quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

E os juros, hein!?

Semana de 17 a 23 de janeiro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Há algum tempo que está ocorrendo um debate entre economistas das mais diversas linhas sobre a eficácia da taxa de juros (principal instrumento da política monetária) no combate à inflação. Vejamos do que se trata.

Para começar, é preciso ter em mente que a inflação é o principal elemento que faz os Bancos Centrais mexerem nos juros. A excessiva variação nos preços é (quase) sempre respondida com variação nos juros. Se aumenta um, o BC aumenta o outro. A prova disto é que, no ano passado, a inflação oficial foi de 10,06% (o máximo deveria ter sido de 5,25%). Como resposta, a Selic saiu de 2% e foi para 9,25% em dezembro de 2021. É isto que está sendo motivo de debate entre os economistas.

A controvérsia está no fato de que a taxa de juros teria pouca (quase nenhuma, para ser mais preciso) influência sobre as causas da inflação. Isto é confirmado pela carta enviada pelo presidente do BC ao presidente do Conselho Monetário Nacional, justificando o estouro da meta oficial estabelecida por este órgão. Nela, são apontadas como causas principais do aumento dos preços: a elevação do preço das commodities, o encarecimento da energia elétrica devido à escassez hídrica e as perturbações nas cadeias produtivas globais causadas pela pandemia.

Na carta, alguns pontos são detalhados. Como fator externo, foi estimado que 69% do excesso de inflação registrado em 2021 foi “importado”. 1) Através do aumento dos preços internacionais do petróleo e seu repasse para os brasileiros por meio do programa de preços executado desde Michel Temer até hoje praticado na Petrobrás. Isto contribuiu com 2,95 pontos percentuais para os preços superarem a meta do IPCA. De longe, foi o que mais contribuiu. 2) Por meio do aumento do preço das demais commodities, que, ficando mais caras lá fora, ficam mais caras aqui dentro (afinal, para se equiparar às exportações, as vendas internas precisam render mais e por isso os preços aqui precisam subir). Isto contribuiu com 0,71pp no desvio da meta. 3) Através da taxa de câmbio, que contribuiu com apenas 0,44pp no desvio da meta.

Como fatores internos, contribuíram para o estouro da meta: a bandeira tarifária de energia elétrica (0,67pp), as expectativas do mercado (0,25pp) e os demais fatores (1,02pp). Além desses, dois componentes foram estimados: a herança do aumento dos preços de 2020 sobre os preços de 2021, chamada de inércia inflacionária (1,21pp) e a débil atividade econômica de 2021, que contribuiu para o estouro ser menor (-1,21pp). Estes dois últimos elementos, portanto, se anularam.

Esse é o contexto do debate em torno da seguinte questão: como os juros poderiam ter ajudado a combater a inflação de 2021? Diretamente, quase nada. Não tem como reduzir o preço internacional do petróleo com aumento dos juros no Brasil. A única coisa que poderia baratear o combustível aqui era o abandono da política de preços antinacionalista imposta à Petrobrás. E as demais commodities? Políticas de abastecimento, que existiram antes do Governo Bolsonaro, amenizariam e muito o problema. Já os juros do Brasil, poderiam reorganizar as cadeias produtiva globais? Não. E fazer chover, os juros podem?

Mas, afinal, a quem interessa a taxa básica de juros ser tão elevada? De uma forma simplificada, a explicação é a seguinte: para quem tem dinheiro aplicado e vê seu poder de compra cair 10% com a inflação, aumentar os juros de 2% para 9,25% é reduzir suas perdas de 8% para 0,75%. Agora, imagine uma situação em que todas as aplicações rendem menos do que a inflação? Isto foi o que ocorreu em 2021. Apenas o Bitcoin apresentou rentabilidade maior ao IPCA. Bolsa, renda fixa, dólar, ouro etc., a especulação com todos eles rendeu menos.

Com isto vemos que Banco Central independente está cumprindo muito bem seu papel essencial: utilizar os instrumentos disponíveis para garantir a rentabilidade dos seus.


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Alan Gomes, Guilherme de Paula e Roberto Lucas.

