quarta-feira, 7 de outubro de 2020

PIX, o início de uma nova era?

Semana de 28 de setembro a 04 de outubro de 2020

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

PIX é o termo mais badalado no noticiário econômico na última semana. Esse foi o nome dado pelo Banco Central à chegada ao Brasil de uma inovação já existente no México, Índia, EUA e Europa. De maneira genérica, o PIX é um sistema de pagamentos instantâneos criado pelo BC que promete realizar transações de forma imediata, sem intermediários e mais barata que os tradicionais DOC, TED, Boleto Bancário e Cartões. Dentre as empresas que mais se beneficiariam estão as companhias de saneamento, telefonia e distribuição de energia, provavelmente as que mais emitem boletos em bancos.

A ideia é retirar dos grandes bancos e das bandeiras de cartão o quase exclusivo poder de intermediar os pagamentos no país. Assim, além do que já foi dito, a promessa é ampliar a concorrência no setor financeiro nacional. Isto porque os bancos de pequeno e médio porte e as fintechs (as empresas financeiras que operam a partir das novas tecnologias da informação) também poderão participar do PIX.

Além do PIX, há outra sigla com a qual espera-se dar um grande passo na direção do aumento da concorrência na oferta de serviços financeiros no país: a tecnologia da API (interface de programação de aplicativos, a sigla é em inglês). A API nada mais é do que um conjunto de padrões de programação que permite a interligação entre diferentes softwares/aplicativos e páginas da web. Basicamente, é uma ponte que une os diferentes produtos e serviços digitais de informação e comunicação. A título de exemplo, quem nunca utilizou seu login da conta do Google para acessar serviços que não são da empresa Google, como Zoom, Dropbox ou Globo? É a API que permite essa conexão.

A partir da adesão do cliente ao PIX e aos serviços financeiros digitais em geral, espera-se aumentar o leque de instituições com informações bancárias da população. A estimativa do BC é que 30 milhões de pessoas sejam incluídas no sistema financeiro via PIX. O passo seguinte deve ser a interligação das informações de posse das instituições financeiras com empresas de outros ramos via API. Com isso, será possível ao sistema financeiro brasileiro pôr em prática o chamado Open Banking. Neste, o dono dos dados bancários, o cliente, escolhe quais empresas terão acesso às suas informações bancárias, hoje de exclusividade dos bancos tradicionais dos quais é correntista. Assim, o cliente poderá abrir suas informações que estão fechadas em um banco.

Qual a razão disso? A primeira delas é que se apenas um banco tem acesso ao histórico do correntista, ele terá o monopólio das suas informações e o poder impor as condições dos serviços prestados. Por outro lado, se vários bancos têm acesso, há maior probabilidade da oferta de melhores serviços (por exemplo, empréstimos com juros menores). Mas não para por aí. Seria possível às empresas do setor financeiro compartilhar os dados bancários com quaisquer outras empresas que utilizem os meios digitais em seus negócios. Por exemplo, a varejista Magazine Luiza poderia utilizar, por um lado, o PIX para efetivar a venda de produtos. Por outro, com o Open Banking, poderia verificar o histórico de crédito de um cliente em todo sistema bancário e oferecer melhores condições de financiamento de compras a prazo.

No papel, o PIX parece ser, de fato, o início de uma nova era no sistema financeiro brasileiro. Por um lado, tendo em vista a qualidade dos serviços prestados pelos bancos comerciais no Brasil, quem seria louco de ser contra uma ação que tire poder de mercado deles? Por outro, diante das novas possibilidades, quem seria contra a maior concorrência na prestação de serviços financeiros no Brasil?

Um dos “poréns”, e sempre tem pelo menos um, é que toda concorrência tende à concentração e à centralização do capital. Ou seja, em algum momento o mercado será dominado por poucas empresas novamente. Quando isso vai acontecer, não se sabe. O que sabemos é que os maiores bancos do país não vão ficar parados enquanto perdem seu poder de mercado. Não há qualquer dúvida que eles tentarão monopolizar esses novos instrumentos. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Matheus Quaresma, Monik H. Pinto e Daniella Alves.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Desmoralização internacional e aprovação interna

Semana de 21 a 27 de setembro de 2020

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

         

Dificilmente encontraríamos um discurso mais medíocre e mentiroso como o proferido pelo presidente Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU. O tom do discurso aliás havia sido antecipado pelo General Heleno, na audiência pública convocada pelo Ministro Luiz Barroso do STF e, portanto, contou com o apoio do setor militar do governo.

