quinta-feira, 29 de junho de 2023

Como a economia poderia ir melhor?

Semana de 19 a 25 de junho de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Nas duas últimas semanas fizemos uma análise da economia brasileira com base naquilo que o “economês” chama de ciclos econômicos: a alternância de fases de forte e fraco crescimento das economias capitalistas. Complementando, aqui vamos olhar para outra dimensão do problema: a nossa estrutura produtiva muito dependente de um setor.

Como temos visto, o governo brasileiro vem se esforçando para dar andamento a um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Tido como muito importante para nós, os latino-americanos, este acordo busca apenas dar novos ares a uma situação que já é ruim para o Brasil. Entre janeiro e maio de 2011, 38,8% do total das exportações brasileiras para a UE foram de produtos não industrializados. Já nos primeiros meses de 2023, esse percentual subiu para 47,7%, tendo passado pelo pico de 51,5% em 2021. Pelas pretensões do acordo, serão criadas melhores condições para a exportação de produtos primários do Brasil e importação de manufaturados vindos da Europa. Isto não é novidade na história do país, que sempre teve uma economia fortemente baseada na venda de insumos minerais e agropecuários para o mundo. Hoje não é muito diferente.

O Índice de Produção Agroindustrial (PIMAgro), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apresentou crescimento em cinco dos seis meses, entre outubro de 2022 e março de 2023. Subdividido em dois componentes, um deles foi muito bem e o outro muito mal no período. Para os produtos agroindustriais não alimentícios (atividades agrícola e de beneficiamento de produtos agrícolas, como os têxteis, por exemplo), nesses seis meses citados, o índice só apresentou crescimento em março de 2023. Já o índice de alimentos e bebidas só não cresceu em fevereiro de 2023. Para reforçar a importância do setor, pesquisadores da FGV estimaram que mais de 30% do crescimento do PIB do primeiro trimestre de 2023 veio da agropecuária. Para todo o ano de 2023, a estimativa é que o cultivo de soja (excluindo o beneficiamento) contribua com mais de 20% do crescimento total do PIB brasileiro. Apenas entre janeiro e abril de 2023, o setor foi responsável pela contratação de mais de 41 mil pessoas.

Este setor claramente é muito importante para a economia brasileira. Porém, a questão que se deve levantar é: por que dependemos tanto dele? Por que insistir em acordos e medidas que não contemplam uma diversificação da nossa economia?

Naturalmente, dado seu poder econômico, um dos motivos é o fato de que os interesses do agronegócio são muito bem acolhidos pela superestrutura política, em especial a bancada do boi na Câmara e no Senado. A diversidade de seus defensores é tanta que bolsonaristas e até petistas compõem a Frente Parlamentar da Agropecuária. Além disso, é claro que o Poder Executivo também atende os desejos do agro.

O que o Brasil precisa, para além disso, é diversificar o número de setores que participam ativamente no nosso crescimento. Desde o começo do atual século XXI, diversos são os estudos que demonstram como a indústria instalada no nosso território (seja nacional ou multinacional) perdeu espaço na dinamização da atividade econômica em geral. A literatura chama este fenômeno de desindustrialização e ele é observado em vários países mundo afora. Porém, o caso brasileiro é tipificado como uma desindustrialização negativa, pois é precoce e não há uma compensação da redução da produção industrial em outros setores, como nos serviços intensivos em tecnologia, ou via investimento estrangeiro direto, que garantiria o aumento da renda nacional para além do que é produzido internamente.

Não são poucos os argumentos para defender uma possível industrialização brasileira, pois este é o setor mais dinâmico e com maior potencial de influenciar o restante da economia, seja como demandante e ofertante de mercadorias, seja como propagador de tecnologia e inovação. A fórmula é velha e parece ultrapassada, pois esses também eram os anseios de grande parte dos economistas preocupados com o atraso brasileiro no século passado. Porém, se ainda não superamos a nossa dependência e nosso presente ainda se assemelha ao passado, o que é velho, na verdade, se torna ainda mais urgente no tempo.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Helen Tomaz, Raquel Lima, Letícia Rocha, Miró Miranda e Thomaz Cisneros.