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

A natureza ataca novamente: Ômicron na ofensiva

Semana de 10 a 16 de janeiro de 2022

  

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

Os prognósticos sombrios para 2022 continuam sendo reforçados. E se não bastassem os fenômenos econômicos, a natureza mais uma vez nos surpreendeu com um novo ataque do vírus mutante.  A variante Ômicron, nova cepa do coronavirus, espalha-se pelo mundo com uma velocidade surpreendente. Apesar de não se apresentar tão letal, contribui para tumultuar a recuperação que tenta abrir caminho em meio a grandes dificuldades. O sistema ainda não conseguiu reorganizar as cadeias produtivas e comerciais que a globalização tão bem integrou. O desajustamento é geral. O caos logístico continua. Portos abarrotados, navios em fila para atracar, falta de contêineres, falhas na distribuição terrestre por deficiência de motoristas e de caminhões, cancelamento de voos e, como consequências, a elevação das tarifas e fretes. Os produtos são encarecidos, formam-se gargalos para a produção pela falta de insumos e matérias primas, a distribuição dos produtos é dificultada e a inflação acelerada. A economia mundial arrasta-se golpeada pela nova onda do covid-19. Pelo visto, a situação vai perdurar. A solução apontada é a distribuição universal das vacinas e a vacinação de toda a humanidade. Só isto pode frear as mutações do vírus que encontram terreno propício nos países mais pobres da África e Ásia que não têm recursos para adquirir as vacinas e adotar medidas para estimular a recuperação.

A desorganização da economia mundial fez ressurgir um velho fenômeno que parecia ultrapassado, a inflação. Os preços dispararam nos países da OCDE onde as taxas atingiram 5,8% e nos EUA com 6,8%, a maior taxa dos últimos 39 anos. Esta incômoda novidade levou o Federal Reserve (Fed), Banco Central americano, a anunciar a adoção da única receita que a teoria oficial recomenda: aperto monetário com a retirada dos estímulos e a elevação dos juros. Segundo o FMI, esta ação leva a incerteza aos países emergentes. A repercussão nestes países foi imediata, particularmente no Brasil. Explode o temor de debandada dos dólares que retornam a sua origem à procura de segurança.

Consultorias e instituições financeiras apressam-se a rever sus prognósticos de crescimento alertando para as duas velocidades na recuperação e no aumento da desigualdade. A Cepal, por exemplo, reviu sua previsão para o crescimento do PIB da América Latina de 2,9% para 2,1% para o ano de 2022.

O agravamento da situação internacional piora os prognósticos para a economia local que já se afunda com a inflação, os juros elevados, os gargalos na produção, as incertezas fiscais e políticas em ano de eleição, a nova onda da Ômicron. Soma-se a isto a demência do presidente com suas atitudes fanáticas e destemperadas. O descontrole aumentou com a divulgação da última pesquisa feita pela Quest/Genial que apontou Lula com 45% das intenções de voto, Bolsonaro com 23% e Moro com 9%. A avaliação negativa do governo está em 56%. Bolsonaro retomou sua ofensiva contra as medidas de combate ao vírus, condena a vacinação de crianças e resolveu atacar a Anvisa o que provocou a reação do seu presidente Antonio Barra Torres desafiando-o a provar as acusações ou se retratar, coisa que ele certamente não fará.

Além desta nova frente de atrito, o aumento de salários concedido aos setores de segurança do governo provocou o movimento de reinvindicação salarial de todos os funcionários que ameaçam entrar em greve. E o desgaste do governo levou o Centrão a cobrar um preço mais elevado pela sua participação, mais poderes para a Casa Civil com a transferência para Ciro Nogueira de atribuições do Guedes sobre o orçamento.

As más notícias não ficam por aí. A Petrobrás afirma que manterá sua suicida política de preços de paridade internacional, o Banco Central informa que continuará a aumentar os juros (Selic). O IBGE calcula que o agronegócio não ajudará no crescimento do PIB Os empresários de portos e ferrovias pressionam pela revogação do veto do governo à desoneração dos setores e as concessionárias de infraestruturas pedem revisão dos contratos por causa da alta inflação. A economia não está colaborando com a eleição do presidente. Falta a pressão popular.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Nertan Gonçalves, e Maria Cecilia Fernandes.

