terça-feira, 24 de janeiro de 2023

“Herança maldita”, a expressão nunca foi tão adequada

Semana de 16 a 22 de janeiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Normalmente, os presidentes eleitos gozam de um período de bonança nos primeiros meses de governo. As urnas lhes conferem legitimidade suficiente para tocar uma parte das promessas feitas na campanha. Por outro lado, é mais comum ainda atribuir ao presidente anterior as dificuldades em colocar tais promessas em prática. Quando há a troca de governo, sempre se diz que ficou uma herança maldita.

Uma das formas de amenizar esse problema é escolher uma boa equipe de transição. Com ela é possível identificar as discordâncias e preparar medidas que coloquem as políticas de acordo com a nova orientação. E, sob a liderança de Geraldo Alckmin, isto foi muito bem-feito pela então equipe de transição do atual governo Lula. Tanto que inúmeras medidas ideologicamente orientadas pelo bolsonarismo foram imediatamente revogadas. Dentre tantas coisas que foram feitas no período, o que já sabemos é que o Orçamento de 2023 foi a que deu mais trabalho. Lula até precisou andar por Brasília e negociar com o Centrão antes mesmo de assumir seu terceiro mandato.

Entretanto, como temos visto nesses primeiros dias de 2023, o governo Bolsonaro não poderia ter sido pior. A primeira herança deixada resultou no ato de 8 de janeiro, não apenas pela destruição das sedes dos três poderes da república, mas pela (in)ação das forças militares. Não é de hoje que, formal ou informalmente, as forças armadas tutelam o poder civil no Brasil. Isto não vem do Golpe de 1964. Isto já está na raiz do Brasil Império e, mais ainda, na Proclamação da República (1889). Inclusive, em 1930, o fim da Velha República (do Café com Leite) se deu por meio de um golpe militar. Bolsonaro serviu para reativar esse estúpido e errôneo “sentimento” nas forças armadas brasileiras.

Por isso, nada melhor do que aproveitar o momento para realizarmos uma profunda mudança na formação do nosso oficialato. Aqui, não se trata apenas de mudar a forma como as Forças Armadas se organizam internamente. Problemas de hierarquia interna são facilmente resolvidos por eles mesmos, sendo, assim, os funcionários públicos mais corporativistas que existem. O problema da formação dos oficiais está no conteúdo do que aprendem, pois o que estamos vendo (ainda) é uma claríssima demonstração de insubordinação ao seu Comandante Supremo. Ou seja, há um grupo considerável de oficiais que não compreendem que estão subordinados aos desígnios da população e que é o povo quem os comanda, indiretamente, através de um presidente eleito.

Sem fugir do assunto, mas indo em outra direção, uma das funções dos militares brasileiros é proteger e contribuir para o desenvolvimento dos povos que vivem na Amazônia. Aqui entra uma segunda herança maldita do governo Bolsonaro, já vista em janeiro 2023. Não há palavras que possam descrever o sentimento gerado pelas imagens de indígenas Yanomamis desnutridos (no estado de Roraima). Ao longo dos anos, foram mais de duas dezenas de ofícios enviados e ignorados pela gestão Bolsonaro/Damares. Especificamente nesta região, o que motivou essa calamidade foi a invasão das terras Yanomamis por garimpeiros ilegais, os quais foram porcamente combatidos pelas forças militares brasileiras na gestão Bolsonaro/Ricardo Salles. De uma forma ou de outra, isto se reproduziu em outros territórios indígenas e, entre 2018 e 2021, triplicou as invasões e a exploração ilegal de terras indígenas.

Novamente, o momento atual é propício para o Brasil estabelecer políticas efetivas de ocupação do território. De um lado, é preciso que haja a devida demarcação e o respeito aos povos originários. Mas, por outro, precisamos de uma reforma agrária e uma justa distribuição de terras em prol de famílias que possam alimentar nossa população, que ainda passa fome e convive com a insegurança alimentar (terceira herança).

Infelizmente, outras heranças malditas devem aparecer ao longo de 2023. A esperança é que a desgraça já em curso sirva, ao menos, para se efetivar mudanças profundas na sociedade brasileira. Sei que é querer demais, mas são os ideais que transformam o que deixamos em herança bendita. Lutemos por eles!