Que vergonha!

Como pode alguém, com a responsabilidade de um presidente, mentir tão descaradamente, para um público internacional, contrariando os dados de seu próprio governo?

Curiosamente, nesta mesma semana, a CNT/Ibope publicou o resultado de uma sondagem de opinião feita por encomenda da Confederação Nacional da Indústria (CNI). De acordo com esta pesquisa a aprovação do presidente cresceu. Os que consideravam o governo ótimo ou bom passaram de 29% para 40%. Entre os que recebiam até 1 salário-mínimo, a percentagem subiu de 19% para 35%. Entre 1 e 2 salários, a aprovação passou de 28% para 39%. Nos que tinham até a quarta série a subida foi de 25% para 44%. Entre os que tinham entre a quinta e a oitava séries a aprovação passou de 26% para 40%. Os que confiam no presidente passaram de 41% para 46% e os que não confiam diminuíram de 56% para 50%.

Como vemos, a aprovação do presidente cresceu entre os mais pobres e com menor grau de instrução. Eis um desafio para os sociólogos.

Isto acontece quando o país apresenta o seguinte quadro: os preços do arroz e outros produtos alimentícios sobem bem como de produtos industriais, aumentando a ameaça de inflação, apesar do BC afirmar que está tudo sob controle. A pandemia continua a matar milhares de pessoas e o número já ultrapassa os 140.000 mortos enquanto o governo vende cloroquina e culpa os prefeitos e governadores pelas consequências de suas irresponsabilidades. O Brasil já voltou ao mapa da fome de acordo com o IBGE. 10 milhões, ou seja, 4,6% da população já se enquadra na classificação de famintos. Os incêndios continuam a queimar a Amazônia e o Pantanal e estendem-se a outras regiões. A Audi para a sua fábrica no país, em dezembro, e a Mercedes e a BMW ameaçam fazer o mesmo por não confiar na capacidade do governo de cumprir os acordos firmados. As empresas ainda programam demissões diante das incertezas e o número de desempregados ultrapassa os 13 milhões. No acumulado do ano os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDP) caem 41% e 30% só no primeiro semestre, segundo o Banco Central (BC), desmentindo o discurso do presidente. Entidades científicas, The Natural Conservancy (INC) e Bain & Company divulgam estudo que confirma que a pecuária é a maior responsável pelo desmate em Mato Grosso e, entre 2013 e 2017, 1/3 do gado comercializado estava contaminado pelo desmatamento. Não foram os índios e caboclos.

Ao nível da política a situação não é melhor. A reforma tributária não anda, o Senado bloqueia a discussão dos vetos do presidente à desoneração da folha de salários, o Renda Brasil, voltando ao centro dos debates, foi substituído pela nova Renda Cidadã, mais empaca na procura dos recursos para o financiamento. As artimanhas do sinistro Guedes são continuamente descobertas e tudo volta para trás. Ele sempre quer roubar dos pobres para salvar os paupérrimos. Retorna o debate sobre a CPMF, rebatizada e adornada com novos disfarces, contando para isto com a colaboração da bancada do governo.

Não satisfeito Bolsonaro resolve elogiar a visita do secretário de estado dos EUA Mike Pompeo ao norte do Brasil, em campanha pela reeleição do Trump, acompanhado pelo chanceler Ernesto Araújo e pregando a derrubada do presidente Maduro, o que provocou protestos do Rodrigo Maia e de 6 ex-chanceleres do Brasil. Tudo isto ocorre enquanto no mundo a Oxford Economics fala na preparação de uma nova crise financeira global segundo uma pesquisa acabada de ocorrer. Para terminar os EUA comemoram 200.000 mortos pela Covid-19 e espera-se novo lokdown na Europa por conta da segunda onda da pandemia. E vamos vivendo!


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Daniella Alves, Guilherme de Paula, Ingrid Trindade, Matheus Quaresma e Monik H. Pinto.

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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Ainda o Renda Brasil. Vai ou fica?