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

As travas da roda da economia em 2022

Semana de 03 a 09 de janeiro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

É irresistível iniciar a primeira análise do ano sem falar sobre as perspectivas do que irá acontecer ao longo dos 12 meses que virão. Contudo, já adianto que o brasileiro não terá um minuto de paz também em 2022. As travas que impediram a economia de rodar em 2021 têm tudo para se agravarem neste ano.

Não é exclusividade do Brasil o baixo crescimento econômico. Em 2021 as economias da América Latina estiveram entre as mais atrasadas na recuperação frente aos problemas gerados pela Pandemia. O PIB da região deve crescer 6,6%, sendo que o nosso não deve passar de 4,5%. Segundo pesquisa do Goldman Sachs, espera-se que em 2022 o crescimento latino-americano seja de 2%. O destaque é o Brasil: deve crescer apenas 0,8%. Já uma pesquisa do Valor Econômico, com 105 instituições financeiras e consultorias, mostra que a aposta é para pior. São 26 que esperam queda do PIB em 2022. Outras 13 apostam em estagnação. Pela mediana de todas as organizações consultadas, o crescimento brasileiro em 2022 será 0,4%.

Claro, as previsões de janeiro para o que vai acontecer até dezembro são bastante arriscadas. Frequentemente erram. Mas os fatos atuais indicam que será daí para pior. Por exemplo, para além de aumentar os índices de inflação, a alta do preço da energia paga no país impacta e muito o crescimento do PIB. Em pesquisa realizada pelo Instituto Clima e Sociedade, 44% das pessoas deixaram de comprar bens de consumo duráveis para pagar a conta de luz. Por sua vez, 22% deixaram de comprar alguns alimentos básicos. Claro, isto trava a “roda da economia”. Para 46% dos brasileiros, a conta de energia já consome pelo menos metade da renda. Sem falar em aluguel, que é um grande “consumidor” da renda dos brasileiros da classe média para baixo. Falando nisso, o índice que reajusta os aluguéis, o IGP-M, subiu 17,8% no ano passado. Isto também trava a “roda da economia”, pois, para pagar o aluguel, as pessoas precisam abrir mão de outros produtos.

Um resultado direto do aumento desses gastos (junto com os de alimentação) é o aumento do endividamento das famílias brasileiras, que bateu recordes em 2021. No fim do ano, mais de 70% das famílias residentes nas capitais estavam devendo alguma coisa (independente se estavam em dia ou não). O problema mesmo é que, como já apontado semana passada, os bancos centrais mais importantes do mundo mudaram sua posição sobre a política de juros. De “cautelosos” passaram repentinamente para “preocupados”. Com isso, os juros internacionais devem subir em 2022. Isto vai obrigar o nosso Banco Central do Brasil a aumentar ainda mais os juros por aqui. Por tabela, num efeito em cascata, todos os juros da economia deverão subir também. Assim, o que é dívida controlada hoje pode virar descontrole geral amanhã. Isto, novamente, trava a “roda da economia”.

Outra consequência do aumento dos juros por aqui, é que os investimentos produtivos vão se tornando aplicações financeiras. Em outras palavras: quem tem dinheiro de sobra, ao invés de colocar seus recursos em atividades que têm potencial de gerar riqueza, aplica em títulos de renda fixa baseados na Selic. Isso já começou em 2021, quando a taxa básica saiu de 2% para os atuais 9,25%. No total, foram R$ 291,5 bilhões a mais aplicados neste produto financeiro ao longo do ano passado. O motivo é o retorno que isto traz aos especuladores: rentabilidade alta numa economia em baixa, liquidez elevada e segurança de um título público numa gestão que prefere fazer superávit primário ao invés de contribuir com a saúde, o emprego e a renda da população.

Nesse contexto desolador, piorado por uma nova onda de Covid-19 causada pela Ômicron, o caro leitor acha que a queda do grande responsável por isso será pacífica? Não podemos contar com isso, pois ele já demonstrou que um rato encurralado pode morder o gato.

Resistir e combater desde já é preciso! À luta.


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Carolina Nantua, Eduardo Oliveira, Ana Isadora Meneguetti e Guilherme de Paula.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

2022 chegou, 2021 se foi, e ele?