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

“Nenhuma bomba explode sem um estopim”

Semana 09 a 15 de janeiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Depois dos brutais acontecimentos da destruição da praça dos três poderes, as coisas começam a voltar à normalidade. Se é que se pode falar em normalidade em um país tão anormal como o nosso. As apurações e inquéritos estão em andamento, com algumas prisões, bloqueios de recursos, buscas e apreensões e tudo a que se tem direito. Mas, a justiça se move com a costumeira lentidão. Diz-se por aí que a justiça tarda, mas não falha. Esperemos que assim seja.

Como costuma acontecer, os baderneiros, cercados de advogados, choram e protestam pelos seus direitos. Aqueles mesmos que afirmavam dias atrás que “bandido bom é bandido morto”. Há que se destacar que a repressão aos vândalos foi branda e educada e tecnicamente muito bem-feita, sem mortos e poucos feridos. Diferente seria, provavelmente, se eles fossem estudantes, professores, operários ou gente do MST. Curioso é que a maior parte dos marginais presos o foi no acampamento do quartel do exército em Brasília. Conclui-se logicamente que o quartel havia se transformado em um covil de marginais e o coiteiro era o general comandante, que continua impune. Até o artefato que deveria explodir em um caminhão de combustíveis lá foi preparado, quem sabe, com assessoria de técnicos competentes locais. Aliás, não seria de surpreender, pois até o ex-presidente Bolsonaro já havia usado esta expertise para promover atentados contra a própria instituição, sendo por isso reformado, mas acalentado pelos seus algozes e preservado para alguma oportunidade futura. Quem sabe? 

Agora avança-se sobre os financiadores, mandantes e inspiradores da ação entre os quais se encontram certamente políticos, empresários, líderes religiosos, ou seja, homens “de bem”, para não falar de filhos, esposas e parentes de militares, igualmente “gente de bem”.  Mesmo depois da determinação do Alexandre de Moraes para o desmonte de todos os acampamentos de baderneiros em frente aos quarteis, em Brasília, o exército impediu, por algum tempo, a polícia do DF de cumprir a determinação judicial. Quem sabe, se não foi para dar tempo de fuga aos “cidadãos de bem” bombistas, foragidos da justiça, usuários de tornozeleiras eletrônicas etc. Uma coisa é certa: até agora, entre os detidos não apareceram os fardados graduados. Quem vai responder o que estavam fazendo os dois batalhões sediados no subsolo do palácio do planalto para defender os poderes da república? Quem são os comandantes do Regimento de Cavalaria da Guarda e do Batalhão da Guarda Presidencial? Por que não se moveram? Quem os comandava?

Na verdade, o partido do exército continua a mostrar sua força. Continuamos a viver sob a tutela militar que existe desde o início da república e que a sociedade civil ainda não se atreveu a abolir. Na conjuntura atual, nunca as condições internacionais foram tão propícias. Internamente, há provas evidentes da corrupção e dos desmandos da caserna que, vergonhosamente, deixou-se dirigir por um capitão que ela própria excluiu por incompatibilidade com seus princípios. Que vergonha!

Mas a violência dos bolsominions ultrapassou os limites da praça dos três poderes e ocorreu em outras áreas. Foram praticados atos de terrorismo clássicos como o bloqueio de refinarias e aeroportos e sabotagem derrubando torres de transmissão de energia. Com a descoberta da minuta do decreto do golpe, na casa do ex-secretário, Anderson Torres, o quadro ficou ainda mais completo demonstrando que o plano era muito mais ambicioso. Há muito a investigar. Como bem disse o ex-secretário geral da Unctad Rubens Ricupero, “atrás disso tem uma inteligência estratégica. Nenhuma bomba explode sem estopim”.

Na economia também as coisas voltam à normalidade. Como vínhamos falando, a recuperação continua a arrastar-se dificultada pela política econômica do governo anterior e com a colaboração do Banco Central (BC) com sua insensata elevação da taxa de referência Selic. No exterior, enquanto se desenrola o Fórum de Davos na Suíça, a diretora geral do FMI, Kristalina Georgieva, anuncia uma recessão mundial para este ano e o crescimento de 0,5% para os países avançados. Como complemento, o Banco Mundial publica um documento afirmando que a economia mundial “está por um fio”.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Nertan Alves e Maria Cecília Fernandes.

