quarta-feira, 25 de outubro de 2023

A agressão do estado sionista de Israel

Semana 16 a 22 de outubro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Falamos na análise anterior da agressão do estado sionista de Israel ao povo palestino. Este é o mais importante acontecimento a nível internacional do momento. O caso é tão grave que a guerra da Ucrânia passou para o segundo plano. Talvez porque esta guerra já esteja perdida e a grande chance de o império ganhar alguma coisa é no mundo árabe. Há vários fatores que lhes são favoráveis.

Em primeiro lugar existe uma certa antipatia para com os movimentos árabes, diante das ações de fanatismo religioso que temos assistido, como os atentados realizados nos países europeus e as ações irracionais das tais brigadas islâmicas que investem contra obras de arte, reuniões civis, templos religiosos, pessoas etc. Todos ainda estão lembrados dos atos terroristas do Estado Islâmico e das execuções transmitidas ao vivo para todo o mundo, bem como da demolição de monumentos de grande valor histórico.

Por outro lado, todos também se lembram das perseguições que os judeus sofreram durante decênios e a maior delas, feita pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, conhecida como o holocausto, bem como dos terríveis sofrimentos praticados nos campos de concentração e extermínio, coisa que os judeus fazem questão de relembrar e não deixar esquecer. Junte-se a isto o poder econômico concentrado nas mãos dos judeus em todo o mundo, o que lhes dá uma grande capacidade de influir nas ações dos governos, na propaganda e na mídia.

 É preciso lembrar ainda a ideologia sionista que, explorando a religiosidade do povo judeu, há mais de um século une e mobiliza toda a etnia espalhada pelo mudo no ideal de construir uma pátria, um país judaico sob o seu controle total. Não é por acaso que, por razões religiosas, escolheram a Palestina como a “terra prometida”. Em torno deste objetivo, tudo se torna possível e permitido. Afinal, o “povo de Deus” deve ser conduzido de volta ao território onde habitou há séculos e de onde foi expulso.

Os atentados feitos pelo Hamas não passaram de um pretexto para a continuação, por meios mais eficientes e rápidos, do extermínio dos palestinos, tratados como animais. O Estado de Israel, não é mais do que um Estado sionista, fascista, racista cuja intenção é exterminar o povo palestino. E isto está ocorrendo com a colaboração dos Estados Unidos, apoiados pela culta União Europeia e com a conivência de vários países do mundo.

O pior é que, como dissemos na análise anterior, o primeiro abacaxi caiu no colo do Brasil, presidente atual do Conselho de Segurança da ONU. Apesar da habilidade da diplomacia brasileira de costurar uma resolução capaz de ser aprovada, nada foi conseguido. Os americanos, usando a sua costumeira truculência estúpida, e em apoio ao seu aliado Israel, usaram o seu direito de veto. Com apenas 1 voto contra, a resolução proposta foi bloqueada.

Estamos assistindo ao genocídio de uma população, pelo Estado sionista de Israel. Até parece que os sionistas aprenderam com os nazistas os métodos que foram utilizados contra eles. E, com exceção de alguns protestos de intelectuais e de manifestações em alguns países, o agressor, que há mais de 56 anos ocupa os territórios da Palestina, mesmo contra as decisões da ONU, encontrou o momento ideal para implementar seus projetos. Se nada for feito, Israel dominará totalmente a Palestina e a população árabe lá residente, será expulsa ou exterminada.

Quem, afinal, é o terrorista? O Hamas ou o Estado de Israel?

Estamos assistindo à agonia do império americano, mas o preço que a humanidade está pagando é muito alto. Esta nova guerra que, segundo os sionistas israelenses, será longa, trará novas perturbações à economia mundial e certamente nós, brasileiros, seremos envolvidos. Existe a possibilidade de a conflagração expandir-se para outros países, incluindo o Irã, único que tem condições militares de confrontar Israel. Convém lembrar que é nesta região que se encontra o maior núcleo produtor de petróleo do mundo.

Lamentavelmente, até agora, a barbárie está sendo vitoriosa.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Helen Tomaz, Letícia Rocha e Raquel Lima.

