sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

A tutela do novo governo Lula

Semana de 21 a 27 de novembro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Prezado leitor, há quatro anos escrevi aqui neste mesmo espaço um texto abordando as contradições que o então presidente eleito, Jair Bolsonaro, teria de arbitrar para compor e manter seu governo (link). Além disso, há um ano escrevi sobre o que a literatura da ciência política chama de bloco no poder e como algumas elites estão sempre comandando o Estado (link). Pois bem, não tem como não falar desse tema no momento atual, pois há muitas forças tentando tutelar a formação da base do governo Lula.

Como já é público e notório, a gestão do orçamento da nação feita pela dupla Bolsonaro e Paulo Guedes é um desastre, principalmente para nós, reles mortais. Na proposta original do orçamento de 2023 está faltando dinheiro para várias áreas importantes, como saúde, educação, ciência, tecnologia e habitação. Por exemplo, o orçamento de 2023 propõe a redução das verbas para as políticas de habitação em 93,2% (sai de R$ 1,2 bilhão para R$ 82,3 milhões) e de saneamento básico em 65,2% (menos R$ 492,2 milhões). Na saúde, a redução é de 42% nos gastos discricionários, enquanto na educação a redução chega a 50% das verbas de 14 ações. Além disso, algumas promessas não estavam previstas no orçamento, como o Bolsa Família de R$ 600 e o salário mínimo de R$ 1.400. O que a equipe de transição está tentando fazer é consertar essa porcaria.

Naturalmente, quando se fala de orçamento, estamos falando da organização de todo o dinheiro que será arrecadado e como (e com quem) ele será gasto. Sabemos que esse orçamento deve respeitar uma lei criada em 2016, pelo governo Michel Temer, conhecida como teto dos gastos. Como o nome sugere, a lei diz que um governo só pode gastar em um ano o mesmo valor gasto no ano anterior acrescido da inflação. Em outras palavras, as atuais regras orçamentárias limitam muito a margem para manobrar o orçamento. Como ele não pode ter crescimento real sobre o ano anterior, para aumentar o gasto com uma coisa é preciso reduzir com outra que não seja considerada prioritária. E é aí que entram as pressões do que seria esse “prioritário”.

Como vimos, Bolso-Guedes consideram dispensáveis a educação e alguns fundos constitucionais (sob responsabilidade do Ministério da Integração Nacional). Por outro lado, consideram o pagamento dos juros essenciais. No ano passado já reduziram (em relação a 2020) verbas da educação em R$ 1,3 bi e da integração nacional em R$ 10,4 bi. Mesmo assim, segundo dados do Banco Central, em 2021 os dois aumentaram o pagamento de juros para R$ 499,3 bi, enquanto em 2020 foram pagos R$ 347,2 bi em juros nominais.

Mas não é só o orçamento do ano que vem que está de mal a pior. O dinheiro também está sendo mal gerido agora. Todo mundo sabe que, para tentar se reeleger, Bolsonaro gastou adoidado ao longo de 2022. Por isso, anunciou em novembro mais R$ 5,7 bi de bloqueio no orçamento, deixando, por exemplo, as universidades à mingua. Já são R$ 15,4 bi bloqueados em todo ano. A situação é tão crítica que até o comércio e a indústria foram buscar seu espaço. Em reunião com a Confederação Nacional da Indústria, membros da equipe de transição apresentaram o descalabro da falta de apoio ao setor. Com dados atualizados pela inflação, a verba destinada ao desenvolvimento da “Indústria, comércio e serviços” caiu de R$ 10,6 bi em 2010 para R$ 5,7 bi em 2022. Para 2023 o orçamento previa um gasto de R$ 5,8 bi.

Enquanto isso, lembra dos juros pagos pela dupla Bolso-Guedes? Pois bem, entre janeiro e outubro de 2022 eles já pagaram um total de R$ 599,3 bi em juros nominais. O que a elite, que tenta tutelar na formação do bloco no poder do governo Lula, é a manutenção dessa mamata.  Por outro lado, Lula tenta avisar: a mamata está muito grande, vocês têm que abrir mão disso por enquanto, para depois todos voltarem a ganhar muito dinheiro. Afinal, como ele mesmo diz, foi no governo Lula que os banqueiros mais ganharam dinheiro na história do país. Infelizmente, no capitalismo, não tem como não os agradar. Dilma Rousseff que o diga...