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quinta-feira, 22 de junho de 2023

Um bando de fanáticos

Semana 12 a 18 de junho de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Na Análise passada o Professor Lucas Milanez deu uma oportuna lição sobre o desenvolvimento capitalista que se dá por ciclos de crescimento e desaceleração. Este movimento é afetado pela política econômica, que pode deformá-lo acelerando cada fase ou retardando e mesmo alterando sua intensidade. Não pode, entretanto, abolir o movimento. Nossas Análises baseiam-se nesta teoria e é por isto que, apesar de desejar muito o sucesso do governo, não podemos fugir da realidade. O que ocorreu é que o longo período de desaceleração que atravessamos, agravado pela política econômica do governo passado, causou uma grande destruição na economia o que sempre acontece e é uma característica das fases de crise e depressão. Este é o legado maldito deixado pela incompetência do desgoverno Bolsonaro. Pior do que isto foi o desmantelo do aparelho de Estado, o instrumento para se fazer política econômica. Infelizmente somos obrigados a passar por uma fase de reestruturação do Estado para poder cuidar da economia e do país. É um precioso tempo perdido, mas necessário. 

No entanto, a destruição causada pelo tsunami Bolsonaro tem seu lado positivo. Permite uma política econômica capaz de produzir resultados de recuperação mais rápidos. No entanto, o consumo das famílias, embora esteja sendo estimulado, levará algum tempo para crescer diante da situação de endividamento dos consumidores. O programa “Desenrola” será muito útil para melhorar este quadro. A retomada das obras do Estado também será outra fonte de estímulos. Igual contribuição virá da queda da inflação, do aumento do salário-mínimo e do Bolsa Família. Mais lenta será a contribuição do investimento privado. Isto só ocorrerá quando os estímulos ao consumo tiverem cumprido sua função. Apesar de tudo isto a Fundação Getúlio Vargas (FGV) estima que o crescimento do consumo das famílias será de apenas 0,5% neste ano. Evidentemente, seria de grande ajuda um aumento da oferta de crédito.

É neste terreno do crédito que teremos de enfrentar as maiores dificuldades. Enquanto escrevemos estas linhas foi divulgado o resultado da reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central (BC). A decisão sobre a taxa de juros Selic foi a esperada:  manutenção dos atuais 13,75%, a mais alta taxa de juros do mundo. Muita razão tem o jornalista Reinaldo Azevedo quando em seu programa o “É da coisa” afirmou que a diretoria do BC é “Um bando de fanáticos endossados por outros idiotas que perderam o discurso e agora não sabem o que falar”. Como já afirmamos em outas análises, o presidente do BC, Bob Fields Neto, continua servindo aos seus senhores e remando contra as intenções do governo e contra o crescimento do país. Foi para isto que o Senado aprovou a “independência do BC”. É preciso garantir a maior lucratividade para os especuladores financeiros. E o “bando de fanáticos” segue em frente não ouvindo os clamores das maiores autoridades do país nem as opiniões de representantes ilustres do setor produtivo como a carta aberta assinada por 51 membros do Conselho de Desenvolvimento Sustentável, ligado à presidência da República, entre os quais estão Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Josué Gomes, presidente da Fiesp.

Em relação à indústria a situação também não é das melhores. Em abril, em relação a março, a indústria teve uma contração de -0,6% segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM Regional), feita pelo IBGE. 10 dos 15 locais pesquisados seguiram a média nacional de queda. Dos 25 ramos pesquisados 16 tiveram recuo.

Enquanto isso a situação internacional continua turbulenta. O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) prevê “um pouso suave” para as economias dos EUA e a economia global. Na zona do euro o crescimento seria 0,6%. A China vem adotando estímulos para conter a desaceleração em curso. As taxas de   juros continuam a crescer, as dívidas dos países a aumentar, mas os apelos pela guerra e gastos militares se mantêm. Eis o que temos a destacar na semana que findou. É preocupante!


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Tomás Cisneiros, Gustavo Figueiredo, Lucas Santos, Valentine de Moura e Miró Miranda.

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sexta-feira, 16 de junho de 2023

Por que a economia brasileira vai bem?

Semana de 05 a 11 de junho de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Nas últimas semanas as notícias dão conta de uma melhora “surpreendente” nos dados sobre a economia brasileira. Como já foi dito em análises passadas, este comportamento era esperado. O motivo, tento explicar, brevemente, a seguir.