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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Milei e o dólar: um drama argentino

Semana de 09 a 15 de outubro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

A proximidade das eleições presidenciais da Argentina torna necessário entender uma das estratégias adotadas pelo candidato da extrema direita, Javier Milei, para atingir seu principal concorrente e atual Ministro da Economia, Sergio Massa. O objetivo de Milei é desmoralizar a moeda nacional e forçar o início do processo de substituição do peso pela moeda americana, nas principais transações dentro do país, impondo aquilo que chamamos de dolarização da economia. Nesse meio tempo, a desvalorização do peso vai contribuindo para o estouro da inflação, pois os produtos importados vão ficando mais caros. Isto, mais uma vez, desmoraliza ainda mais o peso argentino e o atual ministro.

Mas, qual a origem dessa vulnerabilidade da economia argentina?

Para responder essa questão, precisamos saber que a economia dos vizinhos, tal como a nossa, é uma economia capitalista dependente. Isto significa que precisamos recorrer ao uso de capital estrangeiro para pôr em funcionamento nossas economias. Esse capital se materializa de diversas formas: máquinas e equipamentos, matérias-primas, tecnologias patenteadas, bens de consumo, etc.

O problema é que tudo isso custa dinheiro. E não é qualquer dinheiro: não dá para, simplesmente, os argentinos usarem o peso para pagar suas contas externas. As transações internacionais são realizadas em uma moeda que deve ser forte o suficiente para cumprir as funções do dinheiro em escala mundial. Isso é o que chamamos de padrão monetário internacional, papel que já foi cumprido pela libra esterlina e hoje é do dólar americano.

Portanto, para a Argentina obter o capital estrangeiro que precisa para fazer sua economia funcionar, ela precisa ter dólares em seu caixa. Esse dinheiro pode ser obtido de diversas formas, as quais têm papéis diferentes na dinamização da economia como um todo. Basicamente, os fluxos são categorizados em diferentes “balanças”, que registram as formas de entrada e saída de dólares.

O primeiro canal de entrada de dólares é através da venda de bens e serviços para outros países, as famosas exportações. O problema é que, em 2023, as importações (compras externas) da Argentina estão maiores que as exportações (vendas externas), fato que não ocorria desde 2018. Ou seja, o saldo negativo da balança comercial, de US$ 6,3 bilhões, é uma das fontes de escassez de dólares por lá.

Outra forma de obter dólares é através da renda obtida por empresas nacionais atuantes no exterior. O problema é que as economias dependentes não sediam muitas empresas de atuação internacional. Pelo contrário, são países que recebem investimentos de empresas vindas de fora. Por isso, como característica típica de países atrasados, o saldo da balança de rendas é sempre negativo, pois há maior volume de renda saindo para remunerar o capital estrangeiro em suas matrizes, que renda entrando no país. Isto é fato na Argentina desde sempre, mas o saldo negativo do primeiro semestre de 2023, de US$ 6,7 bilhões, é pior do que o observado no mesmo período de 2022.

Diante desse cenário, o que resta ao país? Obter dólares pelo canal mais perverso que existe: através do endividamento externo. Assim, governos ou empresas que necessitem realizar transações com o resto do mundo pegam empréstimos com instituições financeiras internacionais e realizam suas compras ou pagamentos. O problema é que, para receber esse dinheiro, o tomador do empréstimo precisa ter alguma credibilidade e dar garantias de que vai pagar a conta, o que não é o forte na história recente argentina e tem piorado com as eleições de 2023. O resultado é que essa balança (conta) financeira também está negativa, e não é pouco: em 2023 a “fuga” de capitais da Argentina, de US$ 14,7 bilhões, já é quase o dobro da observada em todo o ano de 2022.

É justamente aqui que as palavras de Milei reverberam: o caos que ele prega aprofunda a desconfiança estrangeira em relação ao país, o que reduz a entrada de dólares, dificulta a quitação dos débitos internacionais e piora a economia nacional. A situação é tão ruim que as palavras de um tresloucado têm esse efeito, forçando os argentinos a buscarem uma moeda sobre a qual o país não tem qualquer poder de gestão.

O Milei parece trazer uma versão da nossa velha e conhecida política do quanto pior melhor. E sem querer ser catastrófico, mas já sendo, vai ser difícil para Massa lidar com essa realidade já ruim, mas piorada pelo discurso caótico. Como ministro da Economia, ele também tem sua parcela de culpa.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Gustavo Figueiredo e Raquel Lima.