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Gonçalves.

Share:

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Baderneiros nas estradas e nos quartéis

Semana de 14 a 20 de novembro de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Enquanto o novo presidente eleito é saudado e recebido com honras de chefe de Estado pelo mundo, mantendo encontro com autoridades de outros países e recuperando a imagem do país no exterior, por cá os baderneiros continuam suas ações provocativas, ocupando estradas e acampando em frente dos quarteis que se mantêm coniventes com os criminosos. Nossa previsão feita em Análise anterior confirma-se integralmente.  Teremos um resto de ano muito tumultuado. Vazaram até mensagens do ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, com uma pregação abertamente golpista, anunciando com entusiasmo o golpe que será dado pelas forças armadas muito em breve.

Apesar de todo este ruído as ações para a transição do governo continuam igualmente tumultuadas. A cada afirmação mais ousada do Lula em defesa das medidas sociais, salta o “mercado” babando sangue e provocando altas do dólar, queda nas bolsas de valores e alta nos juros futuros. É o maior berreiro chegando a provocar uma tosca carta dos três famosos economistas que apoiaram a campanha, Pedro Malan, Armínio Fraga e Pérsio Arida, com críticas ao novo presidente. É um primeiro sintoma do racha do frentão que se formou em torno do Lula para derrubar a aberração que se apossou do país e restaurar a democracia.

Enquanto o seu bando fascista urra nas ruas clamando agora por uma “intervenção federal” Bolsonaro estimula as ações mantendo-se silencioso, usando como justificativa uma “pereba na canela” que lhe dificulta os movimentos.  A milicada, segundo Augusto Nardes, segue conspirando nas trevas. Vivemos sob grande tensão alimentada pela nova ação do Valdemar da Costa Neto com um pedido de anulação de milhares de urnas que ele considera suspeitas. Por enquanto o STF e o TSE são os grandes guardiões da legalidade destacando-se o ministro Alexandre de Moraes. As figuras dos presidentes da Câmara e do Senado seguem com suas posições covardes e vacilantes no comando de um poder legislativo corrupto e reacionário, em sua maioria, e que deve piorar na nova legislatura. Torna-se difícil um acordo para a aprovação da PEC do orçamento capaz de criar as condições mínimas para o início do governo em 2023.

No mundo a Copa ofuscou todas as desgraças e mesmo as demências do fantoche Zelensky, travestido de presidente da Ucrânia, não despertam mais atenção. O caso do míssil caído na Polônia, que provocou acusações histéricas do palhaço e o pedido de convocação da OTAN em caráter de urgência para uma guerra total contra a Rússia, foi desmoralizado pelos próprios aliados que descobriram a fraude: o míssil era ucraniano. Também não causou surpresa a descoberta que as explosões nos gasodutos russos Nord Stream 1 e 2 foram atos de sabotagem, ainda não se sabe de quem. Enquanto isso, a recessão avança na União Europeia preocupando as populações, o que já é admitido por todos. Aumenta a inflação, desorganizam-se as cadeias de valor e o comércio, e paradoxalmente, os Bancos Centrais sobem dos juros, o que contribui para aprofundar a crise. Aqui nesta coluna temos seguidamente alertado para estes fenômenos que agravam as nossas próprias dificuldades.

Nos países desenvolvidos os governos continuam com sua política suicida de esconder a realidade e mantêm os gastos de milhões de dólares na aventura belicista patrocinada pelos EUA e apoiada pela culta Europa. No entanto, na COP 27 escusam-se dos compromissos de contribuir para o fundo de indenização dos países mais vulneráveis que mais sofrem com a poluição ambiental. E se não bastassem as consequências da guerra da Ucrânia, as tensões entre os EUA e a China aumentaram, com a nova política americana que considera a China uma importante ameaça aos EUA e pretende estrangular a economia chinesa para impedir seu desenvolvimento tecnológico.

Com este quadro internacional tão adverso não é de se esperar qualquer recuperação da economia nacional. Some-se a isto a crescente instabilidade que vem sendo provocada pela ação do bolsonarismo que tenta criar as maiores dificuldades para a instalação do novo governo. Teremos tempos difíceis certamente.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Alves.

Share:

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

O Deus Mercado?