Como principal pilar das nossas análises de conjuntura, admitimos que as economias capitalistas se desenvolvem através de movimentos alternados de maior e menor intensidade de crescimento. Em outras palavras, o crescimento econômico passa por uma espécie de montanha russa, hora subindo, hora descendo.

Isso não é mera opinião. Na realidade, há vários economistas, de diferentes vertentes, que comprovaram estatisticamente a existência desse movimento repetitivo, que ocorre desde o começo do século XIX. A regularidade e periodicidade das oscilações é tal que o fenômeno ganhou até um nome: ciclo econômico.

Basicamente, o ciclo econômico é composto por quatro fases distintas, que se repetem de forma sequencial: 1) crise, quando o crescimento econômico começa a desacelerar de forma generalizada e consistente; 2) depressão (ou fundo do poço), quando o crescimento atinge o patamar mais baixo (em alguns casos há um decrescimento da economia) e há um processo generalizado de destruição de capitais (falências, fechamento de fábricas, aumento do desemprego, etc.); 3) reanimação, quando a economia volta a crescer, pois os capitais sobreviventes se reacomodam e se expandem nos espaços deixados no mercado; e 4) auge, quando o crescimento atinge o ponto máximo, devido à euforia com os ganhos de renda e aos altos investimentos. Depois disso, ocorre uma nova crise. Dentre outros fatores, a desaceleração chega como resultado do potencial produtivo excessivo criado com a retomada da economia.

Por trás desse movimento estão alguns elementos: o caráter sempre expansivo da produção; a concentração da renda nas mãos de uma parcela cada vez menor da população; o aumento da exclusão social; a falta de planejamento da produção a partir das necessidades socialmente estabelecidas (anarquia nas decisões de produção); dentre outros. Como essas são características que não podem ser eliminadas do capitalismo, o ciclo econômico se torna, ele próprio, uma caraterística desse sistema.

Pois bem, no fim dos anos 2000, o mundo foi atingido pela famosa “Crise do Subprime”. Quase todas as economias nacionais de relevância passaram por maus bocados, sendo que algumas delas apresentaram decrescimento entre um ano e outro (entre 2007, 2008 ou 2009). Pelas estatísticas, o Brasil só veio sentir essa crise no ano de 2009, quando nossa economia decresceu 0,1%. Nesse período, todos os governos de todos os países adotaram medidas de redução de danos, incluindo o Brasil.

No resto do mundo, a fase de reanimação se iniciou em meados dos anos 2010, mesmo com taxas de crescimento menores do que as da década anterior. O auge do crescimento mundial se deu entre 2018 e 2019. Por sua vez, em 2020 chegou a Pandemia de Covid-19 e o ciclo foi “deformado”, com a crise voltando apenas em 2022.

Porém, no Brasil foi diferente. Em 2014 entramos em um fundo do poço quase sem fim, do qual só saímos em 2017. Mesmo assim nossa reanimação foi muito fraca, com crescimento máximo de 2%. Na Pandemia, também passamos por uma “deformação” no ciclo. Mas em 2021 não crescemos tanto quanto os principais países do mundo. Ou seja, desde 2014 a economia brasileira vem “andando de lado”, seja por questões externas, seja por questões internas.

O fato é que os governos desde Michel Temer, passando pela dupla Bolsonaro-Paulo Guedes, vêm sufocando a atividade econômica com políticas restritivas. O que estamos vendo agora (e ainda mal) é apenas uma folga na corda no pescoço dos brasileiros, mesmo com os cabrestos do Congresso e do Banco Central. Ou seja, o que o governo Lula está fazendo é pouco mais que o mínimo necessário para dar dignidade ao brasileiro que tem sofrido há quase 10 anos com políticas neoliberais arcaicas. Resta saber se nessa queda de braço o presidente sairá vencedor.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Lucas Tiago, Letícia de Almeida, Helen Thomaz, Valentine de Moura e Guilherme de Paula.