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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

São terroristas os invasores de Israel?

 Semana de 02 a 08 de outubro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro [i]

 

             Não é possível comentar os fatos da semana sem começar pela notícia que estourou como uma bomba no mundo. Militantes da organização palestina Hamas, após um intenso bombardeio com foguetes a partir da faixa de Gaza, invadiram o território de Israel. Para surpresa geral, conseguiram romper as grades e barreiras que cercam e isolam a faixa de Gaza e avançaram sobre o território de Israel destruindo casas e instalações, matando muitas pessoas e sequestrando outras.

         Refeitos da surpresa e do susto, o exército de Israel reagiu e, após algumas batalhas, conseguiu conter a invasão, mas não conseguiu evitar que os militantes do Hamas levassem para o território da faixa de Gaza muitos prisioneiros como reféns. Como era de se esperar, ecoou no mundo o protesto do governo israelita contra a horda de terroristas sanguinários, que os agrediu selvagemente, matando mulheres e crianças indiscriminadamente. Ao mesmo tempo, foram iniciados os bombardeios de Israel contra o território de Gaza, matando igualmente civis e crianças.

         Quase de imediato surgiram os protestos dos EUA e do restante do chamado mundo ocidental, encabeçado pela União Europeia e, aproveitando a oportunidade, se seguiram os ataques ao Irã, por ser o maior apoiador do Hamas.

         Certamente, o clima de guerra no mundo vai piorar e o primeiro abacaxi caiu no colo do Brasil por ser, no momento, o atual presidente do Conselho de Segurança da ONU, que foi imediatamente convocado. A tensão está aumentando com declarações cada vez mais belicistas dos ocidentais. Membros do governo israelita então fazem declarações clamando pela eliminação completa do Hamas, que deverá ser varrido da face da terra. As nações mostram-se escandalizadas com a perversidade dos “terroristas” do Hamas, que atacaram uma nação pacífica e mataram muitos inocentes.

         O que não está sendo levado em consideração?

        Todos esquecem que Israel é um país agressor e que há mais de 56 anos ocupa os territórios da Palestina, que eram habitados pelos árabes palestinos. Desde 1948, quando foi criado por uma decisão da ONU, Israel vem expandindo seu território, tomando terras dos árabes, expulsando-os e confinando-os em guetos. Na divisão inicial da Palestina, feita pela ONU, aos judeus caberia 53,5% do território e aos árabes palestinos 45,4%. Através de guerras e todo tipo de violência, esta divisão não foi respeitada e os palestinos foram sendo encurralados em pequenas áreas e rigidamente controlados, tendo com frequência suas casas tomadas e destruídas. Calcula-se que atualmente existam 5.300 palestinos presos em presídios de Israel, sem qualquer processo legal, e um verdadeiro regime de “apartheid” foi instalado. Isto é denunciado por várias organizações internacionais, como a “Human Rights Watch”, e foi objeto de várias decisões da ONU, que não são cumpridas por Israel, até o presente. Agora, condena-se a ação do Hamas, considerado organização terrorista. Por que não se condena Israel, por realizar terrorismo de estado, como o que está acontecendo no momento, com os bombardeios indiscriminados de Gaza, que está matando crianças, civis, e mesmo funcionários da ONU? 

         Não pretendia ocupar tanto espaço com este assunto, mas a histeria da imprensa oficial e o berreiro das agências de notícias obrigaram-me a lembrar alguns fatos. E há muitos mais. Vamos aguardar os acontecimentos. Talvez tenhamos de voltar ao assunto diante da catástrofe que se avizinha.

         Voltando ao panorama interno com a economia não temos grandes novidades. Apenas há um fato a lamentar que é a continuação da queda nos investimentos e a destruição de nosso setor produtor de bens de capital. O setor produtor de máquinas e equipamentos, que representam o grande motor do crescimento, vem tendo um desempenho cada vez mais fraco, diante das incertezas na economia, dos juros muito altos e da própria fraqueza da produção industrial. A FGV-Ibre estima que, neste ano de 2023, os investimentos sofrerão uma retração de 0,9%. Tanto a produção dos chamados bens de capital, quanto a importação destes bens, vêm ficando muito abaixo dos valores do ano passado.