Semana de 27 de dezembro de 2021 a 02 de janeiro de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

Não há como começar esta Análise sem desejar a todos os leitores muitas felicidades, saúde e combatividade no ano que se inicia. Sinceramente gostaríamos que neste novo ano a abundância, a alegria e a felicidade se instalassem em todos os lares por este país afora. Passando do sonho à realidade somos forçados a reconhecer que as coisas não seguirão os nossos desejos. Pelo contrário, as perspectivas são muito, sombrias. Comecemos com o panorama geral do final de 2021. Além dos mais de 600.000 mortos e um número não contabilizado de sequelados pela pandemia temos um país destruído. As decisões tomadas pelo governo fascistoide do Bolsonaro, apoiado por uma burguesia incompetente e reacionária e por forças armadas conservadoras e antidemocráticas arruinaram a economia e o prestígio que a duras penas o país havia conquistado entre as nações. A política econômica praticada pelo sinistro Paulo Guedes e seus “Chicago oldies” somada às decisões do governo sabotando o enfrentamento à covid 19 provocaram o aumento do desemprego, da pobreza, da miséria, da fome, das falências das empresas, da inflação com a transformação em estagflação, do risco fiscal. Levaram à desvalorização cambial, à queda da bolsa e dos investimentos consequência da elevação dos juros. Apenas o desemprego teve um pequeno alívio no final do ano. A taxa caiu de 13,7% para 12,1% no trimestre, mas ainda há 13 milhões de desempregados e a renda média é a menor da história. Além disso os novos empregos criados elevaram o número de trabalhadores por conta própria para 25,6 milhões e os informais para 38,211 milhões em uma população empregada total de 93,958 milhões, segundo a Pnad Contínua do IBGE.

Isso para referir apenas algumas consequências do desastre de 2021. Diante deste quadro o que nos promete o ano de 2022?

O jornal Valor Econômico consultou 14 economistas de várias universidades, não ligados ao governo e a opinião foi unânime: não se pode esperar deste governo nada de bom no ano que se inicia exceto a sua derrota nas eleições. Os prognósticos e estimativas de várias entidades e bancos apontam este quadro recessivo. O Boletim Focus do Banco Central (BC) apura a mediana para o crescimento do PIB de 0,5%. A consultoria MB Associados propõe crescimento zero, o Itaú-Unibanco sugere queda de -0,5%. Para a taxa de juros de referência Selic as estimativas vão de 10% (Boletim Focus) até 11,75% (mediana dos economistas de 107 instituições financeiras).

A elevação da Selic arrastará as taxas de juros prejudicando os investimentos já desestimulados pelas incertezas fiscais e políticas. O estouro da ancora fiscal com o calote da PEC dos precatórios e o fim do teto faz parte da campanha eleitoral do residente em busca da reeleição, o que foi necessário para o aumento das despesas com os fundos partidários, as emendas do relator para comprar o congresso, o subsídio dos caminhoneiros, a Renda Brasil e o aumento dos funcionários do setor de segurança. Com isto foi para o ar o programa de austeridade do Guedes cuja credibilidade já abalada desmoronou. Nestas circunstâncias espera-se a continuação da inflação, a elevação dos juros, a desvalorização da moeda, a manutenção do desemprego, os baixos salários, o crescimento da pobreza.

Contamos ainda com um agravante internacional. Os Bancos Centrais do mundo já anunciam a elevação dos juros o que provocará a migração dos capitais para os países mais desenvolvidos particularmente para os EUA. Por outro lado, a variante Ômicron do coronavírus promete não dar trégua e a OMS alertou o mundo para a possibilidade de uma catástrofe. A agência Moody’s Analitics já reduziu sua estimativa para o crescimento do PIB americano de 5,2% para 2,2%.

Mas o nosso presidente, desesperado com o resultado das pesquisas eleitorais que prenunciam sua derrota, e ameaçado por uma onda de pedidos de aumento de salários dos funcionários públicos, continua firme em sua cruzada antivacina mesmo de férias.