Semana de 14 a 20 de setembro de 2020

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A semana transcorreu assistindo aos embates entre o presidente e o super sinistro da economia Paulo Guedes, o tal do posto Ipiranga. O tema continuou a ser o programa Renda Brasil.  A insistência do presidente na implementação do programa fez o Guedes, emparedado pelo teto dos gastos, que ele considera sagrado, buscar soluções, sempre na expectativa de não atingir os ricos e o capital financeiro. Todas as soluções apresentadas tiravam recursos dos pobres: acabar a indexação do salário mínimo, das aposentadorias e pensões; restringir o Benefício de prestação continuada; acabar com o Farmácia Popular e com o seguro defeso.

Preocupado com a repercussão nos votos e pensando na reeleição Bolsonaro vetou todas as propostas: “Não vai tirar dos pobres para salvar os paupérrimos”. A explosão final ocorreu na quarta feira quando a proposta de Guedes para o Renda Brasil foi fulminada. “Renda Brasil está suspenso”, bradou o presidente. Darei cartão vermelho para quem mantiver tais propostas, são “gente que não tem o mínimo no coração”. E acrescentou: “Até 2022 está proibido falar na palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final.” Encerrada a reunião e acossado pelos jornalistas Guedes jogou a culpa no seu secretário especial de fazenda Waldery Rodrigues, e disse que tudo não passou de “barulheira” e de uma discussão técnica mal interpretada. Mas, recebeu determinações para não dar mais declarações fora da área exclusivamente técnica.

A fúria do presidente durou pouco. A necessidade de manter algum tipo de programa depois de dezembro, quando acabar o auxílio emergencial de R$300, fez Bolsonaro encarregar o senador Marcio Bittar (MDB-AC), relator do orçamento, da elaboração de nova proposta de programa social, delegando plenos poderes para isso. O desgaste do sinistro Guedes tornou-se evidente para o mercado que ficou muito nervoso. O ministro é sustentado apenas pela promessa de que o teto dos gastos será mantido. O senador Marcio reúne-se com Guedes, sem a presença do fritado Waldery, para preparar a tal proposta. Todos aguardam a solução para conciliar o teto com o novo programa, coisa que se apresenta difícil pois, estima-se que no próximo ano o número de desempregados passará dos 20 milhões. Segundo os cálculos do Instituto Fiscal Independente do Senado Federal, em seu Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), para isto será necessário cortar R$20,4 bilhões no orçamento em 2021 o que pode provocar “shutdown” no governo.

Bolsonaro ainda fez outra declaração importante. Na posse do General Pazuello voltou a defender a cloroquina afirmando que ela teria evitado 30% das mortes e o fechamento das escolas. Seu ministro da educação Milton Ribeiro já havia culpado os governadores e prefeitos por esse fechamento e pedido a abertura imediata das aulas.

Na economia há uma boa notícia: a siderurgia apresentou recuperação. Dos 13 fornos desligados 5 voltaram a funcionar e o uso da capacidade instalada chegou a 42% provocando a euforia do presidente do Instituto Aço Brasil que fala em recuperação em V.  O Copom aprovou a manutenção da taxa de referência Selic em 2% enquanto o Pantanal e a Amazônia continuam a arder e a fome volta a aumentar no país atingindo 10,3 milhões de pessoas, segundo pesquisa do IBGE.

Na economia mundial a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE) em seu relatório “Vivendo com a incerteza”, estima que o PIB global em 2020 cairá -4,5% o que significa a perda de US$7 trilhões. Para o Brasil está prevista uma queda de -6,5%.

Para encerrar a semana merece destaque a carta enviada ao vice-presidente Hamilton Mourão, presidente do Conselho da Amazônia Legal, assinada por 8 países europeus Dinamarca, França, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Itália, Noruega e Bélgica demonstrando “extrema preocupação” com as “taxas alarmantes” de desmatamento e exigindo “ações reais imediatas” para não prejudicar as relações comerciais entre os países. Vai doer no bolso do agronegócio.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Daniella Alves, Ingrid Trintade, Matheus Quaresma e Monik H. Pinto.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A reeleição e a economia

Semana de 07 a 13 de setembro de 2020

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A formidável queda de 9,7% do PIB no segundo trimestre continua a provocar grandes polêmicas. O sinistro da economia Paulo Guedes permanece na berlinda e precisando dar explicações. Precisa também encontrar soluções que melhorem o panorama para a reeleição do presidente. Como parte deste esforço foi apresentada a reforma da administração e prometida a recuperação em V, segundo ele, já iniciada. Foi anunciado o programa “Renda Brasil” para substituir o Bolsa Família e a extensão do auxílio emergencial até dezembro, mas com o valor reduzido para R$300.