Semana de 07 a 13 de novembro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

No sincretismo religioso, há diversas combinações de teísmos. Os politeístas acreditam na existência simultânea de várias divindades diferentes, cada qual com seus poderes, características e peculiaridades. Já para os monoteístas, há apenas uma divindade, que reúne todo o poder supremo. Em comum a todas elas, está o fato de que o(s) deus(es) deve(m) ser agradado(s) e seus ensinamentos praticados, caso contrário, alguém vai sofrer (seja com o mau humor da divindade, seja com o castigo ao pecador).

Normalmente, os rituais de conexão entre o divino e o secular ocorrem nos templos e são guiados por indivíduos que detêm conexão direta com a divindade em questão. Frequentemente, eles são os representantes do(s) deus(es) no plano terrestre, sua personificação. Eles são os sacerdotes. Por sua vez, esta conexão é adquirida a partir de uma estrutura complexa de tradições, o que forma a base de uma determinada religião.

Pois bem. É possível traçar um paralelo entre economia e a crença na existência de um poder supremo, um paralelo entre o capitalismo e a religião, apesar de serem coisas diferentes, e o primeiro ser mais poderoso que o segundo.

Muito se fala na existência de um “Deus Mercado”, que não deve ser contrariado. Porém, o mercado é apenas o “templo”, um local onde os indivíduos manifestam os anseios de algo que lhes é superior. Como todo templo, as vozes que mais ecoam são as dos sacerdotes, os quais personificam as vontades da divindade. De uma forma geral, as pessoas não precisam saber da existência desta entidade suprema que dita a forma como todos devem se comportar em sociedade. Na realidade, muitos de nós seguem suas leis sem sequer ter consciência disso.

Esse ser supremo que atualmente nos guia é o capital. Por isso que o sistema econômico atual é chamado de capitalismo (para mais detalhes sobre ele: link). A sua lei fundamental é a obtenção de lucro. Sem a apropriação privada do excedente alheio, não há capitalismo que funcione. Por sua vez, quem personifica o capital são os capitalistas, que chegaram a tal posto por mérito (a exceção) ou por herança (a regra).

Nesse contexto, correndo o risco de ser ainda mais simplista, podemos afirmar que o capitalismo se enquadraria no monoteísmo religioso. Mesmo assim, o capital é múltiplo, assume várias facetas e, por isso, tem sacerdotes das mais variadas ordens. Há aqueles que pregam que o capital só terá seus anseios atendidos se a economia for aberta ao mundo. Há quem defenda a produção local como o melhor para o capital. Há os que apelam para o aumento dos juros e para a carestia do Estado como formas de agradar a divindade suprema. Enfim, sejam industriais, comerciantes, banqueiros, financistas ou especuladores, os capitalistas encontram um meio de cumprir sua função.

O que vimos na semana passada, após a fala de Lula sobre a necessidade de incluir os pobres no orçamento, nada mais foi do que o capital dando sinais. Como toda a população do Brasil não cabe no orçamento público, o capital avisou que não quer abrir mão da sua parte. Por isso seus sacerdotes logo se apressaram em levar o recado aos leigos, demonstrando que o governo eleito e o povo não devem ousar lhe peitar.

Contudo, parece que o movimento ocorrido na semana passada não foi muito bem recebido pela opinião pública. Isto pode ser visto naquele que tem sido o maior instrumento de comunicação no Brasil atual. Não faltaram memes para manifestar a insatisfação popular com esse movimento feito no “mercado”, se bem que alguns analistas sérios também expressaram sua insatisfação publicamente.

O pior, porém, é que não há muito o que fazer. Como vimos nessa campanha de 2022, foi muito ampla a aliança para acabar com o melhor representante do diabo na história do Brasil. Claro, este apoio não viria de graça, pois o capital se parece com o deus cristão do velho testamento. A equipe de transição já está recheada de pessoas que vão garantir a paz capitalista, desde as pastas da área econômica até a da educação.

E nem adianta rezar, na economia não tem milagre. Só a luta nossa de cada dia poderá nos salvar.


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Gonçalves.

Share:

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Uma batalha foi ganha. E a guerra?