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

A barbárie deu sua primeira obrada

Semana de 02 a 08 de janeiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Como não começar falando do absurdo ocorrido em Brasília no último fim de semana!? As cenas são as mais lamentáveis e contraditórias já vistas na história recente do país.

Quem diria que os defensores de Deus arrancariam símbolos religiosos (que nem deveriam estar ali, já que o Estado é laico) das paredes dos palácios dos três poderes? Quem diria que os patriotas arrancariam o Brasão de Armas do Brasil (brasão símbolo da nossa república) e o exibiriam como troféu, simbolizando, talvez, a cabeça de um inimigo (a própria democracia). Quem diria que veríamos as nádegas de um exemplar cidadão de bem, integrante da tradicional família brasileira, defecando em móveis oficiais?

Apesar da forma absolutamente peculiar desses fatos, a contradição fundamental das manifestações está em seu conteúdo. Como é possível pedir intervenção militar em favor da liberdade? Nem Freud explicaria a (in)consciência de um bolsominion. Não é nenhum exagero dizer que eles estão se comportando como gado, seguindo direitinho o berrante do seu algoz e indo em manada para o abate.

Porém, Jair Bolsonaro já abandonou o rebanho que reuniu para as eleições de 2018 e que se manteve fiel em 2022. Não são poucas as figuras públicas e/ou midiáticas que passaram rechaçá-lo após o Dia do Fujo (para o Orlando). Por isso mesmo, algumas questões precisam ser levantadas.

Por que há dois meses existem acampamentos que mais parecem Cracolândias diante de quarteis? Por que eles estavam recebendo o apoio das próprias Forças Armadas? Por que essa escória da democracia não dispersou com a fuga do Jair? Por que os integrantes das Forças Armadas (e seus familiares) passaram a compactuar, discursar e até ocupar esses ambientes? Seria o Capitão apenas a figura pública de algo maior e hierarquicamente superior? Não resta dúvidas de que há militares tentando trazer de volta os velhos tempos da Ditadura.

Contudo, o poder militar está subordinado ao poder econômico. Certamente, há muitos empresários financiando as manifestações desde seu início. Mas esta fração da burguesia brasileira (que, espero, será revelada em breve) não apresentou poder suficiente para financiar um efetivo golpe. Nesse contexto, a frente amplíssima costurada por Lula, até aqui, foi capaz de dar um esteio à nossa democracia. Claro, quanto mais diferentes forem os tecidos, mais difícil será manter essa colcha de retalhos. As linhas precisam ser devidamente ajustadas. Mesmo assim, a burguesia que efetivamente manda no país parece estar com Lula, mas, principalmente, com Alckmin e Tebet.

Além disso, mostrando que falta poder econômico aos golpistas, não se viu parlamentares ou grandes políticos defendendo a invasão de 08 de janeiro de 2023. Caso houvesse grandes garantias de que os ganhos (econômicos e políticos) com um possível golpe fossem maiores do que os ganhos segundo o cenário atual, certamente veríamos grandes figuras públicas contemporizando e justificando os atos.

Isto significa que tudo está tranquilo? É só esperar que as instituições façam sua parte? É achar que Xandão vai nos salvar sempre? Obviamente que não. Como temos visto, a democracia burguesa é um processo em permanente transformação. A disputa pelo poder é uma característica do capitalismo e da formação social que dele deriva. A história já mostrou que a burguesia é capaz de todo e qualquer expediente para ter seus interesses atendidos (vide Hitler, Mussolini, Pinochet, Franco, Salazar e muitos outros).

Se hoje a situação política está muito melhor do que no ano passado, isto é resultado da luta política travada por todos e pelo voto das massas. Claro que dará muito trabalho lavar toda a sujeira bolsonarista. E aí está o nosso papel nisso tudo: engrossar o caldo e fazê-lo entornar em cima daqueles que querem destruir nossa frágil democracia.

A barbárie bolsonarista deu sua primeira obrada. Preparemo-nos para a próxima, que, cedo ou tarde, certamente virá. É só alguma fração relevante da burguesia desejar. Os militares já mostraram que ainda estão dispostos a embarcar nesse tipo de aventura.