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sexta-feira, 9 de junho de 2023

Contra todos os prognósticos a economia cresce

Semana 29 de maio a 04 de junho de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

Já falamos que a situação atual se caracteriza por uma “polycrisis” e esta continua a se agravar. A globalização ainda está em desagregação e o rearranjo das cadeias produtivas enfrenta o dilema de escolher entre “nearshoring”, “friendshoring”, “re-shoring” etc. A questão divide-se entre a economia, a política, a geoestratégia, a desagregação das alianças e formação de novas parcerias. A nível da guerra tudo continua com os generais da OTAN, cada vez mais histéricos e dispostos a lutar até o último ucraniano e, possivelmente, depois destes, até o último mercenário. Na Ucrânia, convencidos de que não conseguirão derrotar a Rússia, parte-se para a sabotagem, os atos de terrorismo como a explosão dos gasodutos Nord-stream, da represa que inundou parte do sudeste do país, o envio de mísseis ou drones sobre o território da Rússia, ou mesmo pequenas incursões nas regiões de fronteira. Nesta área só podemos esperar o agravamento.

Por outro lado, a proximidade entre Rússia e China se fortalece, bem como os BRICS, a colaboração Sul-Sul, com o avanço da influência chinesa nos países do Pacífico e da América Latina. Com a ameaça de crise nas economias da União Europeia (UE) e dos EUA, a situação do chamado “mundo livre ocidental” não parece muito confortável, o que torna os generais ainda mais agressivos. O panorama internacional não deve ser muito favorável nos próximos tempos.

 Para o atual governo, navegar neste mar revolto não é muito agradável. O presidente tem dispendido muitas energias tentando recuperar o espaço que o país havia conquistado e vem obtendo algum sucesso, apesar de ter enfrentado difíceis situações. Todos os grandes querem empurrar o país para os compromissos com a guerra. O governo encontrou uma saída fortalecendo a aproximação com Índia, China, África do Sul, Indonésia e outros que assumem uma posição de neutralidade.

O lado negativo é que enquanto gasta energias no exterior, as ratazanas internas saem dos esgotos para criar dificuldades aos projetos do governo. Já dissemos que a “oposição” não tem nenhuma proposta ou projeto alternativo. Sua única função é criar dificuldades, atrapalhar, criar ruídos, na tentativa de impedir o governo de governar, ajudados por alguns aliados e mesmo por membros do PT. Parece que parte da grande frente que ajudou a derrubar o Bolsonaro não se deu conta de que a situação hoje é diferente e que uma batalha maior está sendo travada. Os golpistas não estão totalmente derrotados. Cada investigação feita descobre mais sujeira debaixo do tapete e ainda há bolsominions que acreditam em alguma virada e seguem conspirando com a esperança de que os americanos mudem de estratégia, o que pode de fato ocorrer. A independência do Lula no panorama externo pode irritá-los, a ponto de promover esta virada. São atrevidas as posições, não só em relação à guerra, mas no campo econômico, com a tentativa de derrubar o dólar e a criação de canais de comércio internacional independentes.

Apesar de todas as dificuldades a economia interna está finalmente reagindo. Todo o derrame de recursos para estimular o consumo afinal funcionou. Contrariando os prognósticos de todas as carpideiras do velório anunciado, o IBGE divulgou as estatísticas. O Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de toda a riqueza produzida no país, no primeiro trimestre cresceu 1,9% em relação ao trimestre anterior. É o maior crescimento em um trimestre nos últimos 15 anos. Este dado, se anualizado, corresponderia a um crescimento de 4%. Toda a cantilena do caos que a vitória de Lula representaria foi inútil. O esforço da política econômica distributiva deu resultado. Certo que o clima e o mercado internacional colaboraram pois o agro foi o grande responsável pelo crescimento, colaborando com 21,6% de crescimento para o resultado. A indústria decresceu apenas 0,1% e os serviços cresceram 0,6%. O ponto mais lamentável foi a queda de 3,4% nos investimentos. Agora correm as bruxas carpideiras para reestimar seus prognósticos torcendo para que haja uma queda na economia que os salvem, contando com a colaboração do Banco Central que, com sua taxa de juros de 13,75%, rema furiosamente em sentido contrário querendo derrubar os salários e a economia, aumentando o desemprego.

Força Roberto Campos Neto! Até quando?


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Helen Tomás, Tomás Cisneiros, Gustavo Figueiredo e Letícia de Almeida.

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quarta-feira, 31 de maio de 2023

Por que “neoindustrialização”?

Semana de 22 a 28 de maio de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

No último dia 25 de maio vimos algo que há tempos não acontecia: o presidente e o vice-presidente da República se juntando para defender o papel da indústria na dinamização da economia brasileira. Isto foi feito em um artigo de opinião assinado por Lula e Alckmin no jornal “O Estado de São Paulo”.

