quarta-feira, 17 de abril de 2013

De novo a independência do Banco Central


Semana de 05 a 14 de abril de 2013


Rosângela Palhano Ramalho[i]



            Durante todo o ano de 2012, notícias davam conta da desaceleração econômica brasileira que acabou se confirmando com o crescimento de apenas 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O débil crescimento do ano passado derrubou o argumento de que a nossa inflação é de demanda. Com isso ganhou força a tese de que havia espaço para uma queda acentuada dos juros.
            Neste ano espera-se um crescimento em torno de 3%. A presidente Dilma continua sustentando a ideia de que a economia vai bem. Mas, convidou para um “bate-papo”, os economistas Delfim Netto, Yoshiaki Nakano e Luiz Gonzaga Beluzzo. Na verdade, os convidados estavam mais preocupados em entender o aumento da inflação diante de uma atividade econômica tão debilitada.             Afinal de contas, esta desaceleração deveria provocar uma queda dos preços.
            Como explicar, então esta inflação persistente? Alguns sustentavam que seria um choque de oferta e como os choques de oferta são transitórios, não seria necessária a intervenção do Banco Central, aumentando os juros. Mas, segundo Nakano, presente na reunião com Dilma, o mercado de trabalho em pleno emprego, o componente inercial da inflação (que transforma a inflação passada em futura), e o mecanismo da indexação generalizada, promovida pelo próprio governo no setor de serviços, têm contribuído para a alta do nível de preços. Diante deste cenário, o economista aconselha que a melhor saída seria o aumento da taxa de juros pois, isto combateria o aumento dos preços promovido pelo setor de serviços.
            Já para Delfim Netto, que também estava presente na reunião, a inflação persistente tem suas causas nas ineficiências da economia brasileira e a solução estaria, não na política monetária, mas na adoção de uma política social e econômica que incentivasse a inclusão social, promovendo mudanças estruturais e estimulando a competição. Por estas razões, a solução não estaria no aumento dos juros.
            Diante desta indefinição, os mais variados conselhos surgem e volta à tona novamente a questão da independência do Banco Central. Alguns meses atrás, escrevemos, neste espaço, uma análise intitulada: A quem interessa a autonomia do Banco Central? Mais uma vez, os economistas que defendem tal autonomia e os “analistas de mercado” levantam a questão. Segundo eles, o Banco Central, ao não sinalizar ao “mercado” qual seria a sua verdadeira intenção, tem provocado frustração nas expectativas e alimentado a alta de preços, ao deixar implícito, em sua comunicação, que não busca atingir o núcleo da inflação.
            Mas o que é ter um Banco Central independente? Grosso modo, a independência deve acontecer por duas vias: a de instrumento (a autoridade monetária deve ter à sua disponibilidade, instrumentos que permitam a sua tomada de decisão sem vínculo com nenhuma outra autoridade política) e a de metas (em que o Banco tem a liberdade de definir os objetivos a serem alcançados).         Esta posição prevê, como único objetivo da autoridade monetária, a busca pela estabilidade de preços, uma vez que o crescimento econômico não seria influenciado por variáveis monetárias, mas sim por variáveis reais!
            Os economistas estão preocupados em defender “ideologicamente” a teoria da independência do Banco Central que, segundo eles, resume-se ao cumprimento das metas inflacionárias e se realiza pelo aumento dos juros. Portanto, o “dedo” político de Dilma, dos conselheiros por ela convocados e que não pertencem ao governo e do ministro Mantega, apenas perturbam o cumprimento das metas, gerando incertezas.
            Já os “analistas de mercado” não defendem uma ideia teórica, mas se dizem “superpreocupados” com a inflação e pressionam para o aumento dos juros na próxima reunião do Copom. Na semana passada, o “mercado” já comemorava a provável decisão. Esta semana, com a divulgação pelo IBGE, da queda de 0,4% das vendas no varejo, em fevereiro, comparadas à janeiro, e da alta de 0,47% do IPCA, em março, ante 0,60%, em fevereiro, pôs um balde de água fria nestas expectativas.
            Com atividade baixa e inflação desacelerando, provavelmente o Banco Central vai adiar, para maio, o aumento dos juros, para revolta dos que defendem a independência da autoridade monetária e desalento daqueles que sobrevivem à custa dos altos juros garantidos pelo governo brasileiro.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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quinta-feira, 11 de abril de 2013

E agora BC, para onde?