         Esta é uma notícia muito má para a equipe econômica do governo. Os prognósticos para a economia são preocupantes.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Helen Tomaz, Letícia Rocha e Raquel Lima.
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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

A produção mundial já está se reconfigurando

Semana de 25 de setembro a 01 de outubro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Tem sido recorrente a nossa discussão sobre as mudanças na forma como os países se inserem no comércio mundial. Temos dito que a atual divisão internacional do trabalho, aquela que caracterizou o capitalismo a partir dos anos 1970, está mudando de cara. Desde esta década, aumentou a participação de países asiáticos nas exportações mundiais de manufaturados. Para isso, esses países receberam volumosos investimentos originados nos países mais avançados. Foi nesse contexto que surgiu o termo “Tigres Asiáticos”, os de velha e os de nova geração.

O ponto alto desse movimento aconteceu nos anos 2010, quando a Ásia se tornou o continente que mais recebeu investimento estrangeiro direto (IED), superando a Europa ou mesmo as Américas do Norte e do Sul juntas. Contudo, nos primeiros anos de 2020, ocorreu uma mudança no lado de cá do Atlântico.

Em 2020, os países em desenvolvimento da Ásia receberam 53,7% dos fluxos de investimentos estrangeiros que circularam no mundo, valor que ficou em 51,1% em 2022. Nas Américas, o percentual de entrada do IED mundial em 2020 foi de 22,1%, sendo 12,8% nos EUA e Canadá e 9,3% na América Latina e Caribe. Por sua vez, em 2022 a entrada de IED nas Américas correspondeu a 42,2% do total mundial, sendo que 26,1% foram para os EUA e Canadá e 16,1% vieram para a América Latina e Caribe.

Isto é reflexo de um movimento que tem sido chamado de “desglobalização”. Ele é liderado pelos EUA e tem como objetivo trazer para perto do seu território aquilo que hoje é produzido por países sobre os quais as potências ocidentais não têm controle, em especial os asiáticos. Uma parte da produção é repatriada, a outra vai para países vizinhos.

Mais do que “teorizar” sobre o assunto, hoje o objetivo é mostrar como o comércio está mudando e como o Brasil ainda não entrou nesse movimento.

É de conhecimento geral que nosso país se destaca no comércio mundial como fornecedor de produtos primários. Com base nessa pauta, nosso saldo na balança comercial já está batendo recordes históricos: entre janeiro e agosto de 2023, as exportações superaram as importações em US$ 62,4 bilhões. A expectativa menos otimista é a de que esse saldo encerre o ano em US$ 70 bi.

Contudo, levando em consideração que o IED está mudando nas Américas, vemos que isto não se tem refletido no destino das nossas exportações. Nos primeiros oito meses de 2023, 30,2% das vendas externas brasileiras foram para China. No ano passado, o percentual foi de 26,8%. As vendas para os EUA correspondiam a 11,2% do total brasileiro em 2022, sendo que neste ano o percentual está em 10,5%. Por aqui, aumentou um pouco a participação da Argentina nas nossas exportações. Já o percentual vendido para México, Canadá, Chile, Colômbia, Peru e Bolívia ficou praticamente estável entre 2022 e 2023.

 Enquanto isso, vemos os EUA reduzir (um pouco) sua exposição à China. No ano passado, o país asiático foi o principal vendedor aos EUA, seguido de México e Canadá. No acumulado entre janeiro e julho de 2023, a China caiu para terceiro lugar, enquanto o México foi para primeiro e o Canadá para o segundo. Em 2022 o Brasil era o 17º no ranque e, atualmente, ocupa a 18ª posição.

Como a realidade sempre se impõe, isso tem se refletido na opinião de economistas e da mídia nacionais. Em 25/09/2023, o jornal Valor Econômico trouxe um editorial que reconhece as mudanças que já estão ocorrendo no mundo e fez um tímido aceno à possibilidade de o governo brasileiro adotar políticas que estimulem a vinda do IED para cá. Por sua vez, em 01/10/2023, Samuel Pessôa, um notório liberal e defensor do fim dos “privilégios” dados pelo Estado, escreveu um texto na Folha de São Paulo, no qual defende a adoção de políticas que beneficiem determinadas atividades industriais no Brasil.