Eis o que nos espera neste 2022 se ele não se for em outubro.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Nertan Gonçalves, Mariana Tavares, Roberto Lucas e Poliana Almeida.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Que venha 2022 e que se vá Bolsonaro

Semana de 20 a 26 de dezembro de 2021

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

  

Em tom de retrospectiva e de esperança (quem diria!?), a presente análise pode trazer náuseas para os seus leitores. O motivo? Veremos frases proferidas por integrantes do Executivo Federal em 2021, bem como dados da última semana de dezembro sobre a realidade brasileira. Aos que têm o mínimo de juízo, fica claro que isso é mais do que suficiente para aproveitarmos o ano que se aproxima para uma mudança de rumo, mesmo que liderada por velhos conhecidos do passado.

Os ares de uma nova esperança não estão distantes de nós, pelo contrário. Nossos vizinhos já iniciaram seus processos de rejeição, seja a governos neoliberais ou a governos de cunho “neofascistas” (apesar de ambos estarem bastante interligados). México, Argentina, Peru e Chile elegeram presidentes que, a peso de hoje, são chamados de “esquerdistas”. Claro, ainda longe de uma esquerda de facto, esses governos de centro (talvez centro-esquerda) representam um conjunto de ideias progressistas e que têm um caráter civilizatório muito maior do que os seus antecessores/opositores de direita. Além desses, vale mencionar dois países onde há grande chance de mais “esquerdistas” ganharem em 2022: a Colômbia e, claro, o Brasil.

Começando pelas estatísticas brasileiras, algumas informações se destacam: a inflação dos últimos 12 meses está em 10,74%; o número de mortos por Covid-19 é de 619.000 pessoas; o desemprego ainda atinge 12,9 milhões de pessoas; o rendimento médio real do trabalhador é o menor em 10 anos; dos que estão ocupados, 40,7% estão na informalidade (são 38,2 milhões de trabalhadores); desses informais, 25,6 milhões são trabalhadores por conta própria que vivem de bicos.

Narrando os fatos que levaram a estes números, para além da titica externada nos anos anteriores, por aqui tivemos que passar o ano ouvindo: “Chega de frescura, de mimimi, vão ficar chorando até quando?”; “A Amazônia não pega fogo. Você pode jogar um galão de gasolina lá na mata. A floresta é úmida”; “Imprensa de merda. É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condensado todas”; “Melhor perder a vida do que perder a liberdade”; “A universidade, na verdade, deveria ser para poucos”; “Todo mundo quer viver 100, 120, 130 anos. Todo mundo vai procurar serviço público”; “Deram bolsa pra quem não tinha nenhuma capacidade de saber ler”; “Qual é o problema de a energia ficar um pouco mais cara?”; “Não adianta ficar sentado chorando”.

Para piorar nossa situação, tempestades têm atingido a Bahia desde novembro. São 72 municípios do estado em situação de emergência devido às enchentes. São mais de 430 mil pessoas atingidas, sendo 31 mil desabrigados e outros 31 mil desalojados. O número de mortos chegou a 20. Enquanto mais essa tragédia ocorre no país, o que faz o presidente? Nada, continua suas férias em Santa Catarina. As férias do ano passado custaram R$ 2,4 milhões. As desse ano, para além das cifras monetárias, vão custar as perdas que os baianos até aqui abandonados terão de enfrentar sem o apoio da pátria mãe.

No início do século, o Brasil ensaiou dar um pequeno passo para frente. Hoje, estamos dois passos atrás (Lênin que me perdoe). Para não darmos mais tantos outros, em 2022 é preciso derrotar esmagadoramente aqueles que aglutinam e representam publicamente o pior da sociedade, seja em âmbito nacional, estadual ou municipal. Para isso, é preciso unir todas as forças em torno de candidatos que representem o pensamento progressista.

No caso das eleições para presidente, as pesquisas de hoje indicam que Lula venceria as eleições de outubro de 2022 no primeiro turno. As de amanhã podem indicar Ciro (duvido, mas quem me dera). Quem quer que seja, se representa um real enfrentamento ao fascismo e um projeto decente de redução das desigualdades sociais, que seja feito o esforço necessário para que seja eleito em primeiro turno.

Fascistas, já é hora de passar para o lixo da história! Feliz 2022!


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Carolina Nantua, Eduardo Oliveira, Maria Cecília Fernandes e Guilherme de Paula. 