Semana de 01 a 07 de abril de 2013


Lucas Milanez de Lima Almeida[i]




            Como Carlos Gomes e Marianne Hanson, analistas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, explicam, o sistema de controle da inflação “consiste em um conjunto de regras que visa criar uma âncora de política monetária baseada nas expectativas dos agentes. Ao se comprometer exclusivamente com uma meta para a inflação e ajustar a taxa de juros para o alcance dessa meta, a política monetária atua diretamente sobre as expectativas, e a demanda agregada converge para o pleno emprego no longo prazo. A transparência na comunicação e a credibilidade monetária são premissas essenciais para esse modelo”.
            Mas, o que este economês quer dizer? Vejamos a subjetividade desta proposição.
            Primeiro: o elemento mais importante para a política econômica, ou seja, o determinante para as decisões que o Estado deve tomar ao longo dos anos, é ditado pela previsão que os sapientes agentes fazem do que vai acontecer no futuro. Assim, dadas as expectativas para o amanhã, o governo decide como serão as medidas de hoje. Chegamos ao segundo ponto. Se não houver nenhum imprevisto e o governo se comprometer a cumprir o que as expectativas previram, ou seja, se o governo “criar uma âncora de política monetária baseada nas expectativas” e se dedicar, custe o que custar, à realização do que os agentes acham que vai acontecer, as coisas realmente acontecerão num tempo mais ou menos longo. Chegamos ao terceiro ponto.
            A demanda prevista será satisfeita pela oferta prevista de acordo com os preços conhecidos por todos (incluindo ai a inflação). Com isto, não haveria problema econômico nenhum, pois, como todos já sabiam o que ia ocorrer, o fizeram racionalmente, de livre e espontânea vontade. Porém, tudo isto só é possível se o governo anunciar de maneira clara se irá, ou não, se comprometer. Chegamos ao quarto ponto.
            Para que tudo dê certo, é preciso que o governo tome medidas claras e consistentes com as expectativas dos agentes. Além disso, se, por ventura, ocorrer qualquer desvio de política econômica, este tem que ser explicitado previamente, sob o risco de o governo perder sua credibilidade e, com isso, causar algum problema à economia.
            Este é o conteúdo teórico do que o governo faz lá em Brasília.
            Mas, como isto funciona na prática? As expectativas utilizadas pelas autoridades advêm dos chamados “analistas de mercado”. Estes são “especialistas” que, dentre outras coisas, fazem investigações e previsões acerca da atividade econômica. Em sua grande maioria (pelo menos aqueles que têm mais abertura na mídia), são funcionários e sócios de empresas do setor financeiro, que vivem da negociação dos conhecidos ativos financeiros. Estes papéis, que por acaso rendem juros ao seu detentor, são contratos de dívida e/ou propriedade, que se estabelecem entre governos, empresas e/ou pessoas físicas, e são negociados no mercado de capitais. Pois bem, muitos destes analistas abriram a boca, a tampa das suas canetas e a capa dos seus tablets para afirmar que “com a inflação não se brinca”.
            A inflação oficial, que é usada como principal parâmetro dos preços, é medida pelo IPCA. Este índice reúne nove categorias de gastos de 90% das famílias brasileiras. Atualmente, contando os últimos doze meses encerrados em fevereiro, este índice subiu 6,31%. O limite estabelecido pelo Banco Central é de 6,5%, ou seja, se a coisa continuar do jeito que está, as expectativas dos agentes podem ser frustradas...
            Era o que faltava para o canto dos “analistas de mercado” virar coro. A repercussão foi tão grande que na semana passada o presidente do BC foi à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e afirmou que o IPCA de março será decisivo para a próxima reunião do BC, nos dias 16 e 17 de abril. O fato é que deste encontro sairá o novo nível da taxa básica de juros. Segundo as palavras do chefe, “Se e quando necessário, o BC ajustará sua política monetária”, ou seja, se houver um aumento dos preços, provavelmente haverá um aumento dos juros.
            Ótimo para os agentes econômicos que moram em 18 capitais do Brasil. Criaram suas expectativas, mas, diante dos problemas climáticos e da quebra de safra, tiveram que sofrer neste primeiro trimestre do ano.
            Coitados!
            Segundo o Dieese, ocorreu uma subida de 6% a 24% no preço da cesta básica. Mas, com as medidas salvadoras de aumento da taxa que remunera o setor financeiro, com certeza o clima vai melhorar e os preços vão baixar...