Semana de 31 de outubro a 06 de novembro de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A eleição passou e ganhamos a batalha, mas não a guerra. Ela mal começou e vai continuar cada vez mais acirrada. E não é entre direita e esquerda, mas entre barbárie e civilização, entre democracia e ditadura. É difícil encontrar algum outro momento da história em que se tenha concentrado em um polo tanta maldade e iniquidade. Além disso o fenômeno é universal, a batalha é planetária. O que assistimos aqui dentro é um pequeno reflexo do que se processa em todo o mundo. A tecnologia, a internet, a globalização tornaram tudo universal. Dementes mercenários como Steve Bannon criaram mecanismos globais de divulgação e massificação de todo tipo de barbaridades, que envergonham a humanidade e a ciência, mas entranham-se no primarismo e na mediocridade das mentes treinadas e exercitadas para o comportamento irracional de rebanho. O comportamento de manada interessa ao capitalismo pois leva ao consumo em massa dos mesmos produtos o que viabiliza a produção capitalista em grande escala. E nisso o sistema é muito criativo e competente. Qualquer que seja o movimento que surja o sistema logo produz um pacote completo para atender o novo costume. Daí surgiram o kit skate, o kit surfista, o kit retrô, o kit hippie, o kit gótico etc., que alimentam qualquer fantasia de acordo com a moda.

 O comportamento é do mesmo tipo quer seja em um show, um estádio de futebol, um culto religioso, um comício, um bloco de carnaval, um programa de televisão, uma reunião política etc. Sob comando todos levantam, todos gritam, todos agitam os braços, todos requebram os corpos, todos saltam, todos andam para um lado e outro, todos dançam a mesma coisa (coreografias estudadas e encomendadas), todos se comportam como um bando de irracionais. Onde levará esta loucura? Ninguém se dá conta do perigo que isto representa? E quando vier o comando para que matem o preto, o homossexual, o petista, o comunista e por que não o judeu, o capitalista o bolsominion? E preciso não esquecer que o pau que bate em Chico bate em Francisco.

Por enquanto a pregação do ódio vem de um lado só e o resultado já é visível. Vejam-se os casos do Roberto Jefferson, que envergonha as corporações policiais e particularmente a Polícia Federal, e o caso do desbloqueio das estradas onde a Polícia Rodoviária Federal é quem faz o papel ridículo. Tudo comandado pelo ministro Anderson Torres, obedecendo as ordens do “capitão”. As manifestações criminosas absurdas, que já causam prejuízos aos negócios, continuam a ser toleradas.

E enquanto a quadrilha continua a agir, com a conivência de algumas autoridades, as forças políticas movem-se e o novo presidente mantém suas atividades preparando o seu governo como se nada estivesse acontecendo. A cada dia surge uma novidade.

Esperamos que desta vez os criminosos sejam punidos e não se repita o grande erro do fim do golpe militar com a anistia dos torturadores e militares assassinos. Ou se desarticula o centro produtor de golpista e torturadores ou tudo se repetirá. Bolsonaro não perdeu a guerra e precisa ser punido pelos seus crimes juntamente com sua família de débeis mentais e demais fanáticos do bando. Cadeia ou manicômio judicial.

Com certeza teremos um resto de ano muito tumultuado. O que ainda nos vale é a cobertura internacional, o reconhecimento da comunidade mundial, do salto para a civilização que foi dado no Brasil. Infelizmente, do ponto de vista econômico, não teremos nenhuma ajuda e a economia do país continua a afundar lentamente à medida em que se esgotam os estímulos dados pelos pacotes eleitoreiros do governo atual. Já em setembro a economia encolheu -0,8% e em outubro a produção industrial caiu -0,7%.

Com efeito, apesar de não desejarem admitir, as instituições internacionais e os analistas cada vez mais reconhecem que a situação internacional aponta para uma recessão generalizada. Tanto os países da União Europeia como os EUA apresentam sinais de desaceleração. A própria China também desacelera. Mas as loucuras continuam. Milhões de dólares são queimados na estúpida guerra na Ucrânia em apoio ao fantoche dos americanos, o comediante Zelensky que lucra com o sangue de seu próprio povo.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Alves.

Share:

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

A esperança venceu a barbárie. Mas, foi por pouco?