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Estagflação e crise do coronavírus

 Semana de 13 a 19 de dezembro de 2021

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Nas duas últimas Análises discutimos dois assuntos controversos que caracterizam a situação atual: a estagflação e a crise. O Professor Lucas apontou algumas peculiaridades da chamada “crise do covid” mostrando que ela é uma crise econômica com peculiaridades especiais. No capitalismo as crises econômicas são crises de superprodução. Superprodução de capital sob todas as formas: mercadoria, produtiva e financeira. A sociedade entra em crise por ter criado riqueza demais. Isto não significa que todas as necessidades estejam satisfeitas. Nas condições do capitalismo, só consome quem tem dinheiro e as relações capitalistas de produção se encarregam de produzir uma gigantesca concentração de renda que empobrece os possíveis consumidores.

A crise manifesta-se pelo acúmulo de mercadoria que não encontra consumidores. Com o covid as coisas mudaram e novas características apareceram como bem referiu o Professor Lucas na Análise passada. Isto por si já é inusitado e dificulta o trabalho dos estudiosos. Com este novo tipo de crise surgiu, porém, outro problema: a inflação. Segundo a teoria oficial a elevação dos preços só ocorre quando há uma grande pressão da procura que a oferta não consegue atender. Mas uma pressão de demanda muito forte estimula os empresários a aumentar a produção. Por outro lado, esta demanda é resultado de pleno emprego e salários elevados, ou seja, quando o desemprego é muito baixo. O nosso caso é o oposto. Temos uma grande massa de desempregados, de subempregados, de desalentados e os salários são muito baixos. O número de pobres e miseráveis cresce, a fome se alastra e os empregos informais e de baixa qualidade com baixos salários superam os empregos de melhor qualificação e mais bem remunerados. Apesar disso a inflação continua a disparar. Eis o mistério que o sinistro Guedes e sua equipe de “Chicago oldies” não consegue decifrar.

O Banco Central (BC) comandado pelo Roberto Campos Neto, (neto do conhecido Roberto Campos chamado de Bob Fields nos velhos tempos pela sua subserviência aos americanos) e leitor da mesma cartilha, arranca os cabelos. Aplica a única receita que sua ideologia econômica lhe recomenda: a elevação dos juros. Os documentos do próprio BC reconhecem que as maiores causas da inflação atual, vêm do exterior ou de fatores naturais: preços das commodities (petróleo), crise hídrica, preços da energia, entraves ao comércio internacional, pandemia do covid, etc., sobre os quais os juros não exercem qualquer efeito. Por outro lado, sabem também que a elevação dos juros dificulta o financiamento dos negócios e entrava a retomada da produção. Mesmo assim, na sua demência ideológica prometem continuar a elevação da Selic até “ancorar as expectativas” dos agentes que deixariam de subir os preços. É isto que devemos esperar nos próximos tempos: juros contra o coronavírus, São Pedro e as condições climáticas, o comércio mundial etc.

Passemos então à parte mais chata da nossa análise. O que mostram os dados da semana? Citaremos apenas os que se referem às questões tratadas anteriormente.

As previsões de bancos e consultorias dizem que o BC vai elevar a Selic, dos atuais 9,25 para 11,75% ao longo de 2022 provocando aumento do custo fiscal para o setor público e dificultando empréstimos e financiamentos com consequências negativas para a recuperação da economia. Lembremos que em janeiro a Selic era 2%.

A Câmara Brasileira da Indústria de Construção (CBIC) estima que o PIB do país em 2022 terá crescimento entre 0,5% e 1% e que o PIB da construção civil cairá dos 7,6% atuais para 2% no próximo. O endividamento dos consumidores chegou a 60% em agosto e tende a piorar. A queda da renda do trabalho chega a -6,5% em 2021 Também na agroindústria, nosso carro chefe, a situação é grave. A FGVAgro divulgou seu índice PIMAgro para outubro mostrando queda na produção de -11,3% em relação a 2020. Estre as causas apontadas estão juros, inflação, covid, aumento de custos de produção, mercado de trabalho fraco. Todos consideram que a inflação continuará a crescer o consumo com a produção a cair e o desemprego aumentar. Eis a estagflação. Juros nela!  


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Alan Gomes, Ana Isadora Meneguetti.