No entanto, as coisas não andam bem. Continuam os atritos dentro do governo como o choque com Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional que deseja verbas para obras pensando também nos seus interesses eleitorais.  Além disso, paira sobre todos a lei do teto dos gastos que o Guedes quer manter a todo custo e que não previu a pandemia da covid-19 e as despesas decorrentes dela que agravaram o orçamento e aumentaram o déficit, para desgosto do ministro. Paulo Guedes está desesperado. Como atingir o equilíbrio fiscal, coisa que, segundo sua crença ideológica, está no centro de sua política econômica?

Bolsonaro está nervoso e pressiona pelo lançamento do Renda Brasil, mas o Guedes não sabe de onde tirar o dinheiro. Na sua lógica de defensor do capital financeiro ele só pensa em tirar dos pobres e aposentados. Bolsonaro não concordou e declarou irritado que não vai tirar dos pobres para favorecer os miseráveis.

A tensão geral manifestou-se também na última sessão dirigida pelo presidente do STF o ministro Toffoli. Críticas sutis ao presidente foram feitas pelos ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Edson Fachin. Bolsonaro retrucou afirmando estar ali por ter sido eleito e os ministros indicados.

Do lado da economia a notícia preocupante foi o aumento da inflação nos produtos alimentícios que se repercutiu na cesta básica. O grande vilão foi o arroz. O governo intimou os supermercados a reduzirem os lucros provocando a reação das entidades representativas que não pretendem sair como os culpados no caso.

Da prometida recuperação em V feita pelo Guedes apenas o comércio deu sinais positivos. Com o empurrão do auxílio emergencial o varejo teve alta forte em julho. O varejo restrito cresceu 5,2% e o varejo ampliado, 7,2%. Esta recuperação não foi sentida nos supermercados pois a injeção do auxílio emergencial conseguiu manter a demanda elevada. A indústria apenas em 4 estados recuperou as perdas da crise. 12 dos 15 estados pesquisados apresentaram crescimento na produção, mas, segundo o Iedi, este crescimento não é consistente e “o Brasil ainda vai ficar todo o ano de 2020 sem um crescimento consistente na indústria”.

Nenhum grande impulso externo deve ser esperado. A recuperação mundial também se arrasta, é instável e desigual. Nos EUA o processo é mais lento que se estimava.  A União Europeia encontra grandes dificuldades e o crescimento previsto para a China deve ficar nos 2,3% este ano. Para a América Latina e Caribe o Banco de Desenvolvimento para a América Latina (CAF) prevê que a renda per capita só volta a crescer em 5 anos. Em 2020 a contração será de 9% e a retomada será lenta. Teremos uma década perdida. Só o setor de turismo perderá US$5,5 trilhões e 12,4 milhões de empregos.

No congresso, os partidos de oposição não dão trégua. Uma solicitação do PT obrigou o setor econômico a explicar a razão da taxação de 12% para o novo imposto a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) que substituirá o PIS e a Cofins. A solicitação foi respondida pela Secretaria da Receita Federal em nota com argumentação primária. Não apresentaram justificação e admitiram a possibilidade de reduzir. Apenas garantiram que não haveria aumento da carga fiscal. Neste tema enfrentam críticas dos setores de Educação, Saúde e Transportes. Ficam claras as deficiências da “equipe dos pesadelos” comandada pelo sinistro Guedes. Mas, com a economia estagnada como fica a reeleição?