Semana de 24 a 30 de outubro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Como é bem sabido por todos, incluindo o gado derrotado e solto nas estradas do Brasil, Lula foi eleito com mais de 60 milhões de votos. A diferença percentual foi a menor da história: 50,9% para Lula, o futuro Presidente, contra 49,1% para Bolsonaro, o futuro ex-Presidente. Mas, será que a diferença foi mesmo tão pequena? Para responder a essa pergunta, o resultado das urnas deve ser lido com atenção.

Como vem sendo destacado por alguns analistas, o pleito foi o mais injusto desde a redemocratização (quiçá de todos os tempos). Os motivos são diversos, uns mais e outros menos flagrantes. Em outra ocasião (link), já havíamos mostrado como Jair Bolsonaro cercou o Supremo Tribunal Federal e cooptou o Congresso Nacional. Isto começou desde que assumiu o Executivo, em 2019. O fato é que, premeditadamente ou não, com isso ele teve condições de fazer o que fez antes e durante essas eleições.

Nos dois primeiros meses de 2022, os institutos de pesquisa apontavam uma grande rejeição à Bolsonaro (mais de 60%). Entre março e abril, houve uma redução dessa rejeição. Até então, o principal instrumento utilizado para garantir sua reeleição foi o orçamento secreto (criado anteriormente para barrar um provável impeachment). Porém, como nada de diferente dos anos anteriores foi feito, entre maio e junho houve uma manutenção da rejeição ao Presidente. Foi quando anunciaram o Auxílio Brasil no valor de R$ 600 e o aumento do Vale Gás. Em julho o Congresso aprovou tais benefícios, junto com os auxílios a taxistas e caminhoneiros. Além disso, foi aprovada a PEC que reduziu o ICMS sobre alguns produtos básicos. Os benefícios começaram a ser pagos entre julho e agosto. Por sua vez, a inflação caiu por conta da redução dos tributos sobre os combustíveis. Nesse meio tempo, a rejeição a Bolsonaro caiu de novo.

Esses foram os fatores que deram a Bolsonaro uma chance de competir contra Lula e evitaram uma derrota já no 1º turno. Porém, o segundo lugar mostrou que essas e outras medidas, implementadas de um jeito jamais visto na história da República, foram insuficientes. Era preciso ainda mais para fazer alguns milhões de brasileiros esquecerem o que ocorreu entre 2019 e 2021: os quase 700 mil mortos pela covid-19, a fila do osso, a bandeja de pé de galinha, a inflação, a desmoralização internacional, enfim... Por isso, entraram em cena mais fake news, bem como a participação de celebridades evangélicas, sertanejas, esportistas, ex-BBBs e todo o resto. Além disso, mais medidas de ordem econômica foram adotadas: crédito e renegociação de dívidas via Caixa Econômica Federal; aumento do salário-mínimo; pagamento de 13º para beneficiárias do Auxílio Brasil; liberação de FGTS futuro etc.

Esse é o contexto que gerou a diferença de 2.139.645 votos entre Lula e Bolsonaro: uma parte da população votou nele porque suas condições materiais melhoraram, mesmo que temporariamente. Mas, não podemos deixar de reconhecer que há uma parcela significativa da população que apresenta elementos fascistóides. No entanto, ela é uma parcela bem menor do que os 58 milhões de votos em Bolsonaro. Isso pode ser visto nas patéticas manifestações iniciadas após o anúncio do resultado de domingo, com o fechamento de estradas em quase todo o país. Isto só “prosperou” por conta das milícias fardadas infiltradas nas forças de segurança federais e estaduais. Os metalúrgicos de Angra dos Reis, as torcidas organizadas Gaviões da Fiel e Galoucura e os moradores de São Mateus (ES) já mostraram que esses movimentos golpistas são apenas “mimimi” e “frescura” de quem vai chorar até sei lá quando.

De uma forma geral, o que tomou conta de parte não desprezível dos eleitores de Bolsonaro foi o medo do “Brasil virar uma Venezuela”. Os anos de 2003 a 2010 mostram que Lula está bem longe disso. O máximo que podemos esperar, infelizmente, é um desenvolvimento capitalista nos moldes de um modelo liberal e periférico, nada mais. Sem dúvida, isto será muito melhor do que o que vivemos desde 2019. Por isso, podemos dizer: a esperança venceu a barbárie. Vamos aprender novamente o que é a democracia.


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Gonçalves.