Dentre outras coisas que chamaram a atenção, destaca-se o termo oficialmente adotado: “neoindustrialização”. Não tardou para muitos “analistas do mercado” criticarem e desqualificarem as ideias. Para eles não há nada de “neo”, mas apenas a velha e indevida (na opinião deles) tentativa de se reeditar a industrialização do passado. Será?

Uma das características fundamentais da organização industrial no século XX, quando o Brasil se industrializou, era que a instalação de grandes empresas atraía para seu entorno um conjunto complexo de fornecedores e clientes. Assim, a produção industrial tendia a gerar um forte crescimento integrado e ramificado, trazendo o “progresso” para determinadas regiões.

Por sua vez, ao se expandirem para outros países, as empresas multinacionais reproduziam um mesmo padrão de organização, onde prevalecia essa integração da produção, a priorização do mercado local como destino dos produtos e, por isso, a adaptação aos fornecedores e às necessidades de cada localidade onde se instalava. Este padrão ficou conhecido como indústria multidoméstica, onde as empresas se expandiam replicando em suas filiais a essência das estratégias originadas nas matrizes.

Outro elemento que vai diferenciar a velha e a nova industrialização é o paradigma tecnológico dominante em dado momento histórico. No século passado, as empresas que dominavam as tecnologias metal-mecânica-química eram aquelas com maiores vantagens sobre as demais. O motivo é que as forças produtivas mais avançadas e lucrativas estavam baseadas nessas tecnologias.

Nesse contexto, para que a industrialização pudesse ocorrer por aqui, o Brasil precisava criar as condições para a instalação de empresas nacionais e multinacionais. Ou seja, era preciso extrair e beneficiar matérias-primas minerais, produzir energia, desenvolver infraestrutura, etc. Por falta e (muitas vezes) desinteresse do capital privado, o Estado assumiu o papel de investidor direto e provedor de grande parte desses recursos. Ao mesmo tempo, o setor público atuou como coordenador (via planos e projetos) e financiador (via bancos públicos) dos investimentos.

A questão é que nem o padrão de organização industrial dominante e nem o paradigma tecnológico são mais os mesmos, desde a década de 1970. A indústria multidoméstica foi substituída pelo padrão baseado em cadeias globais de valor (CGV). Por sua vez, possibilitando o surgimento deste padrão e se desenvolvendo junto com ele está o paradigma das tecnologias da informação e comunicação (TIC).

Como sabemos, o Brasil adentrou de maneira passiva e superficial nesta nova fase da industrialização, na medida em que nossa adaptação às CGV foi liderada pelas empresas estrangeiras e nossa inserção se deu como fornecedores de produtos primários. Além disso, também não internalizamos a produção e desenvolvimento de produtos ligados às TIC. Uma das causas disto é que, desde os anos 1990, os grupos que comandaram o Estado brasileiro não viam na indústria um setor chave para a economia. Por isso, não fizeram políticas efetivas em prol de um amplo desenvolvimento industrial.

Para piorar, como a economia é dinâmica, há cada vez mais indícios do surgimento de uma reconfiguração nas cadeias de valor, fenômeno que vem sendo chamado de “nearshoring”, “friendshoring” e “re-shoring”. Por outro lado, as questões climáticas têm imposto uma agenda que pode levar a um novo paradigma tecnológico, o da “economia verde”.

Longe de ser a reprodução do passado, a “neoindustrialização” é necessária para alcançarmos os atuais padrões produtivos internacionais e estarmos preparados para os próximos. Para isso, o Estado deve atuar de forma direta, seja investindo, coordenando ou financiando novas atividades. Resta saber se a burguesia brasileira vai ter interesse nesse projeto, afinal, vivemos no capitalismo e ela é quem vai ser a grande beneficiada.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Miró Tosaka, Valentine Moura, Thomaz Cisneros, Lucas Santos e Gustavo Figueiredo.