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Daniella Alves, Guilherme de Paula, Ingrid Trindade, Matheus Quaresma e Monik H. Pinto.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A nova recuperação em V

Semana de 31 de agosto a 06 de setembro de 2020

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

 

Na semana passada comentamos a trágica queda de 9,7% do PIB no segundo trimestre. Foi um desastre geral. A economia foi toda abaixo. Já estamos no último mês do terceiro trimestre que se encerra no final de setembro. Provavelmente não assistiremos à repetição do mesmo desastre. Pode até haver crescimento. A mediana das previsões dos analistas é de 5% de crescimento. Afinal não temos muito mais para cair. Com o levantamento da quarentena passo a passo as atividades econômicas vão sendo retomadas embora com um certo grau de irresponsabilidade. Vivemos sob a ameaça da segunda onda da covid-19. Com a condução desastrosa de um presidente sem moral e sem princípios que explora a ignorância e os sentimentos mais primitivos da população a irresponsabilidade tem se generalizado. Em 14 dias já saberemos as consequências.

Diante do resultado desastroso o super sinistro da economia Paulo Guedes foi obrigado a inventar desculpas. A primeira delas foi afirmar que o mau resultado representava o passado, mas que o futuro era brilhante e a recuperação em marcha seria em V. Já falamos destas letras em Análises anteriores. Os economistas falam em recuperação em V, U, W, L e já houve quem propusesse a recuperação “serrote”, com a forma dos dentes de uma serra. Os dados mostram que o pior já passou, mas infelizmente a recuperação começou muito lentamente e com muita sorte terá a forma de U. Que o sinistro Guedes é um mentiroso não é mais novidade. Aliás parece que este atributo pertence a todos os ministros de pastas econômicas. É resultado das ideologias econômicas que eles praticam. Eles pensam que economistas enganam capitalistas e com isto podem criar boas expectativas que os levam a investir. Segundo Guedes a economia do país estava crescendo no primeiro trimestre. Os dados de 2019 mostram os seguintes resultados por trimestres: 0,6%, 0,5%, 0,1%. Nos 3 primeiros a economia está encolhendo. No quarto trimestre o crescimento foi de 0,5%, houve crescimento. Em 2020, no entanto, o resultado foi -2,5% no primeiro trimestre e agora -9,7% no segundo. No conjunto temos decrescimento geral. Guedes está mentindo e a culpa não foi do Coronavirus, mas da política econômica por ele praticada.

Obrigado a apresentar qualquer coisa, Guedes além de prometer recuperação em V, sob pressão, apresentou o projeto de reforma administrativa que já está provocando a maior celeuma por não tocar nas categorias de elite e membros do Judiciário, Legislativo, Ministério Público e Forças Armadas. Concordou também com a promessa de extensão do auxílio emergencial até dezembro, mas reduzindo o valor para R$300,00. Mas, nada disso pode fazer milagre. A economia segue seu curso e as estimativas para o PIB do ano variam entre -4,5% e -7,3%. Para o IBGE a previsão é de queda de -6,1%, a maior queda em 120 anos.

Há outros dados preocupantes. Entre janeiro e agosto as importações caíram 12,3% e as exportações, 6,6%. As grandes montadoras continuam com as medidas de suspensão de contratos, redução das jornadas, demissões voluntárias e não pensam em empregar novos trabalhadores. A capacidade ociosa permanece elevada. Enquanto isso a Covid-19 continua a sua atividade de ceifar vidas e o número de mortos já ultrapassa os 125.000, número um pouco maior que os 800 previstos pelo presidente com a sua “gripezinha”. Não satisfeito Bolsonaro agora prega a liberdade dos brasileiros de não tomar a vacina que está sendo produzida. Não é por acaso que uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostrou que o número de afetados pela Covid-19 é maior nos municípios onde Bolsonaro foi o mais votado no primeiro turno das eleições.

Encerrando a semana o Banco Central (BC) lançou a nova nota de R$200,00 com a figura do lobo guará, e o governo propõe a extensão por mais 6 meses, em 2021, da desoneração da folha de pagamento das empresas.

Apesar de todo este caos Bolsonaro continua a contar com o apoio de sua tropa de fanáticos, mas também do sistema financeiro, dos capitalistas e do agronegócio, além do centrão. Até no PSDB há apoios. Em um seminário deste partido, FHC lamentou que parte do partido namora com o Bolsonaro, daí a dificuldade de haver uma oposição consequente. Juntando a isto a desunião da esquerda corremos o risco de uma reeleição do monstro. O resultado das eleições municipais será um ótimo indicador. Aguardemos.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Daniella Alves, Ingrid Trindade, Matheus Quaresma e Monik H. Pinto.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O PIB da pandemia

Semana de 24 a 30 de agosto de 2020

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Saiu o resultado do PIB brasileiro dos meses de abril a junho de 2020. Nesse período, a pandemia já estava de vento em popa aqui no país (a nossa quarentena começou em meados de março). Em 1º de abril, a média diária de novos casos no Brasil era de 630, enquanto o número de mortos diários ficou em 26. No dia 30 de junho, na média diária, estavam morrendo 993 e se contaminando 36.591 pessoas. Este foi o período de maior crescimento nos números da Covid-19 no Brasil, até chegar ao auge em meados de julho.