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Dificuldades da Conjuntura em 2022. Feliz 2023

Semana 26 de dezembro de 2022 a 01 de janeiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Terrível foi este ano de 2022 que se foi, não somente para o Brasil e o mundo, mas particularmente para os que tem por ofício fazer Análise de Conjuntura. Quando falamos em conjuntura falamos das evoluções da economia no curto prazo, ao longo das semanas e meses, e mesmo anos. No nosso caso, atrevemo-nos a fazer análise no curtíssimo prazo de uma semana. Claro que para não cair na dita “economia do sobe e desce” precisamos ter como suporte uma teoria econômica e, como já referimos, usamos a teoria marxiana das crises cíclicas de superprodução na versão por mim desenvolvida (Ver “A crise econômica – Uma visão marxista”, J.P., UFPB, Ed. Universitária, 2008). Certamente, sendo uma teoria econômica, dentro dela não cabe a análise de fenômenos que se processam em outras esferas. Assim, as nossas dificuldades neste ano de 2022 foram muito amplificadas, pois o ano sofreu a ação de outros fenômenos que não cabem na análise econômica nos obrigando a grandes desvios para os campos da política, da história, da sociologia e até mesmo da biologia.

Com efeito, durante o ano ocorreram três fenômenos que, diretamente, nada tiveram a ver com a economia: a pandemia do Covid-19, a guerra na Europa Oriental e as eleições. Os dois primeiros tiveram como consequências o acirramento da inflação, a desorganização dos mercados, dos transportes, do comércio, a crise de abastecimento e da energia, o fechamento de fábricas, a falta de mão de obra, o desemprego etc. Fatores não econômicos provocaram o caos na economia a nível local e mundial. O terceiro fator teve consequências internas. O desgoverno local, que já havia maltratado terrivelmente a economia com suas medidas de política econômica insensatas, saídas da cabeça doente do sinistro da economia Paulo Guedes, no desespero de ganhar as eleições para manter-se no poder usou todo o aparelho de Estado com este objetivo. Deixou de governar para comprar votos a qualquer custo mesmo comprometendo o orçamento e o futuro do país. Se já vinha destruindo tudo o que podia com sua fanática estupidez ideológica, a situação foi ainda agravada e o Estado quase foi a falência. O novo governo vai pagar muito caro para reparar os males que foram produzidos e que continuarão a repercutir nos próximos anos. Este ano de 2023 será mesmo um ano de sacrifício.

Em Análises anteriores já vínhamos demonstrando que a economia do país estava entrando em um ciclo de crise, mesmo antes dos primeiros casos de covid-19. Era a entrada do país na fase de crise do ciclo econômico. A deflagração da pandemia e depois o início da guerra da Ucrânia aceleraram o processo e entramos com força na crise. Contra a vontade do governo as vacinas foram compradas e iniciou-se o ataque ao vírus. Também contra a vontade do governo foi aprovado o auxílio emergencial. Para comprar votos o governo abriu o cofre e foram aprovados vários subsídios que contribuíram para a aliviar a situação dos mais pobres. A campanha de vacinação foi vitoriosa apesar das sabotagens e conseguiu-se controlar a pandemia. A injeção de recursos estimulou a demanda e a economia iniciou uma tênue recuperação a partir do setor de serviços e com o trabalho informal. A longa paralização criou um vácuo que começou a ser ocupado pela retomada da produção o que resultou em indicadores econômicos mais positivos embora os números da inflação continuem a mostrar aceleração. Para este mal, o BC já aponta teimosamente com a possibilidade de novo aumento da Selic, o que prejudicará a economia.

Esta é a situação que o novo governo terá de enfrentar. O presidente Lula já empossou quase todo o seu ministério com uma notável habilidade que só ele é capaz. Na verdade, a frente formada é por demais ampla e muitas serão as dificuldades de manter a articulação de tantas tendências. Será um grande desafio que, esperamos, tenha sucesso, para o bem da democracia e a sobrevivência do país.

Para finalizar, temos que aplaudir os discursos do presidente, discursos de um grande estadista, e a seriedade do ministério por ele constituído. E com esperanças enfrentemos o ano de 2023. Afinal podemos dizer: Feliz Ano Novo para todos nós.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Nertan Alves e Maria Cecília Fernandes.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O que esperar para 2023?

