quinta-feira, 16 de março de 2023

Tensão internacional e calma interna

Semana de 06 a 12 de março de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Enquanto a tensão continua a agravar-se pelo mundo no país a crise prossegue com a economia em desaceleração. Apesar disto o Banco Central (BC) bate no peito e declara sua intenção de manter a taxa Selic em alta e mesmo aumentar mais ainda. Para conter o aumento dos preços o BC teimosamente tenta desacelerar a economia, e já está conseguindo. O BC rema contra a maré e age contra as intenções do governo que pretende relançar a economia. Aliás, este é o seu grande desafio.

As promessas de campanha, de melhorar a vida das pessoas, obrigam a tomada de decisões neste sentido. Vão nesta direção o aumento do salário-mínimo, a retomada das obras públicas e, em particular, do “Minha casa minha vida”, a ação dos bancos públicos para a redução dos juros e, enfim, a retomada do funcionamento de todos os serviços prestados pelos ministérios, ou seja, a restauração do funcionamento do aparelho de Estado desativado pelo desgoverno anterior que nunca governou.

A elevação dos juros, consequências da política do BC, tem provocado restrições no crédito e dificultado a situação das empresas que, com a queda nas vendas não conseguem repor os caixas. A quebra das Americanas é um exemplo. As empresas de avaliação de riscos Moody’s e Fitch já rebaixaram a classificação de várias empresas brasileiras, o que as coloca em situação mais difícil para conseguir recursos para suas operações. Esta situação vem provocando manifestações e protestos de entidades representativas dos setores industriais e comerciais e mesmo dos bancos. Com juros altos desestimula-se o consumo e a produção, o que, na opinião do BC, é o caminho para combater a inflação. Os diretores do banco, liderados pelo seu badalado presidente Roberto Campos Neto, e fiéis à sua fanática ideologia econômica, pensam que podem acabar com a guerra na Ucrânia, impulsionar a economia da China, reconstruir as cadeias de valor globais, restaurar o comércio mundial e as linhas de comunicação internacionais com a elevação da Selic. Grande Roberto!

Apesar das “boas intenções” do nosso badalado Bob Fields, a economia mundial não vem se comportando bem como se poderia desejar.  Para tristeza geral a China propõe como meta de seu crescimento uma taxa considerada “mixuruca” de 5%. Para fúria dos EUA, no entanto, ela propõe para o seu orçamento da defesa, uma taxa de crescimento de 7,2% de seu PIB. Eis o resultado do aumento das tensões provocado pela guerra da Ucrânia e pelas manobras em torno da ilha de Taiwan. A aproximação e o estreitamento da aliança entre China e Rússia, agravado pela possibilidade do fornecimento de armas chinesas para a guerra, tem provocado crises de pelanca entre os caquéticos generais da OTAN e seus patrões americanos. Curiosamente ninguém condena o fornecimento de armas por todos os países da União Europeia às forças ucranianas. Os EUA pressionam mesmo todos os seus amigos mundo afora para a colaboração na guerra e até o Brasil já foi sondado e felizmente teve a sensatez de se recusar.

Durante a semana as tensões aumentaram com uma severa advertência feita pela China aos EUA e com a derrubada de um drone americano pelos caças russos sobre o Mar Negro. Aliás, a economia americana não anda muito bem das pernas. Apesar dos sinais de crescimento e queda do desemprego a inflação continua a ser uma ameaça. Lendo pela mesma cartilha do nosso BC o Federal Reserve (Fed), BC americano, está declarando que pretende aumentar os juros, hoje no intervalo entre 4,5% e 4,75%, para 5,75% a 6%.

  O panorama político parece ter encontrado uma certa estabilidade. Pelo menos isto. Apesar das tensões criadas pela criação de uma CPI dos acontecimentos de Brasília, as duas casas voltaram a funcionar normalmente. Até a situação com os militares atravessa um período de calmaria. O governo conseguiu encontrar algumas dezenas deles que merecem a farda que vestem. Assiste-se um retorno organizado aos quarteis. Esperemos que esta tendência se mantenha e que as punições que virão, como consequência da apuração de sua participação nas bandalhas do desgoverno Bolsonaro, não os assanhem novamente.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula e Maria Cecília Fernandes.

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quarta-feira, 8 de março de 2023

Saiu o resultado do PIB de 2022. Tudo dentro do esperado...

Semana de 27 de fevereiro a 05 de março de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Na última sexta-feira saiu o resultado do PIB brasileiro de 2022. Essa conta mostra o total de riqueza produzida no território nacional ao longo de todo o ano passado. De acordo com os dados oficiais do IBGE, o PIB de 2022 cresceu 2,9% sobre o que tinha sido o PIB de 2021. Pelo nosso histórico recente, isto parece bom.