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)
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quinta-feira, 4 de abril de 2013

O rato e o elefante


Semana de 25 a 31 de março de 2013


Nelson Rosas Ribeiro[i]




Fala-se que nada mete mais medo a um elefante do que um rato. Se é verdade, jamais saberemos as razões, diante da impossibilidade de consultar quaisquer dos dois animais. Na economia, a situação também se repete. Como é possível que o pequeno rato Chipre ainda continue nas manchetes causando pânico ao grande elefante eurozona, apesar de sua diminuta população (um milhão de habitantes) e da sua ridícula importância econômica (0,2% do produto da zona).
A questão não se encontra no fato do pequeno país se mostrar incapaz de saldar ou rolar a sua dívida, mas na solução proposta para evitar a bancarrota, uma vez que ela envolvia a quebra do sistema bancário nacional. Para abrir as portas a um empréstimo de 10 bilhões de euros, o governo, endossado pela troika FMI, BCE (Banco Central Europeu) e CE (Comissão Europeia), decidiu punir os clientes dos bancos roubando-lhes parte de seus depósitos (6,75%, para os valores inferiores a 100 mil euros e 40%, para valores superiores a este montante). A revolta da população levou o parlamento a derrubar a decisão o que provocou outra solução: roubar 40% dos correntistas com mais de 100 mil euros. Só no Bank of Cyprus, esta medida afetou 19 mil correntistas com depósitos de 8,01 bilhões de euros. Além disso, o Laiki Bank, o segundo maior do país, teve suas atividades encerradas e seus cientes, com mais de €100 mil, perderão tudo ou quase tudo, o que atingirá um montante de €3,2 bilhões.
Com exceção dos milionários russos, que utilizam as facilidades bancárias cipriotas para esconder suas fortunas desonestas, a nova solução parece ter agradado a todos. Um rato mata-se com uma chinelada. Talvez a coisa ficasse por aí não fosse a infeliz franqueza do Sr Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, que reúne os ministros das finanças dos países do bloco. Ele declarou que a solução cipriota seria um modelo de resolução das crises bancárias futuras. O elefante eurozona tremeu diante da possibilidade de uma corrida generalizada sobre todos os bancos. A repercussão imediata foi observada na queda das ações dessas empresas nas bolsas, principalmente na Espanha e Itália. O presidente Jeroen correu desesperado para desdizer apressadamente o que havia dito. No entanto, embora atenuada, a inquietação ainda persiste.