Semana de 19 a 25 de dezembro de 2022


Lucas Milanez de Lima Almeida i 


O fim de ano chegou e é inevitável falar sobre as previsões econômicas para o ano que está chegando. Mas, antes de dizer o que é mais provável de acontecer em 2023, é preciso olhar para trás e entender o contexto em que nos encontramos.  

Desde 2011 a economia brasileira vem reduzindo sua força. Desde aquele ano nosso crescimento ficou abaixo do crescimento médio das chamadas “economias emergentes e em desenvolvimento” (aquelas mais parecidas com a nossa) e do mundo. Desde 2014 nosso crescimento está abaixo daquele registrado nas “economias avançadas” (as economias dos países centrais). Entre 2017 e 2019 não conseguimos sequer chegar a 2% de crescimento do PIB. Mesmo no tombo causado pela pandemia de Covid-19 (em 2020) ou na recuperação de 2021 ficamos atrás desses grupos de países.  

O motivo desse desempenho pífio é o conjunto de políticas econômicas adotadas desde o fim de 2014, mas aprofundadas após o golpe institucional que tirou Dilma Rousseff da presidência em 2016. As medidas passaram a privilegiar a austeridade orçamentária e a eliminação do Estado nas ações de coordenação e estímulo à atividade econômica. Abriu-se mão de projetos de infraestrutura e de políticas de estímulo à produção local, bem como desconfiguraram o principal instrumento estatal de fomento, o BNDES. Somado a isso, o orçamento foi sendo pouco a pouco reduzido em áreas como educação, saúde, ciência e tecnologia, combate à fome, moradia etc. Por outro lado, aumentou-se a prioridade para a obtenção do superávit primário a todo custo.  

Essa busca do governo de executar um orçamento que gasta menos do que arrecada virou uma verdadeira loucura com Jair Bolsonaro. São muitas as notícias que mostram a falta de recursos em inúmeros órgãos neste fim de ano. Mesmo assim, a expectativa do atual ministro da economia, Paulo Guedes, é fechar o ano de 2022 com um superávit primário de R$ 40 bilhões. Isso mesmo. O governo Bolsonaro praticamente deixou fechar diversos serviços públicos por falta de verba, mesmo havendo essa dinheirama para ser gasta. Esse é o contexto no qual se deram as negociações da PEC da Transição, que corrigiu um conjunto de irresponsabilidades desta natureza.  

Por isso, em 2023 a expectativa é de que haja uma espécie de correção de rumos. É bem verdade que a economia mundial está em desaceleração e, por isso, essa correção pode ser turbulenta. Mas, me arrisco a dizer, que o crescimento do Brasil será significativamente maior do que as atuais estimativas do “mercado”, que prevê algo menor que 1,0%. O motivo desta visão otimista explico a seguir.  

Há um conjunto de necessidades estruturantes para uma expansão robusta e adequada da economia, mas que, como mencionei anteriormente, foram negligenciadas nos últimos anos. Não é nenhuma novidade no âmbito da ciência econômica que economias como a brasileira, economias atrasadas, necessitam do impulso do Estado para garantir seu sucesso. O motivo fundamental é que alterar o “estado das coisas” livremente, via mercado, é impossível. Por isso, para romper as amarras que caracterizam a nossa dependência, é estritamente necessária a ação ativa do Estado na criação de condições que façam a produção local reduzir o atraso em relação às “melhores práticas internacionais”. Esta ação, porém, depende do apoio da base ideológica que sustenta o governo e, principalmente, da elite que (teoricamente) vai lucrar com isso.  

Apesar de termos visto a elite financeira (e aqueles que ganham com o atual “estado das coisas”) tentando impedir a proposição de medidas diferentes, mesmo assim, é de se esperar que a partir de 2023 isto mude. Como já vimos entre 2003 e 2010, é perfeitamente possível que todos ganhem em momentos de expansão econômica, capitalistas e trabalhadores. Somado a isso está o fato de que a ação estatal no Brasil está parada há muito tempo. Por isso, o atual “esforço fiscal” certamente fará nossa economia voltar a andar para a frente. O difícil é articular isso com as elites e manter o provável arranque que se iniciará ano que vem. É esperar e cobrar

Ah! ... Feliz ano novo!