Longe de querer que o Brasil se integre mais aos EUA, a coluna de hoje só veio para reforçar o que temos dito: como economia inserida no capitalismo mundial, vamos jogar esse jogo e buscar o melhor possível em cada janela de oportunidade. O importante é reduzir nossa vulnerabilidade e aumentar a soberania do país em benefício do povo. Sem esse passo, outros jamais serão possíveis.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Gustavo Figueiredo e Raquel Lima.

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sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Aos trancos e barrancos...

Semana 18 a 24 de setembro 2023

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Continuamos a aplaudir os sucessos do presidente Lula em seus deslocamentos pelo exterior. Finalmente podemos nos orgulhar de ter um presidente que não nos cobre de vergonha perante o resto do mundo, como ocorreu nos últimos 4 anos. Tinha muita dificuldade em explicar aos amigos de fora como permitimos que um demente como aquele chegasse ao mais alto posto da nação. Era difícil admitir que ele era o espelho do próprio povo. Era o seu legítimo representante. Que vergonha! 

Agora temos um presidente que desfila pelo mundo recebendo convites de muitos países. Depois do grande sucesso do discurso na assembleia da ONU, quando foi aplaudido muitas vezes, todos querem falar com o presidente Lula. Falta tempo para as audiências. Voltamos à arena mundial com propostas dignas e com a bandeira de defensores da paz e do meio ambiente. E com tal habilidade conseguimos sair dignamente, das pressões dos belicistas defensores da guerra da Ucrânia, nos EUA, e do próprio fantoche Zelensky. Conseguimos conversar com os países desenvolvidos nos fóruns internacionais e mantemos a liderança nos países participantes do bloco dos BRICS, em processo de ampliação. Surgem novas possibilidades de negócios com todos os países do mundo. Com a Rússia, por exemplo, aumentamos as importações de diesel e hoje ela é a nossa maior fornecedora, sendo responsável por 35,6% de todo valor importado, ultrapassando os EUA, que forneceram apenas 31%, o que significou uma queda de 65% no fornecimento americano.

Ainda no campo político, a semana foi rica em acontecimentos. Apresenta-se no horizonte mais um conflito entre o Congresso e o STF. Enquanto foi aprovado no Senado o PL 2.903/2023, que estabelece o marco legal para a demarcação das terras indígenas, afirmando que só podem ser demarcadas as terras que já eram ocupadas pelos indígenas até 5 de outubro de 1988, data da promulgação da constituição, o STF decidiu que, na constituição, não há qualquer estabelecimento de data para limitar as demarcações. Com isto, caso seja provocado, o STF poderá julgar inconstitucional a lei aprovada no parlamento. O conflito já está deflagrado com a declaração inédita da “bancada ruralista”, afirmando que vai bloquear todas as votações de interesse do governo até que o STF reveja sua decisão.

Mas o Congresso não ficou por aí. Aprovou o PL 4.438/2023, chamado de minirreforma eleitoral, que altera o funcionamento dos partidos, mexendo com as regras eleitorais. Foi apoiada por todos os partidos, exceto o Psol, Rede e Novo, e relatada por Rubens Pereira Júnior, deputado do PT-MA. Reduz a participação de mulheres e negros e o financiamento de suas campanhas, facilita a prestação de contas, permite as doações via pix, possibilitando a compra de votos, facilita a compra de vagas para vice e suplentes, perdoa as dívidas dos partidos e torna impenhoráveis os recursos do fundo partidário e do fundão eleitoral.  

Ainda no campo da política, continua a repercutir a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, com o vazamento de algumas partes. Complica-se a situação do almirante Almir Garnier, que fez declarações de adesão ao golpe, e surge a notícia de que o comandante do exército, Freire Gomes ameaçou Bolsonaro de prisão, se ele tentasse dar um golpe. Certamente teremos grandes novidades, quando tudo for divulgado.

Passando para a economia, temos a divulgação do Índice do Banco Central IBC-Br, que é tido como uma prévia do PIB calculado pelo IBGE. Para o mês de julho, o índice apontou um crescimento de 0,44%. Em 12 meses, isto significa um crescimento de 3,12%, o que coincide com outras previsões, como a da OCDE, que estima 3,2% e com o do próprio governo, que mudou suas estimativas passando de 2,5% para 3,2%. Mais uma notícia a comemorar é a reunião do Conselho de Política Monetária, que reduziu a taxa de referência Selic em 0,5%, ficando agora em 12,75%, o que dá uma taxa de juros reais de perto de 8%, ainda o segundo maior do mundo, perdendo apenas para a Turquia.