O poderoso euro está novamente ameaçado por um rato. Vários são os comentários nesse sentido. O prêmio Nobel Paul Krugman considerou que, com as medidas adotadas, “Chipre está fora do euro”. Guntram Wolff, economista do Centro de Estudos Bruegel, de Bruxelas afirmou que “um euro cipriota não é mais um euro”.
Mas o problema não é apenas monetário. Foi levantada a contestação sobre a existência dos paraísos fiscais e a possibilidade de pequenos países abrigarem grandes centros financeiros. Países como Luxemburgo, com seus 500.000 habitantes e com um sistema bancário gigante, cujos ativos equivalem a 22 vezes o seu PIB, através de seu ministro da fazenda, protestou. O diretor do banco central de Malta, outro pequeno país, também partiu para o combate. Os ativos dos maiores bancos de Malta correspondem a 300 vezes o seu PIB.
Apesar de amenizada, a crise do euro e da eurozona continua, desta vez alimentada pelos paraísos fiscais, covis de ladrões tão necessários ao sistema capitalista que parece não poder prescindir da sua existência.
Este ambiente agressivo na economia mundial empurra para os países “emergentes” volumes crescentes de capitais em busca de segurança e melhores remunerações. No ano de 2012 o Brasil bateu mais um recorde na captação de recursos no exterior. Para cá vieram US$67,3 bilhões com um crescimento de 1,5% sobre 2011. Apesar de tanto dinheiro disponível, o dólar continua em alta e as ratazanas do capital financeiro já especulam com o aumento da taxa Selic, a pretexto de combater a inflação, considerada “resistente” pelo presidente do BC, Tombini. O “mercado” continua apostando nisto e testando o BC quanto à taxa de câmbio. Curiosamente, o Goldman Sachs, através de um relatório da Global, Investment Research, muito preocupado com a situação do país, recomenda a imediata elevação da taxa Selic e projeta que ela irá a 8,5% até julho.
            Resta saber se, mesmo diante da forte desaceleração da produção industrial observada em fevereiro, ouviremos os bons conselhos de nossos amigos americanos que, em seu país, mantêm sua taxa básica de juros inferior a 0,25%.