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quinta-feira, 25 de maio de 2023

Remando contra a maré

Semana 15 a 21 de maio de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A situação internacional continua a agravar-se. Nos Estados Unidos já foi criada uma nova expressão, “Polycrisis”, para designar o atual quadro. Não temos só uma crise, temos um conjunto delas que se expandem em vários terrenos. São referidas as crises na saúde (a pandemia), a desestruturação das cadeias produtivas globais, as tensões geopolíticas que levaram à guerra, as disrupções tecnológicas, a crise financeira etc. Já temos falado sobre isto, e como este conjunto de fenômenos dificulta a análise da evolução do ciclo mundial. Torna-se cada vez mais uma opinião consensual a aproximação de uma grande crise internacional e os economistas avaliam em 65% a probabilidade de ela ocorrer. A inflação resiste em ceder apesar de todos os Bancos Centrais (BCs) continuarem a subir os juros de referência, mesmo nos EUA onde a situação, para espanto geral, é ainda mais grave, diante da possibilidade de ser decretado um calote na dívida pública. Em 19 de janeiro o governo atingiu o teto do endividamento permitido, que é de US$32,4 trilhões. O escândalo ainda não estourou porque o Federal Reserve (Fed), BC americano, vem realizando uma série de manobras contábeis para esconder o fato. Os republicanos, que têm maioria no Congresso, não querem aprovar um aumento do teto e propõem uma redução das despesas com exceção das militares. O impasse está criado e tende a agravar-se.

A ação dos bancos centrais perdeu a sua eficácia. Todos sobem os juros, mas a inflação não cede, para surpresa e decepção geral. Afinal, a teoria não afirma que esta é a solução? A ideologia econômica professada por eles é tão fanática que não podem admitir que o problema está exatamente aí: a teoria está errada. Tenta-se desenvolver novas explicações. A mais usada no momento é a de que se passou ao estado de “dominância fiscal”. Isto ocorre quando a situação é tal que a política monetária, instrumento principal dos BCs, perde a eficácia diante da política fiscal. Vários seminários têm sido realizados para discutir o assunto como o promovido na sexta-feira passada (9) em São Paulo, com a participação de ilustres personalidades como Pedro Malan, Pérsio Arida, Roberto Campos Neto (presidente do BC), Roberto Setúbal (Itaú), Octavio Lazari Jr (Bradesco), Gabriel Galípolo etc., além de figuras internacionais como Agustin Carsters, dirigente do Banco de Compensações Internacionais BIS, Tiff Macklem, presidente do Bank of Canada etc. Após muitos debates, apenas concluíram que a política monetária está perdendo sua eficácia. Pressionado por alguns participantes Campos Neto, depois de reconhecer que a economia e o mercado de trabalho não desaceleram e que a inflação demora a cair desculpou-se afirmando que a política de juros altos não é sabotagem ou capricho do BC.

Em outra conferência promovida pelo Federal Reserve de Atlanta nos EUA, o presidente regional Raphael Bostic reconheceu que os EUA atravessam um período de incerteza justificando com os mesmos argumentos que caracterizam a “Polycrisis”. Apesar disto afirmou que o Fed não pretende reduzir os juros. Janet Yellen, secretária do tesouro dos EUA, afirmou que “o tempo está se esgotando para evitar a catástrofe”. A difícil situação dos EUA já está provocando o abandono do dólar nas relações comerciais internacionais e a substituição da moeda americana, como lastro, pelos BCs de todo o mundo. O dólar representava 71% das reservas mundiais de todos os BCs, em 1999. Hoje ele representa apenas 58%, sendo substituído pelo Renmimbi (chinês) 25% e o Euro 20,5%. Esta situação tende a se agravar diante das ações dos BRICS e do Banco dos BRICS. Justas são as propostas do governo Lula sobre o tema.

Mas a situação internacional degrada-se em outras regiões do mundo. O tão esperado crescimento da China vem perdendo força e a locomotiva da União Europeia, a indústria da Alemanha, também desacelerou.

Nesta atmosfera pesada, difícil é a missão do governo de promover o desenvolvimento do país, além de defender a democracia, tendo ainda de enfrentar sabotagens de todo tipo vindas de um congresso reacionário, uma burguesia atrasada, uma imprensa vendida e um bando de loucos terroristas.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura e Lucas Tiago de Santos.

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quinta-feira, 18 de maio de 2023

O lugar da ciência econômica na luta de classes

Semana de 08 a 14 de maio de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Com outras palavras, um velho barbudo que vivera no Século XIX disse que a luta de classes se dá em três níveis distintos: o econômico, o político e o ideológico. Cada um dos níveis tem suas peculiaridades, sendo que um deles é a base dos demais.