Aos trancos e barrancos vamos vivendo.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Helen Tomaz, Letícia Rocha e Raquel Lima.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Globalização e desglobalização: novos e velhos problemas

Semana de 11 a 17 de setembro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Caro leitor, não é de hoje que falamos sobre as mudanças que estão acontecendo na produção e na distribuição de mercadorias em escala mundial. Desde a pandemia de Covid-19 e a Guerra da Ucrânia, temos visto se acelerar um fenômeno que deu seus primeiros sinais após a “Crise do Subprime”, em 2008: a desglobalização produtiva. Mas, o que seriam a globalização e a desglobalização produtivas?

Desde o fim do século passado, a participação de alguns países na produção mundial de mercadorias se alterou. Regiões, que na década de 1970 eram meras produtoras de produtos primários, nos anos 1990 começaram a exportar manufaturados de média e alta intensidade tecnológica. Atualmente, a Ásia (especialmente as regiões Leste, Sul e Sudeste) é o continente que mais exporta produtos industriais elaborados no planeta e, por isso mesmo, é a região que mais importa commodities.

Isto foi possível graças à revolução causada pelas tecnologias da informação e comunicação e pelos transportes, que possibilitaram às grandes empresas multinacionais o fatiamento do processo de produção de algumas mercadorias e sua redistribuição territorial. Contribuíram também as mudanças nos modelos de gestão da produção, que foram se tornando mais flexíveis e adaptados aos nichos de mercado. O que norteou essas transformações, claro, foi a busca pelos menores custos de produção, seja com mão de obra, matérias primas, tarifas ou infraestrutura.

Os empresários pioneiros foram os do Japão, que se aproveitaram da pobreza e do atraso relativo dos seus vizinhos e investiram uma grande quantidade de capitais no Leste e no Sudeste da Ásia. Essas regiões, em seguida, passaram a exportar de volta ao Japão, que se aproveitou dos preços baixos dos insumos e dos bens de consumo importados para conter a inflação interna e aumentar sua competitividade externa.

Diante da força dessa nova organização industrial, baseada em cadeias de produção fragmentadas e internacionalizadas, as empresas ocidentais logo se adaptaram à novidade. Foi quando, nos anos 1990, a Ásia passou a receber os maiores volumes de investimentos estrangeiros. Várias empresas multinacionais passaram a abrir filiais ou subcontratar pequenas e médias empresas, as quais se tornaram suas grandes fornecedoras. Surgiu, assim, uma nova divisão internacional do trabalho, que passou a se organizar com base nas cadeias globais de valor.

Uma das principais consequências desse movimento foi a redução no consumo de produtos nacionais, os quais foram sendo trocados por importados. Isto aconteceu em diversos países e em todas as regiões do planeta, mas, sobretudo, nos mais ricos. Resultado: parte da velha estrutura produtiva dos países já industrializados foi perdendo espaço e se tornando obsoleta ou pouco competitiva. Por isso, na hora de fazer novos investimentos, as empresas optavam por investir fora do seu território originário.

Essa é uma (breve) história da globalização produtiva. A desglobalização, contudo, não é o retorno ao passado, quando a produção local era o núcleo central da industrialização. O que estamos vendo, agora, é uma redistribuição geográfica da produção de acordo com novos determinantes, para além do custo de produção: fatores estratégicos e geopolíticos. Ou seja, a produção industrial ainda terá o “internacional” como núcleo, mesmo havendo o retorno de algumas atividades às matrizes.

Isto pode ser visto na Alemanha de hoje. Segundo levantamento do Governo alemão, 33% das empresas de lá pretendem se expandir investindo no exterior. Por sua vez, empresas de todos os setores têm fechado plantas em solo alemão para abrir novas em países do Leste Europeu, ou mesmo na Inglaterra e na China. Dentre os motivos, estão o custo com energia, as barreiras ao comércio e a burocracia. Além disso, o trabalhador alemão é o que tem menor média de horas trabalhadas dentre os países da OCDE.