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i Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpblucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Gonçalves. 
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

As dificuldades de 2023

Semana de 12 a 18 de dezembro de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Os atos de vandalismo e a baderna provocada em Brasília pelas hordas de bolsomínions enfurecidos pela prisão do farsante pastor-cacique Serere, ainda ressoam, enquanto os caminhões de mudança discretamente continuam a trabalhar no palácio da Alvorada. Mas os fanáticos ainda esperam mais 72 horas pois o “mito” vai ressurgir das profundezas dos infernos com o seu prometido golpe. O delírio continua a ser alimentado pelo próprio presidente com suas declarações e pela conivência de autoridades policiais e militares que facilitam o apoio aos acampamentos nas áreas dos quarteis do exército que se transformaram em covís de marginais. Triste papel dos comandantes destes quarteis que se tornaram coiteiros de bandidos. Até quando estes abusos serão tolerados sem que os responsáveis sejam punidos?

A tensão aumenta com a aproximação do dia da posse do novo presidente, diante das ameaças de atentados para impedi-la, o que parece não preocupar os eleitos, pois as nomeações dos futuros ministros e auxiliares continuam a ocorrer a cada dia como se nada de extraordinário estivesse ocorrendo. À medida em que os nomes são divulgados, os ânimos vão se acalmando com os esperneios previsíveis. As questões econômicas são as que provocam os maiores ataques de pelanca do tal “mercado”, acompanhados pelo coro de muitos analistas partidários da austeridade fiscal a todo custo e cupinchas dos setores mais reacionários da burguesia. Até esquecem os desmandos do governo Bolsonaro com os estouros do teto, os atos eleitoreiros de última hora e a farsa de orçamento aprovado, irresponsável e irrealizável.

Enquanto isso, Bolsonaro se despede assinando atos administrativos de última hora, tentando aproveitar os momentos finais para nomear seus cupinchas que ficarão desempregados e complementar seus planos de destruição do país. Como ele mesmo afirmou, o que ele sabe fazer é matar, foi isto que aprendeu como oficial de artilharia. E foi tão mau aluno que o Exército não o quis. Mas, o pouco que aprendeu foi suficiente para matar, não apenas pessoas (só na pandemia mais de 600.000), mas um país. A destruição que o seu governo causou levará muito tempo para ser reparada. O novo governo enfrentará um primeiro ano infernal pois as bombas econômicas de efeito retardado deixadas por ele já começaram a estourar.

Com efeito, como temos demonstrado, a desaceleração da economia continua em marcha. O próprio Banco Central (BC), em seu relatório de inflação de dezembro, prevê que em 2023 o PIB crescerá apenas 1%, a indústria terá crescimento zero e os serviços 0,9%. Só a agricultura terá crescimento (7%), mas a Formação Bruta de Capital Fixo, indicador dos investimentos, crescerá apenas 0,3%. O BC atribui tudo isto à taxa de juros real elevada que, já no último trimestre do ano atual, chegou a 7,8%. O BC divulgou ainda o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado indicador antecedente do crescimento do PIB. Este Índice mostrou uma desaceleração de -0,05%, em outubro. Lembremos que, em setembro, indicou um crescimento de apenas 0,05%. Se considerarmos a grande possibilidade de agravamento da situação internacional, a inflação pode piorar e levar o BC a aumentar ainda mais a taxa Selic o que agrava a desaceleração. O orçamento fantasma e as irresponsabilidades eleitoreiras do governo Bolsonaro podem provocar um agravamento da dívida pública o que criará maiores dificuldades no primeiro ano do novo governo. Uma situação difícil a ser enfrentada.

A economia já emite sinais negativos que permitem prever o que se aproxima. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE, mostrou uma queda de -0,6% no volume de serviços em outubro. Três das cinco atividades recuaram, com destaque para os Transportes (-1,8%) e serviços prestados às famílias (-1,5%). Estes dados levam os analistas e a própria FGV Ibre a prever uma desaceleração geral no quarto trimestre deste ano. Aqui nesta coluna temos seguidamente alertado para estes fenômenos que agravam as nossas próprias dificuldades. Eis o que nos espera em 2023.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Alves.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Dor, alegria, ódio, medo e esperança: eis o Brasil

Semana de 05 a 11 de dezembro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Por motivos distintos e difusos, frações da sociedade brasileira têm sofrido com os últimos acontecimentos da última semana. Não poderia deixar de registrar a dor de ver a seleção levar um gol de contra-ataque, aos 116 minutos de um jogo de futebol e em plenas quartas de final de Copa do Mundo. A equipe toda falhou naquele momento. Essa, talvez, seja a dor mais disseminada no país.