Tirando o momento excepcional da abertura pós flexibilização das regras de isolamento da pandemia, estamos (mal) acostumados com um pífio crescimento econômico desde o governo Temer. Entre 2015 e 2020, o Brasil cresceu a uma taxa máxima de 1,8%. Não por acaso, esse é o período em que as reformas neoliberais (chamadas de “modernizantes”) foram recolocadas na agenda política brasileira (reforma trabalhista, reforma previdenciária, abertura comercial, redução do papel do Estado na economia, privatizações, etc.).

Porém, analisando o movimento da economia brasileira ao longo de todo o ano passado, vê-se que a coisa foi piorando rapidamente. De fato, nos três primeiros meses de 2022 tivemos um forte crescimento, subindo 1,3% em relação ao bom último trimestre de 2021. Se esse ritmo tivesse se mantido, o crescimento do Brasil no ano passado seria pra mais de 5%. O que explica esse alto percentual são os resquícios da recuperação pós abertura (em 2021) e as medidas eleitoreiras tomadas por Bolsonaro já no começo de 2022, ano do pleito presidencial.

Já no segundo trimestre de 2022, vimos uma desaceleração do crescimento, que ficou em 0,9% sobre o trimestre anterior. Nesse momento, já preocupado, Bolsonaro anunciou novas medidas eleitoreiras. Por sua vez, no terceiro trimestre de 2022 a coisa piorou ainda mais. O crescimento desacelerou para míseros 0,3%, mesmo Bolsonaro adotando medidas desesperadas (até ilegais) para se reeleger. Por fim, nos três últimos meses de 2022 a economia brasileira encolheu, decresceu, reduziu de tamanho em 0,2% quando comparada com o trimestre anterior.

A análise setorial mostra que houve uma grande contribuição dos Serviços no PIB total brasileiro. No conjunto, o setor cresceu 4,2% entre 2021 e 2022. No caso da Indústria Geral, o crescimento foi de 1,6%. Entretanto, recortando por tipo de indústria, vemos comportamentos divergentes. As atividades extrativas e da indústria de transformação decresceram 1,7% e 0,3% no período, respectivamente. O que puxou a indústria geral para cima foram as atividades de Eletricidade e gás, água e esgoto (10,1%) e a Construção civil (6,9%). Outro grande setor que freou o crescimento do Brasil foi a Agropecuária, que viu seu PIB diminuir 1,7% entre 2021 e 2022.

Pelo lado do consumo, as maiores contribuições para o PIB de 2022 vieram do Consumo das Famílias (aumento de 4,3% em relação a 2021) e do comércio externo, com o forte aumento das Exportações (5,5%) e o fraco crescimento das Importações (0,8%). Já o Consumo do Governo cresceu apenas 1,5% em 2022, sendo os Investimentos a conta de pior desempenho, crescendo míseros 0,9% no período.

Como afirmei no título da análise, esse era um resultado já esperado pelos analistas do “mercado”. Todos sabiam que as medidas de Bolsonaro teriam efeito positivo rápido, mas de curto prazo. De longo prazo essas medidas deixaram apenas o custo, que está sendo pago pelo atual governo.

Para além do óbvio, feito aqui nesta análise e que sempre é feito nos noticiários oficiais, certamente o caro leitor está esperando uma análise mais aprofundada desses dados apresentados. Garanto que isto será feito nas próximas semanas, pois o espaço aqui é limitado. Mas, posso adiantar alguns elementos que devem ser levados em conta: em que fase do seu movimento cíclico a economia mundial está? Em que fase do ciclo o Brasil está? Quais foram os gatilhos para a crise que agora já atinge a economia mundial e a brasileira? Por que as medidas de Bolsonaro no ano passado não tiveram um impacto maior? E, a partir das respostas, o que esperar para o Brasil em 2023?

Aguardem as cenas dos próximos capítulos...


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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segunda-feira, 6 de março de 2023

Para o BC, contra a crise... os juros

Semana 20 a 26 de fevereiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Começo desculpando-me pela ausência durante estas semanas. Embora não tenha escrito as Análises acompanhei à distância as reuniões do Grupo de Análise de Conjuntura, graças à internet. Estive fora do país por razões familiares. Acabando de chegar integro-me totalmente às atividades.

De fora pude observar o desgaste que o desastroso governo passado causou à imagem do país. Tive muita vergonha e dificuldade para explicar como foi possível a eleição de tal monstruosidade e como ele conseguiu manter-se no poder durante os quatro anos. Todos esperam agora, com ansiedade, que o novo presidente consiga conduzir o país de volta aos trilhos e recupere o prestígio que já havia conseguido.

De volta ao batente e restabelecendo o contato com a dura realidade começo constatando a justeza de nossas análises anteriores. As últimas Análises do Professor Lucas Milanez discutiram muito bem o problema dos juros no país e a independência do Banco Central (BC). Este é o assunto da atualidade e certamente ainda voltaremos a abordá-lo. A semana passada, foi pobre de notícias. Afinal os analistas e jornalistas também gostam do carnaval. Apesar disto não se pode omitir alguns sintomas da crise que, como temos afirmado aqui, aproxima-se apesar de todos os esforços eleitoreiros que resultaram em derrame de bilhões de reais na economia, na vã tentativa de ganhar as eleições. Na verdade, serviu para adiar um pouco o avanço do fenômeno empurrando-o para depois do pleito. Mas, como sabemos, as medidas de política econômica não podem abolir as leis econômicas, mas apenas interferir na sua ação acelerando ou retardando seus efeitos. Agora temos o resultado.