Share:

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

O povo armado jamais será escravizado

Semana de 17 a 23 de outubro de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

O dia D aproxima-se. Provavelmente quando esta Análise estiver ao alcance do leitor as eleições serão um fato consumado e já estaremos sofrendo as consequências dos resultados, que são temerosos, quaisquer que sejam. A insegurança é total.

Lula continua como favorito nas pesquisas, mas a diferença é pequena e o fanatismo está se exacerbando. Muito dinheiro está sendo derramado para compra de votos e a fúria fanática religiosa nas igrejas, principalmente pentecostais, eleva-se a um nível nunca visto. Os ambientes mais sagrados estão sendo profanados. Imaginem se os católicos começassem a entrar nos templos protestantes para ofender os pastores?

  Felizmente a provocação armada pelo Roberto Jefferson deu errado. O tiro saiu pela culatra (politicamente) embora, na realidade, tenha saído pela boca dos fuzis que ele ilegalmente (para vergonha das autoridades) possuía. Eis o resultado das novas normas editadas pelo governo: um prisioneiro utilizando armas privativas das forças armadas, sem qualquer controle, disparando contra a própria Polícia Federal.

O apoio do Governo ao ataque teve de ser retirado às pressas e transformado em uma leve condenação à loucura ou insensatez do amigo e aliado que, há muito, vinha ensinando, impunemente, como resistir à polícia. Afinal, “um povo armado jamais será escravizado”, como manda o “Führer”. O apoio do Bolsonaro ao ataque foi retirado e transformado em leve condenação à insensatez do amigo e aliado. E se a moda pegar?

A Polícia Federal saiu desmoralizada da ação. Dois gentes feridos, viaturas picotadas a bala de fuzil, 3 granadas nas fuças e uma amigável conversa com um delicado negociador especialmente enviado. Que vergonha!!! Para não falar do ministro da Justiça enviado especialmente para o local e retido em uma cidade próxima diante do escândalo que estourou. Imaginem se o atirador fosse um petista qualquer? Que vergonha! Para agravar o absurdo até um falso padre foi mobilizado para acalmar o irado bolsominion.

O governo foi obrigado a tirar o time de campo diante da revolta dos policiais e da sociedade. Até seus cupinchas mais fiéis, como os residente da Câmara e do Senado, condenaram o ato.

Isto foi um aviso para o que se está preparando. E se o “povo armado”, para “não ser escravizado”, obedecendo ao comando do “Führer”, ganhando ou perdendo as eleições, resolver agir da mesma forma? O que farão os policiais federais, as outras polícias, o exército (conivente com este quadro) e as demais forças armadas?

Eis o ambiente em que ocorrerão as eleições. O país ficará em grande tensão até o final do domingo ou segunda feira. Isto se a apuração terminar. O Alexandre que se cuide e mobilize forças militares suficientes e fiéis capazes de conter a matilha de cães raivosos. Está aí o exemplo dos EUA com a invasão do Capitólio.

Como o leitor deve estar percebendo, as decisões eleitorais estão tomadas nesta altura dos acontecimentos e não adianta nenhuma linguagem coloquial para convencer qualquer pessoa. Sem nenhuma paciência para dialogar com fanáticos irracionais passo a informar os leitores algumas tendências preocupantes de evolução da economia.

Temos alertado para a aproximação de uma grande crise que certamente nos envolverá. Novas afirmações de organizações internacionais surgiram. Em uma reunião do G24, grupo dos 24 países em desenvolvimento mais importantes, o vice-presidente do Banco Mundial afirmou que a desaceleração hoje é mais forte do que em recessões anteriores. Os ministros de Finanças do G24 divulgaram um comunicado dizendo que “os riscos negativos para as perspectivas econômicas levam a temores de uma recessão global” e “as condições financeiras estão piorando”. O Secretário Geral da ONU, Antônio Guterres, afirmou que os países em desenvolvimento já perderam US$390 bilhões de reservas internacionais neste ano pela fuga de capitais e desvalorização de suas moedas. O FMI declarou que podemos estar diante de uma policrise em escala mundial. Com tantos motores parado ao mesmo tempo (EUA, UE, China) as perspectivas são sombrias.

 Além dos problemas locais, eis o que nos espera após as eleições.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Alves.