[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 27 de março de 2013

Chipre? Que Chipre?


Semana de 18 a 24 de março de 2013


Rosângela Palhano Ramalho[i]



            A situação econômica mundial continua instável. Enquanto os Estados Unidos e o Japão estendem seus “afrouxamentos monetários”, a zona do euro amarga os números do quarto trimestre de 2012. A Eurostat confirmou o cenário recessivo em sete países – Grécia, Espanha, Itália, Chipre, Holanda, Portugal e Finlândia. A queda de 0,6% do PIB na eurozona, segundo analistas, representava o fundo do poço. Ou seja, pior que estava não ficaria. Será? Há duas semanas, as atenções estão voltadas para um novo problema, desta vez, em Chipre.
            Mas, Chipre? Que Chipre?
            Permitam-me apresentá-lo.
            O Chipre é uma pequena ilha encravada no Mar Mediterrâneo ao sul da Turquia. O país faz parte da zona do Euro desde 2008. Apesar de ter um pouco mais de um milhão de habitantes e um PIB anual de 18 bilhões de euros, a sua dívida pública representa 130% deste montante. Os ativos das instituições financeiras comportam 8% do PIB (a média europeia para estes ativos é de 3,5%) e os depósitos representam quase 8 vezes o valor do PIB.
            Todos estes números foram favorecidos pelo atraente setor bancário de Chipre. A ilha tem um regime fiscal leve quando comparado ao restante da Europa. O imposto de renda sobre a pessoa jurídica é de 10% (a média europeia situa-se entre 25% e 35%). Atualmente o país, além de ter pouco controle da origem dos capitais, é o principal destino do capital russo no exterior e o setor bancário oferece maiores taxas de remuneração que as praticadas nos outros países da zona do euro.
            Diante da falta de regulamentação e da pouca transparência do sistema bancário, os governos europeus suspeitam que atividades ilegais sejam praticadas e, inicialmente, ao manifestar-se a crise financeira, a União Europeia apresentou resistência em oferecer ajuda. A ameaça de falência bancária correu o mundo e a primeira medida do governo foi a de manter fechadas todas as agências, limitando os saques diários ao equivalente a R$ 260.
            Considerando as “grandes dimensões econômicas” do pequeno país (Chipre representa 0,2% do PIB da zona do euro) e as consequências da sua saída da zona, para os demais países europeus já debilitados, as autoridades mundiais e europeias, digam-se FMI e a cúpula da União Europeia, cuidaram em apresentar uma rápida solução para os problemas bancários cipriotas. Em acordo com o governo, resolveram atirar sobre os correntistas a metade do custo de recapitalização dos bancos estimado em € 12 bilhões. Para isto seria cobrado um imposto de 9,9% sobre os depósitos acima de € 100 mil e de 6,75% sobre os depósitos abaixo desse valor.
            O governo, que já havia cogitado pedir ajuda aos russos, enfrentou a oposição do Parlamento que rejeitou a solução proposta.
            Enquanto escrevo esta análise, a imprensa noticia que um novo um acordo foi firmado. Segundo as primeiras notícias, o maior banco do país vai ser salvo, mas, os depósitos acima de 100 mil euros sofrerão perdas de até 40%. O Banco Laiki, segundo maior do país, será fechado, com garantia para os pequenos correntistas e perda parcial para os depósitos acima dos 100 mil euros.
            O ajuste macroeconômico pelo qual deve passar o Chipre – controle do orçamento, reforma estrutural e privatizações – exige um financiamento de até 10 bilhões de euros dos quais o governo cipriota deve arcar com 5,8 bilhões e a eurozona e o FMI comprometem-se com o restante.
            Antes do acordo ser firmado, o Banco Mundial argumentava que era necessário reduzir a volatilidade e a incerteza dos “mercados”. Agora, o FMI acredita que as ações tomadas são suficientes para resgatar a confiança destes “mercados”.
            Com ares arrogantes, a troika (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia), torna cada vez mais habitual o uso da austeridade para “garantir o crescimento”. Não sabem eles que o fato de terem altos salários, de pertencerem às nações mais ricas do mundo, e de estarem elegantemente vestidos, não os autoriza a discutir e impor soluções para os problemas dos outros, como se lhes tivesse sido conferidos toda a autoridade e o dinheiro do mundo. As mudanças de rumo da economia europeia e mundial estão longe das suas competências e atribuições.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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terça-feira, 19 de março de 2013

A polêmica ata do COPOM


Semana de 11 a 17 de março de 2013


Eric Gil Dantas [i]