Não que os dados de hoje tenham melhorado significativamente. Diariamente, o número médio de novos casos oscila entre 35 e 40 mil. As mortes só reduziram, de fato, agora no fim de agosto, mas a média continua acima dos 850 óbitos diários. Apesar disso, e de ainda termos um não-Ministro na pasta da Saúde, o Brasil sobe ao “pódio dos imbecis” de “um dos países com maior número de curados”. Claro, além da existência do SUS, isto se deve ao fato de que somos “um dos países com maior número de contaminados”, com mais de 3,9 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus (2º lugar no ranque mundial).

Desenhado o cenário que contextualiza os dados, passemos aos números do PIB do Brasil no 2º trimestre de 2020. Como era de se esperar, as medidas de combate à pandemia trouxeram um forte efeito negativo sobre a atividade econômica, que apresentou os piores números desde quando começaram a ser calculados, em 1996.

Pelo lado da produção, dentre as 12 atividades que o IBGE classifica para acompanhar o PIB trimestral, apenas 3 apresentaram crescimento entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020: Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (+0,8%), Atividades Imobiliárias (+0,5%) e Agropecuária (+0,4%). Elas já haviam sido as únicas a crescer no primeiro trimestre em relação aos três últimos meses de 2019, mostrando uma bruta força econômica diante do maior desastre das últimas décadas. As três atividades que apresentaram maior queda foram: Outras atividades de serviço (-19,8%), Transporte, armazenagem e correio (-19,3%) e Indústria de transformação (-17,5%). Pelo lado da demanda, apenas o comércio externo contribuiu positivamente para o PIB: as exportações cresceram 1,8% e as importações caíram 13,2%. Já os investimentos caíram 15,4%, o consumo das famílias 12,5% e o consumo do governo 8,8%.

No agregado, tudo isso resultou em uma redução total de 9,7% do PIB brasileiro nos meses de abril a junho de 2020, quando comparamos com aquilo que foi produzido pelo país entre janeiro e março do mesmo ano. É um valor ligeiramente pior do que a expectativa do mercado, que previa uma queda de 9,2%.

Este resultado da economia brasileira é semelhante ao observado nas economias dos EUA (-9,1%) e da Alemanha (-9,7%). A nossa é uma situação bem melhor do que a observada no Reino Unido (-20,4%), Espanha (-18,5%) e México (-17,1%). Porém, ainda estamos longe de Finlândia (-3,2%), Coreia do Sul (-3,3%) e Noruega (-5,1%). Os mais apressados logo perguntariam, “mas e a Suécia”? Não muito melhor do que nós. A tão badalada, pelos negacionistas brasileiros, teve uma redução de 8,8% em seu PIB no 2º trimestre. A China, que teve o auge da pandemia no primeiro trimestre, cresceu 11,5%.

Só o que nos resta aqui no Brasil é esperar que o veterinário indicado pelo não-Ministro da Saúde, com a missão de organizar uma futura vacinação das pessoas, consiga dar conta de imunizar o rebanho que aos poucos vai se soltando (com a flexibilização das medidas de isolamento social) e se juntando ao gado outrora fugido do lockdown. Isso tudo no meio de um platô, ou seja, numa fase onde os dados agregados de mortes e novas contaminações ainda estão em um patamar consideravelmente elevado.

