuaremos com o voo da galinha. E veja lá se não será de uma galinha de aviário.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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