O debate dos últimos dias gira em torno da conturbada ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), divulgada no dia 14. Em seu parágrafo 28, a ata afirma “que a política monetária deva ser administrada com cautela”. Isto, claro, inquietou todo o sistema financeiro, que berrou por emergência no aumento da taxa de juros para combater a inflação, que se aproxima perigosamente do extremo da meta.
A inflação acumulada nos últimos 12 meses atingiu 6,15%, em janeiro, abaixo dos 6,22%, registrado no ano anterior. No entanto, isto foi o suficiente para a criminalização do discurso do Banco Central (BC) por parte de diversos economistas ligados aos grandes bancos, que veem na taxa de juros o único mecanismo de controle. O economista-chefe do BNP Paribas, Marcelo Carvalho, denominou a ata de “velha”, por ela ter sido escrita antes da divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor – Amplo (IPCA), de fevereiro, que veio acima do esperado pelo mercado e pelo BC (que estimava em 0,6%). As especulações dos economistas, já para a reunião de abril, ou maio, variam entre aumentos da SELIC, de 0,25% a 0,5%. O BC parece estar em uma situação bastante delicada. Apesar de a inflação estar acima do centro da meta, a economia não cresce. Como já dito em análises anteriores, o Brasil teve um crescimento do seu PIB de apenas 0,9%, em 2012, e em termos per capita, de 0,1%. Mas, como a fase atual ainda não parece ser de recuperação, a atuação do Banco Central, na aplicação de sua receita ortodoxa, torna-se difícil.
Para tentar salvar a economia, o governo expandiu mais uma vez seu pacote de isenções fiscais, esperando, assim, diminuir a inflação, estimular o consumo, e consequentemente, despertar o instinto dos empresários para os investimentos.
A medida provisória publicada na semana passada fez um corte geral de tributos dos seguintes produtos: carnes, peixes, café, açúcar, óleo de soja, manteiga, margarina, sabonete, pasta de dente e papel higiênico. Ao todo, o governo deverá abrir mão de R$ 5,5 bilhões em arrecadações, em 2013. Mas, como em casos anteriores, o repasse da isenção aos consumidores será apenas parcial. Para o Bradesco, a média deste repasse, para o preço comercial, deverá ficar próxima dos repasses das isenções de IPI de carros (84%) e da linha branca (40%).
Mas, vivemos em uma economia globalizada e, por isso, o Brasil apenas poderá livrar-se da crise em um movimento global. A retomada do crescimento internacional será assim, o porta-voz do final da crise econômica brasileira.
A China – principal parceira comercial do Brasil –, infelizmente, demonstra que a retomada ainda não é pra já. Sua produção industrial cresceu 9,9% entre janeiro e fevereiro, na comparação com o mesmo período de 2012. Apesar de parecer um resultado bastante positivo, isto representa uma desaceleração, ante o crescimento anualizado de 10,3%, em dezembro, e das previsões feitas por economistas, que eram de 10,5%. No varejo, o crescimento foi de 12,3%, no primeiro bimestre, em relação a um ano atrás, contra uma alta de 15,2%, em dezembro.
No Reino Unido, a queda da produção industrial foi de 1,2%, entre janeiro e dezembro, e de 2,9%, se comparado ao mesmo período de 2012. Já na zona do euro, esta queda foi de 1,3%, se comparada ao ano passado, e de 1,7%, se considerarmos os resultados de toda a União Europeia.
Para termos uma ideia, da precariedade da situação, lembramos que o PIB da zona do euro, hoje, está 3% abaixo do seu nível de antes da crise. Na Itália, a queda chega a 10%.
Nos EUA, os problemas dos próximos meses serão agravados pelos cortes automáticos de U$85,3 bilhões de gastos públicos, que entraram em vigor, em março, e pelo aumento de impostos definido na virada do ano, nas negociações que evitaram o chamado “abismo fiscal”. A tímida aceleração da economia estadunidense poderá ser prejudicada pelos cortes dos gastos públicos, que certamente serão sentidos.
A ainda frágil economia mundial impede a retomada do crescimento brasileiro. No entanto, as pressões do capital financeiro, pelo aumento da SELIC, também devem prejudicar esta retomada, tendo em vista que o aumento da taxa de juros pune os consumidores e onera os investimentos produtivos no país.


[i] Economista e mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFPR; é pesquisador do ILAESE (Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos) e do Progeb (Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira) (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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terça-feira, 12 de março de 2013

Qual a atual fase do Ciclo Econômico?


Semana de 04 a 10 de março de 2013


Lucas Milanez de Lima Almeida[i]