Antes de mais nada, uma classe é definida como um agrupamento de pessoas que se assemelham entre si pelos seguintes fatores: posição que ocupa na organização do trabalho em um dado sistema produtivo historicamente determinado; propriedade (ou não) dos meios de produção; grandeza e modo como se apropriam da riqueza social.

Como o leitor pode deduzir, isso está diretamente associado às condições de produção e de apropriação da riqueza em determinado momento histórico. Assim, essa classificação é de ordem econômica e estabelece a divisão fundamental entre as classes sociais. No capitalismo, a mais famosa divisão é entre capitalistas e trabalhadores, sendo que a disputa entre eles pela apropriação da riqueza é a luta de classes em nível econômico. Através dos sindicatos (patronais e laborais), esta luta existe porque cada grupo busca aumentar sua fatia da riqueza social.

Dentro dessas “grandes classes” há diversas subdivisões. Banqueiros, por exemplo, se diferenciam dos Comerciantes e dos Industriais pela forma como contribuem para o funcionamento do capitalismo e, por isso, se apropriam da riqueza de forma diferente. Mesmo dentre os Industriais há as mais diversas atividades, com suas características próprias. Isto significa que, frequentemente, há conflitos entre as frações da mesma classe social na hora de se apropriarem de sua parte da riqueza. Por exemplo, quanto maiores os juros, maior a riqueza apropriada pelos banqueiros. Porém, menor é o lucro dos demais capitalistas que precisam de crédito para manter seus negócios.

Na política, a luta de classes se dá em outro nível. O elemento econômico é a base e dele surge a necessidade da disputa política. Na medida em que os integrantes de uma classe social (e suas frações) vão construindo sua consciência sobre si, as lutas individuais vão se tornando coletivas e se tornando lutas gerais da sociedade. Essas lutas são travadas tanto na estrutura que vai se institucionalizando (Estado, governo, partido etc.), quanto em outras ações coletivas organizadas (movimentos sociais, ONGs etc.). Como exemplo mais explícito da disputa institucionalizada temos a Lei da Usura, de 1933. Ela impôs o limite de 12% para a taxa de juros brasileira. Ela só caiu no início da década de 1990, quando a indústria perdeu o papel de principal setor da economia para os bancos e para o capital financeiro. Nessa linha, as reformas e leis recentes têm a mesma essência. Institucionalizadas através da política, elas garantem ganhos econômicos para a classe capitalista e/ou alguma(s) das suas frações: trabalhista, previdenciária, arcabouço fiscal, independência do banco central, marco do saneamento etc.

Em último nível, temos a luta de classes no âmbito ideológico. Aqui, a luta se dá no campo das ideias, através da construção do conjunto de crenças que formam a consciência dos indivíduos sobre cada classe, seja a sua ou as demais. Quando uma pessoa pertencente a uma classe se alinha ideologicamente a outra, a isto chamamos de alienação de classe (defender os interesses de uma classe, não faz uma pessoa pertencer a ela). Na prática, vários são os palcos dessa disputa: desde o cultural até o científico.

Pode não parecer, mas a ciência, sim, é um palco da luta de classes. Não é por acaso que o desenvolvimento de agrotóxicos e transgênicos é mais pesquisado do que a produção orgânica. Não é por acaso, também, que as teorias econômicas que norteiam as decisões do Banco Central são aquelas que se alinham aos interesses do mercado financeiro. Por mais que uma área do conhecimento, uma teoria ou um método de análise pareçam “neutros” e “técnicos”, a escolha do que será pesquisado ou considerado “adequado” resulta de decisões com fins econômicos bem delimitados. As teses desenvolvimentistas foram adequadas aos interesses dos industriais no século passado. O monetarismo de Chicago tem sido adequado ao setor financeiro desde os anos 1980.

A ciência econômica sempre teve a função de legitimar as medidas estatais que atendem os interesses de determinada classe social, dando-lhes a aparência de decisão puramente técnica. Além disso, por ser restrita a poucos conhecedores, a ciência econômica também serve para excluir as massas da luta pela apropriação da riqueza.

Como economista, tenho a obrigação de deixar isto claro.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Lucas Santos, Thomaz Cisneros, Letícia Rocha e Raquel Lima.

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