Porém, três dias depois da eliminação, pudemos comemorar a diplomação de mais um presidente democraticamente eleito. Assim, com esse terceiro mandato, Lula constrói um verdadeiro triplex na cabeça dos bolsonaristas. E aqui vale ressaltar o empenho do atual presidente do TSE, Alexandre de Moraes, para garantir que a democracia fosse respeitada. O meu eu, de 12 maio de 2016, dia da sua nomeação como ministro do STF, jamais pensou que Moraes seria um “paladino da justiça” em 2022.

Isto, no entanto, despertou choro e ranger de dentes em uma parte dos brasileiros. Neste mesmo dia da diplomação de Lula, viu-se um rebanho de bolsominions desgarrados botando terror em Brasília. O motivo é curioso, pois envolve mais um personagem caricato do multiverso bolsonarista: um indígena cacique-pastor-missionário. O Serere Xavante foi preso, dentre outras coisas, por incitar e liderar atos criminosos contra Lula e contra a democracia. Para piorar, depois do quebra-quebra, dos incêndios e da baderna, ninguém foi preso em flagrante. A suspeita é de conivência de parte das forças policiais com os manifestantes.

Por sua vez, o sentimento de medo, ao qual me refiro no título da análise, já vem sendo tratado há algumas semanas: o medo do “mercado”. Na medida em que avançam as tratativas e indicações dos futuros ministros do governo Lula, avançam também as “análises” e opiniões de que as coisas já estão no caminho errado. Não é difícil encontrar nos grandes portais ligados ao setor financeiro as notícias que decretam o futuro desastre brasileiro.

Baseados em teorias que respeitam pouco a realidade e os fatos, tais “analistas” projetam para o futuro aquilo que vivemos hoje, como se nada ou pouca coisa pudesse mudar ao longo do tempo. É como se o fraco crescimento econômico de hoje fosse perdurar e, com isso, não fosse possível pagar os gastos e os investimentos pretendidos pelo novo governo. Mas, como é bem sabido por qualquer economista que tenha estudado bons manuais de macroeconomia, os investimentos governamentais tem um forte efeito de retroalimentar a atividade econômica. Com isso se gera mais renda. Com mais renda há maior arrecadação de tributos. Daí viria a receita para quitar os investimentos.

Mas, não se poderia esperar outra coisa dos analistas do “mercado”. Esses são os mesmos que sempre defendem o nosso papel tradicional no sistema econômico mundial, de país subordinado. Na cabeça deles é assim: façamos o mais fácil (economia baseada em produtos primários) e deixemos o difícil para os outros (economia de maior complexidade tecnológica). Para eles a economia e o orçamento público estão ótimos da maneira como se encontram hoje, pois sempre saem ganhando. Querer aumentar a dívida pública é um pecado, mais ainda se o objetivo é dar dinheiro aos pobres ou investir em infraestrutura, educação, ciência e tecnologia. O dinheiro público tem que ir para a gestão da dívida, aliás, a única cifra do orçamento para a qual não se discute um ajuste ou sacrifício.

É na flexibilização dessas exigências do “mercado” que está a esperança de dias melhores para o Brasil e os brasileiros. Como estamos vendo, o futuro governo já está a governar. Além de conseguir aprovar no Senado uma PEC para aumentar os gastos em 2023, a equipe de transição conseguiu dinheiro para Bolsonaro e Paulo Guedes pagarem as contas de 2022. Não fosse isso muitos serviços públicos iriam parar, literalmente.

Mas, como destacamos nas últimas análises, o “mercado” é muito duro na queda. A chance de dobrá-lo sem sequelas é (quase) zero. Por isso, que o novo governo toque seus projetos, doa em quem doer. Mas deixo claro, também estaremos aqui pra fiscalizar...


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Gonçalves.

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