            Os leitores mais assíduos não foram pegos de surpresa quando viram os números da atividade econômica brasileira, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como temos afirmado, já há algum tempo, a situação onde atualmente se encontra a economia brasileira e mundial não é de prosperidade.
            A fase em que estamos é chamada de depressão, que se caracteriza pela destruição de forças produtivas e redução/estagnação da atividade, não há novos investimentos, há uma tendência de queda nos salários, o consumo e a produção continuam a cair e há elevado grau de desemprego. Vamos aos fatos.
            Em 2012, o avanço da riqueza produzida pelo Brasil, representada pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), foi de 0,9%, quando comparamos com 2011. Quando comparamos os anos de 2010 e 2011, vemos que o crescimento foi de 2,7%, enquanto entre 2009 e 2010 foi de 7,5%. O resultado do ano passado ficou abaixo da média mundial, que foi de 3,2%, incluindo Japão (1,9%), EUA (2,2%) e os outros BRICS (Rússia 3,4%, Índia 5%, China 7,8% e África do Sul 2,5%).
Quando, para o Brasil, desagregamos por setores, vemos quais os responsáveis por tais cifras: o setor agropecuário caiu 2,3%, o setor industrial caiu 0,8%, enquanto os serviços cresceram 1,7%, entre 2011 e 2012. Além disso, sob a ótica da demanda, os investimentos caíram 4%, as exportações subiram 0,5% e as importações cresceram 0,2%. Com estes números podemos afirmar que boa parte das características desta fase do ciclo se manifestou no ano passado.
            Entretanto, alguns dados nos dão indícios de que estamos na fase de reanimação econômica, a qual se caracteriza por: aumento do consumo, estímulo à produção e aos investimentos, recuperação do crédito e redução do desemprego e das falências. Quando observamos o consumo final brasileiro e os dados do Caged (Cadastro Geral dos Empregados e Desempregados), isto parece evidente: enquanto o consumo cresceu 3,1%, entre 2011 e 2012, (famílias 3,1% e governo 3,2%), o número de empregos criados foi de 1,3 milhões e o crescimento da massa salarial foi de 6,7%. Segundo um estudo da MB Associados, nos últimos dois anos, o consumo das famílias foi responsável por 89,6% do crescimento do PIB, o governo respondeu por 21,9%, a Formação Bruta de Capital Fixo contribuiu com míseros 2%, enquanto as importações corroeram 13,6% do produto brasileiro.
            As questões que se põem são: como tais números, aparentemente bons, corresponderam a resultados tão fracos para o PIB? E, por que os estímulos não se traduziram em crescimento acelerado, ou pelo menos no mesmo patamar da média mundial? As respostas disto estão nos dados da produção de industrial e das importações brasileiras.
            Com um peso de 50% na conta de Formação Bruta de Capital Fixo (que corresponde aos investimentos), a produção de máquinas e equipamentos recuou 9,1%, entre 2011 e o ano passado. A construção civil, que tem um peso de 44% nos investimentos, cresceu insuficientes 1,9%. O caso das importações se torna gritante quando analisamos os últimos quatro anos, quando começou a crise e, consequentemente, as medidas anticíclicas. O índice de quantum das compras externas, por setor, apresentou os seguintes crescimentos: bens de consumo não duráveis 51%, bens de consumo duráveis 54%, bens intermediários 47% e bens de capital 58%.
            Em parte, isto explica o porquê do consumo elevado e da produção baixa, características de duas fases distintas do ciclo. Os estímulos dados internamente foram, em sua maioria, exportados para mercados externos. Para se ter uma ideia, o percentual de produtos importados que satisfazem a demanda nacional subiu de 19,5% para 21,6%, entre 2011 e 2012. No mesmo período, o percentual de insumos importados utilizados na produção nacional subiu de 21,3% para 23,2%. Não é a toa que muitos analistas afirmam que este modelo, essencialmente baseado no consumo, não é viável.
            A situação está tão ruim que o Banco Central manteve a taxa básica de juros, Selic, em 7,25%, apesar do chororô do “mercado”. Segundo o comunicado, o cenário macroeconômico será crucial para a decisão a ser tomada na próxima reunião, em abril.
            Aguardemos...
            Mas adianto que estamos aquém de uma verdadeira retomada.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)
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quarta-feira, 6 de março de 2013

Novos obstáculos para a recuperação


Semana de 25 de fevereiro a 03 de março de 2013


Nelson Rosas Ribeiro[i]