Isso não deve trazer uma nova onda de contaminação ao país, pois nem saímos da primeira. Mas, a se manter a política adotada pelo governo, para as pessoas que serão obrigados a voltar ao novo-velho-normal, isso não resultará em dias melhores.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Matheus Quaresma, Monik H. Pinto e Guilherme de Paula.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A economia e a Covid-19

Semana de 24 a 30 de agosto de 2020

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

 

Os nossos leitores já sabem que a atual crise não é a crise da Covid-19, mas uma nova manifestação da crise econômica que afeta todas as economias capitalistas a cada 10 anos, aproximadamente. Como estudiosos do assunto nós já havíamos previsto e vínhamos acompanhando sua gestação e amadurecimento desde meados do ano passado. A novidade desta manifestação atual é que a crise estava demorando a ser deflagrada. O processo se acelerou no final de 2019 e nossa economia começou a precipitar-se nele a partir de fevereiro, quando o Coronavirus ainda não estava por cá.

Para nossa infelicidade o vírus nos atingiu em março e o processo de crise se acelerou. Temos então uma crise econômica agravada pelo Coronavirus de tal modo que assumiu o nome da enfermidade: a crise do Coronavirus.

De fato, este é um fenômeno novo e o “wild card” nos modelos de análise de conjuntura, que se tornaram muito mais imprecisos. Como afirma a Organização Mundial do Comércio (OMC) “a natureza repentina e inesperada da crise do Covid-19 pode ter alterado profundamente o comportamento dos padrões econômicos”. A própria OMC sente grandes dificuldades em suas previsões sobre o comércio mundial. Não sabe se a recuperação do comércio mundial será em V, rápida e acelerada, ou em L, lenta, arrastada, refletindo a situação geral da economia.

Com efeito, a economia mundial mostra sinais contraditórios que obrigam os Bancos Centrais (BCs) a manter suas políticas de estímulos fiscais e monetários. Isto tem ocorrido com o Banco Central Europeu (BCE), com o Federal Reserve, BC dos EUA, com o BC inglês, que continuam a despejar dólares e euros nas economias e manter a política de subsídios aos trabalhadores. O BCE, por exemplo, preocupado com a lentidão da retomada sinaliza com mais estímulos além dos US$3 trilhões já gastos desde março. A economia da União Europeia (EU) contraiu-se 12,1% em 3 meses, até junho. Não há sinais de recuperação do emprego e a estagnação tem consequências para o comércio mundial e provocado conflitos como o conflito EUA x China. Por outro lado, surge a ameaça da segunda onda da Covid-19 que está obrigando à retomada das restrições ao contato social e a prorrogação dos subsídios aos desempregados. Há mesmo quem defenda que esta é a solução mais barata pois os trabalhadores conseguem consumir, pagam impostos e mantêm as empresas a produzir.

Com este panorama o BC no Brasil publicou o IBC-Br, indicador antecedente do PIB, que mostrou um crescimento em junho, em relação a maio, de 4,89%. Com isto reviram a queda no ano para -5%. Na direção contrária a Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgou seu Monitor do PIB apontando uma queda recorde de -8,7% no segundo trimestre apesar do crescimento de 4,2%, em junho, sobre maio. O economista Cláudio Considera vê uma recuperação, mas, muito lenta. O dado preocupante continua a ser o desemprego que subiu de 12,4% para 13,1% em julho totalizando 12,3 milhões de pessoas. Em sentido contrário a arrecadação federal caiu 17,7% sendo o pior julho em 11 anos.

Apesar destes dados não muito animadores e do número de mortos pela pandemia, que já ultrapassa os 110.000 em 5 meses, uma pesquisa do Datafolha mostrou uma recuperação da imagem do governo na população, entre junho e 15 de agosto. A aprovação do governo que era de 32% subiu para 37% e a reprovação que era de 44% caiu para 34%. Os analistas atribuem esta recuperação aos auxílios emergenciais que beneficiam milhões de trabalhadores. Preocupado com a reeleição o governo passou a apostar todas as suas fichas nos auxílios que contribuem para aumentar o déficit orçamentário. Criou-se um choque com a equipe econômica e particularmente com o sinistro da economia Paulo Guedes. A disputa por verbas no orçamento aumentou e grandes manobras são preparadas para não estourar o teto dos gastos. Guedes tenta desesperadamente abraçar o Pró-Brasil e o Renda Brasil alterando o conteúdo e as verbas. Não se pensa nos interesses do país. Bolsonaro quer votos e Guedes quer o teto. E o povo aguarda passivo o resultado desta queda de braços.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula, Matheus Quaresma e Monik H. Pinto

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