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

As peculiaridades da Crise do Coronavírus

Semana de 06 a 12 de dezembro de 2021

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

De uma forma geral, os economistas gostam muito de manual. Isso é um fato! Neles podemos encontrar as descrições e definições mais sintéticas e sistematizadas sobre coisas fáceis e difíceis do cotidiano. Tudo muito bem apresentado e seguindo uma lógica impecável.

Dentre as “coisas de manual” está o entendimento de que o crescimento das economias capitalistas (“economias de mercado” nos manuais) oscila entre fases de maior e menor intensidade. Essas fases são: 1) crise, onde ocorre o desaquecimento da atividade econômica (podendo até ser um decrescimento); 2) depressão, onde a atividade chega ao nível mínimo; 3) reanimação, onde a economia volta a crescer e intensifica-se a criação de produtos, emprego, renda, etc.; e 4) auge, onde a atividade econômica atinge seu pico de crescimento e se preparam as condições para uma nova reversão para baixo. Nesta sequência, isto se repete incessantemente (historicamente, desde o começo do século XIX). Este é um dos traços mais marcantes das economias capitalistas, elas se desenvolverem por meio de um movimento cíclico, chamado de ciclo econômico.

Cada uma das quatro fases citadas tem suas características. Como sugere o título da análise, falaremos apenas das que definem a fase de crise. A primeira coisa é inelutável: as crises no capitalismo são crises de abundância. A produção para porque não tem a quem vender. Com isso os estoques sobem, o desemprego aumenta, os preços caem, a renda também, a falta de confiança se generaliza, os bancos dificultam a concessão de crédito, os juros se elevam e os calotes aumentam. A crise se instala e o caos toma conta...

Certamente, essa abundância não é absoluta, ou seja, a abundância não se refere à totalidade das necessidades sociais. Também é uma característica do capitalismo haver riqueza e miséria ao mesmo tempo. Nas

 crises, os excessos (de produtos, de capacidade produtiva, de dinheiro, enfim, de capital em suas variadas formas) se referem à capacidade de compra da sociedade naquele momento histórico. De um lado, há uma quantidade enorme de riqueza, mas, do outro, não há demanda suficiente para absorver toda essa opulência. Por isso, as crises parecem se manifestar como um desequilíbrio entre oferta, em excesso, e demanda, “em falta”.

A partir dessas descrições, podemos ver as peculiaridades da Crise da Covid-19. Como dissemos algumas vezes nesta mesma coluna ao longo de 2019, a crise econômica já estava começando a se manifestar antes mesmo da Pandemia. Porém, como fator externo à economia e fora da lógica de funcionamento do capitalismo (apesar de, provavelmente, ser um produto deste), o coronavírus veio para “esculachar” os manuais.

A primeira coisa é que as necessárias e indispensáveis medidas de isolamento social para a contenção da contaminação resultaram numa piora muito mais intensa na produção, nos empregos, na renda, nos preços, etc. Do ponto de vista do desequilíbrio entre oferta e demanda, o que antes era uma falta relativa de demanda se tornou, também, numa redução drástica da oferta. Como medida compensatória, os Estados Nacionais passaram a distribuir renda para a população. Isto fez com que a demanda voltasse a ter poder aquisitivo, mas ainda sem haver uma oferta capaz acompanhar. Por isso e por muita especulação, os preços de produtos básicos voltaram a subir (commodities), elevando também os preços de quase todos os outros produtos (inflação no mundo todo). Com o fim das primeiras ondas da Pandemia, a produção foi se “normalizando” em alguns setores, mas não em outros. Por isso mesmo, aquilo que era pra ser um excesso geral de oferta sobre a demanda (uma crise “normal”) foi se transformando em uma demanda aquecida com falta de produtos essenciais para a vida cotidiana (insumos da tecnologia da informação e navios de carga, por exemplo). Não é nenhuma novidade o desmantelo das cadeias produtivas globais. Soma-se a isso o fato de que novas variantes têm causado novas ondas de contaminação, fazendo com que novas medidas sejam adotadas e, novamente, as economias sejam afetadas.

Diante deste cenário, não há mais o que discutir: ou se faz o controle devido da pandemia ou a crise econômica jamais será controlada. A não ser que você seja um jumento de faixa presidencial ou um hipócrita chefiando o ministério da saúde.


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Nertan Gonçalves, Mariana Alves, Roberto Lucas e Guilherme de Paula.

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