Em análises anteriores, temos chamado a atenção para o aumento dos rumores de uma possível recuperação da economia mundial.
Esse processo não deixa de ser contraditório. Durante a semana passada, quatro acontecimentos internacionais foram aguardados com ansiedade: as eleições na Itália, a fala de Ben Bernanke, presidente do Fed (Banco Central dos EUA) no congresso americano, a decisão sobre a questão fiscal nos Estados Unidos e a escolha do presidente do Banco do Japão (BoJ). Estes acontecimentos representam fortes indicadores dos rumos que tomarão a economia mundial. Os resultados apenas confirmaram o agravamento da situação, embora dois deles tenham alegrado os especuladores financeiros. Em seu discurso, Ben Bernanke garantiu que o Fed continuará sua política de “afrouxamento monetário” e manterá a compra mensal de US$ 85 bilhões de títulos, injetando dinheiro na economia. No Japão, o novo presidente do BoJ prometeu entrar na onda mundial do dinheiro fácil, despejando ienes nos mercados e desvalorizando sua moeda. Convém lembrar que o Banco Central Europeu (BCE) já vinha comprando títulos da dívida soberana e sustentando as economias de países como Grécia, Espanha e Portugal e que, na “guerra cambial”, até o sisudo Banco Suíço havia decidido emitir francos para saciar a furiosa demanda especulativa sobre esta moeda. Observamos assim o agravamento da avalanche de papel moeda que ameaça soterrar a economia mundial o que trará consequências imprevisíveis.
Em relação aos outros acontecimentos, a questão fiscal dos EUA agravou-se diante do impasse entre republicanos e democratas e entrou em vigor o “sequestro fiscal” com os cortes impostos ao orçamento. Quanto às eleições italianas o resultado foi o pior possível e o país encontra-se à beira da ingovernabilidade. Nenhum partido obteve maioria que permitisse a formação de um novo governo e o partido mais votado foi o partido do protesto do comediante Beppe Grillo. De cada 10 italianos 9 se manifestaram contra as medidas de austeridade, o que representa uma forte ameaça à estabilidade da zona do euro.
No Brasil, a situação não é das melhores. A divulgação, pelo IBGE, dos dados do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), para 2012, mostrou, como era previsto, um crescimento do PIB de apenas 0,9%, em relação ao ano anterior. Esta taxa ridícula, que coloca o Brasil entre as piores economias do mundo, desmoralizou, uma vez mais, as previsões do ministro Mantega que estavam em torno dos 4,5%. Mas não foi só isto. Segundo o IBGE, a indústria encolheu 0,8% e os investimentos 4%. Até a agropecuária diminuiu 2,3%. Em sentido contrário, a inflação subiu para 5,8%, ficando acima do centro da meta que era de 4,5%. Enquanto isto, o consumo das famílias cresceu 3,1% e o do governo 3,2%. Como se vê, o crescimento do emprego e da renda que ocorreu no país, em 2012, foi dirigido para fora do país, estimulando as importações favorecidas pelo câmbio e prejudicando a indústria nacional.
Não é por acaso que o pessimismo aumentou entre os agentes econômicos. Três índices de confiança, apurados em fevereiro, para os consumidores, o comércio varejista e os serviços, mostraram uma queda no otimismo. Já se volta a falar em estagflação, termo que significa estagnação com inflação, quadro que desconcerta os economistas seguidores da teoria econômica oficial e põe o BC em um terrível dilema quanto à taxa básica Selic. Esta semana, na quarta feira, a reunião do Copom (Conselho de Política Monetária) deverá tomar uma decisão sobre esta taxa. Segundo a ideologia dominante, para combater a inflação, a Selic deveria ser elevada, mas, segundo a mesma ideologia, para combater a recessão, é preciso reduzi-la. Entre a cruz e a espada o BC, provavelmente manterá a taxa inalterada.
            Isto tudo acontece enquanto o governo anuncia um recorde na cobrança de impostos, para o mês de janeiro, e que já atingiu 24% da meta do superávit primário para todo o ano. Complica-se bastante a situação do governo Dilma em um ano pré-eleitoral o que tende a deteriorar o ambiente político.



[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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