Share:

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Mais uma semana falando de crise econômica (e eleições)

Semana de 10 a 16 de outubro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

No começo do mês de setembro, escrevi uma análise afirmando que a economia brasileira estava “saindo do buraco” (link). O contexto foi a divulgação do PIB brasileiro no 2º trimestre de 2022. No mesmo texto (e no texto da semana seguinte, escrito pelo prof. Nelson Rosas - link), porém, foi destacado o fato de que este crescimento registrado estava na corda bamba. Alguns dados revelados em outubro confirmam nossas suspeitas.

Como vimos registrando nas últimas semana, cada vez mais entidades, instituições e organizações internacionais vêm alertando para a crise global que se avizinha. Para além dos problemas típicos dessa fase do ciclo econômico, já vimos que a crise será agravada pela atual política de elevação dos juros dos EUA.

Somado a isso, segundo a Agência Internacional de Energia e a Secretaria do Tesouro Americano, há outro agravante para o cenário internacional: o corte da produção de petróleo pelo cartel da OPEP+. Isto vai gerar um aumento no preço do produto, seguido da dificuldade de manutenção do consumo e uma redução da produção de energia. Outro resultado é o aumento do preço dos derivados do petróleo, o que pressiona os custos e a inflação. Isto, claro, dá mais “razão” para a atuação do Fed (banco central dos EUA) no aumento da sua taxa básica de juros. A situação está tão conturbada que os EUA estão acusando a Arábia Saudita (seu aliado de longa data) de se alinharem com a Rússia e se beneficiarem do aumento do preço do petróleo. Até o fim de 2022, a expectativa é de que o preço do barril tipo Brent fique em torno dos US$ 100, levemente acima do nível atual.

Por falar em petróleo, aqui no Brasil algumas das medidas desesperadas de Jair Bolsonaro estão dando certo, para ele. Vimos a redução nos preços se generalizar para todos níveis de renda analisados pelo IPEA, com exceção das famílias que recebem mais de R$ 17 mil por mês. Isto foi possível graças à famosa redução do ICMS de combustíveis e energia imposta por Brasília aos entes da federação.

Porém, as medidas desesperadas do presidente Bolsonaro não foram capazes de reverter outros dados negativos. As falências decretadas por empresas nunca foram tão altas desde o início da pandemia, em 2020. Além disso, em agosto de 2022 havia 6,2 milhões de empresas negativadas, enquanto em agosto de 2021 este número era de 5,8 milhões. Pelo lado do consumidor, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a inadimplência está em seu maior patamar desde 2010. Em setembro de 2022, 79,3% das famílias se declararam endividadas e 30% estavam com dívidas em atraso. Há um ano esse percentual era de 74% de endividamento e 25,5% de atraso.

Por sua vez, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, a produção industrial brasileira caiu 0,6% entre agosto e julho de 2022. Por categoria de uso, os bens intermediários (-1,4%) e os bens semi e não-duráveis (-1,4%) puxaram esses dados para baixo. Amenizando a situação, a produção de bens de capital (5,2%) e bens duráveis (6,1%) subiram. Entre junho e agosto de 2022, a indústria reduziu em 0,4% sua produção. O motivo, segundo analistas do IBGE, foi o esgotamento da antecipação do 13º salário e dos saques extraordinários do FGTS, liberados ainda no primeiro semestre.

Para fechar, o Banco Central (BC) está fazendo o maior aperto monetário dos últimos 20 anos. Segundo o Banco Santander, a taxa de juros atual (de 13,75%) já é superior à inflação atual (7,2% nos últimos 12 meses, pelo IPCA) e à inflação que se espera para o futuro próximo (expectativas de inflação em queda). A estimativa é de que os juros estão 8,7 pontos percentuais mais elevados do que a inflação ponderada.

Não à toa o IBC-BR, indicador do BC que é considerado como prévia do PIB, apresentou queda de 1,13% entre agosto e julho de 2022. As cartadas econômicas de Bolsonaro e Paulo Guedes foram dadas e melhoraram um pouco a economia. Porém, seus efeitos parecem ter se esgotado. Talvez por isso a campanha tenha desembocado na baixaria e nas fake news que estamos vendo atualmente.

Fazer o quê? Cada um vai à luta com as armas que domina...


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Gonçalves.

Share:

Novidades

Recent Posts Widget

Postagens mais visitadas

Arquivo do blog