Esta situação é apenas um exemplo daquilo que afeta o movimento das empresas. Apoiadas em novas tecnologias, é assim que elas operam: “abandonam” seus territórios pátrios e vão em busca de menores custos em locais, agora, também estratégicos. Mais do que nunca, Estados e Blocos Econômicos serão fundamentais na formação dessa nova globalização que está por vir. Torcemos para que o Brasil garanta seu lugar ao sol.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Letícia Rocha e Raquel Lima.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Nem ata, nem desata

Semana 04 a 10 de setembro 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A economia mundial continua aos grandes solavancos. A reestruturação da globalização é muito complexa, pois envolve os interesses de países que procuram se estruturar em blocos opostos. Esta oposição vem se consolidando com mais um grande passo que foi a reunião dos BRICS na África do Sul e a decisão de ampliação com a entrada de mais seis países:  Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Argentina, Emirados Árabes Unidos e Irã. Eles deverão juntar-se aos 5 existentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Consolida-se, assim, a tentativa de constituição de um outro polo de atração, que já conta com a intenção de adesão de quase 40 países. A formação deste novo polo tem provocado muita preocupação nos países ditos ocidentais, liderados pelos EUA, que agora buscam desacreditar e sabotar todas as iniciativas neste sentido.

Embora sejam conhecidas as inúmeras contradições que existem entre os vários países participantes do bloco, algumas particularidades devem ser consideradas. Juntos, Rússia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos controlam o mercado mundial do petróleo. Juntos, os países possuem mais da metade da população e 40% do PIB mundial. A China, além de possuir um complexo e moderno parque industrial, é um dos polos mais avançados de tecnologia do globo, e a Rússia possui o maior arsenal de armas atômicas do mundo. Se os países do novo bloco conseguirem uma razoável integração de suas economias, o mercado mundial capitalista sofrerá um grande choque. 

Neste momento, a China já pressiona o mercado de carros elétricos, montando grandes fábricas de baterias, em condições de abastecer toda a demanda internacional. Isto ocorre no momento em que a atividade econômica global está em desaceleração. O setor de serviços encontra dificuldades diante da fraca demanda, desacelerando na França, Alemanha e Reino Unido. A Zona do Euro corre o risco de entrar em recessão. O Hamburg Commercial Bank (HCOB) e a S&P Global estimam que o PIB desta zona deverá sofrer uma contração de 0,1%, no trimestre atual. Os indicadores apontam igualmente para uma desaceleração das economias da China e da Índia. Só para a economia japonesa é que os dados são positivos.

Os prognósticos para o crescimento da Alemanha, locomotiva da União Europeia, são muito pessimistas. O Instituto Kiel para a Economia Mundial cortou sua previsão, estimando uma contração de 0,3%, no trimestre, e 0,5% no ano de 2023. No mês, a produção industrial caiu 0,8% e 9% no setor automotivo. Nos últimos três trimestres a economia estagnou ou encolheu. As causas apontadas são os preços da energia, a elevação dos juros e a desaceleração do comércio com a China, seu segundo maior importador. Por trás dessas causas está a guerra da Ucrânia, que os incompetentes governantes, subservientes aos interesses americanos estão engolindo.

O quadro internacional continua então muito sombrio. Do exterior, não podemos ter grandes esperanças. Internamente a situação é também muito preocupante. Continuamos a juntar os cacos que nos deixou o desgoverno passado. As investigações sobre os desmandos e conspirações para o golpe continuam e os primeiros resultados dos julgamentos já começam a aparecer. Infelizmente, apesar de necessárias, estas ações desviam a atenção dos reais problemas da economia e nos obrigam a ouvir impropérios vindos de bocas sacramentadas por togas sagradas.

Apesar de tudo a economia começa a reagir. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu no segundo trimestre e estima-se que, no ano, ficará acima dos 3%, o que será uma grande vitória, diante dos prognósticos anteriores. Apesar de uma difícil gestão, acossada por todos os lados, com um Congresso hostil, dirigido por dois honoráveis bandidos, algum resultado vai sendo conseguido. O emprego vai aumentando, embora lentamente, a distribuição de renda vai tendo resultados e alguns programas vão apoiando o aumento do consumo. Não há como negar o papel do agro e das exportações de commodities. Mas, nada nos dá garantias de uma arrancada da economia. Vamos continuar torcendo para que a troca de ministros aplaque a ira do centrão e dê maioria, para que o governo consiga aprovar seus projetos.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Helen Tomaz e Raquel Lima.

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