O Boletim Macro da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), na sua edição de fevereiro, aponta que a atividade econômica vem desacelerando e a economia está perdendo fôlego. O Boletim aponta como causas a política monetária restritiva do BC e a desaceleração global. Novamente a questão dos juros. Observam-se o arrefecimento da demanda, o aumento dos estoques e a falta de insumos. Os índices de confiança empresarial (ICE) e do consumidor (ICC) continuam em queda. As famílias reprimem o consumo diante do endividamento e insegurança e, sem a pressão da demanda, os empresários reduzem os investimentos e as contratações. As sondagens da FGV Ibre sobre o mercado de trabalho mostram que 41,3% da população maior de 14 anos admitia insegurança sobre o trabalho no final de 2022.

Confirmando estas preocupações o IBGE divulgou os dados para a economia em 2022. Segundo este instituto o Produto Interno Bruto (PIB) teve um crescimento real de 2,2%, com os serviços crescendo 4,2%, a Indústria apenas 1,6% e a agropecuária encolhendo -1,7%. A queda da indústria de transformação foi de -0,3%. Quando se observa a evolução ao longo dos trimestres a situação torna-se mais preocupante pois fica evidente a progressiva desaceleração da economia. No quarto trimestre do ano, o PIB decresceu -0,2% e a Indústria -0,3%. O PIB vinha caindo desde o começo do ano passando de 1,3% de crescimento, no primeiro trimestre, para 0,9% no segundo e 0,3% no terceiro. O quarto foi finalmente negativo, ou seja, a economia encolheu. Começamos o ano com a economia em desaceleração contrariando todas as declarações do então sinistro da economia, o boquirroto Paulo Guedes, agora recolhido a sua insignificância e certamente fazendo render o milhões que ele surripiou utilizando-se de sua posição privilegiada de ministro.

 Mesmo com este quadro de desaceleração e pessimismo o BC manteve-se irredutível com sua política de juros altos. Este é o remédio utilizado para uma inflação provocada por um excesso de demanda. O raciocínio é elementar: quando muita gente compra os preços sobem. Esta é a única teoria que o BC e seus economistas conhecem. Para estes diretores esta é a única causa da inflação. Eles rezam pela mesma bíblia que é a adotada pelas escolas de economias.  É uma questão de demência ideológica fanática. E vão continuar a assim proceder mesmo indo a economia para o brejo.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Nertan Alves, Maria Cecília Fernandes.

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sexta-feira, 3 de março de 2023

O Banco Central está errado, e não é de hoje...

Semana de 13 a 19 de fevereiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Encerrando uma sequência de três semanas abordando o mesmo tema, hoje vou tratar de uma questão que está no debate atual, mas não é uma novidade: o “erro” do Banco Central do Brasil no combate à inflação. Desde que começou sua atual política de juros, em 17 de março de 2021, o BC tem sofrido severas críticas de alguns acadêmicos e analistas que perceberam, desde então, a ineficácia dessa medida. Até aquele momento, a taxa Selic estava em 2% ao ano. Em 16 de março de 2022, um ano depois, a Selic já estava em 11,75% a.a.

Quando o BC iniciou a escalada dos juros, a pandemia de Covid-19 já estava sendo combatida pelas diversas vacinas disponíveis. Porém, ainda não o suficiente para se organizarem as cadeias produtivas de diversos ramos ao redor do planeta. Faltavam componentes e insumos para setores específicos. Com isto, faltaram alguns produtos no mercado mundial e seus preços subiram.

Soma-se a isso o fato de que, também em 2021, houve a reabertura da maioria dos países, a retomada de algumas atividades econômicas e, com isso, maior especulação. Resultado: tivemos uma forte elevação nos preços de algumas mercadorias que o mundo todo usa e, por isso, têm seu preço definido pelo mercado mundial. Essas mercadorias são as famosas commodities e, basicamente, são produtos dos setores alimentícios, metais e combustíveis fósseis. Para o mundo todo, 2021 foi um ano de recuperação das perdas econômicas vividas em 2020. O mundo cresceu 6%, o conjunto das economias mais ricas cresceu 5,2%, o das emergentes cresceu 6,6% e o Brasil, apenas 4,6%.

Para piorar nossa situação, em 2021 o centro-sul brasileiro passou pela pior seca em 91 anos. Com isso, alguns produtos da agropecuária ficaram ainda mais caros. Por outro lado, como a matriz energética brasileira é majoritariamente hidroelétrica, faltou água para produzir energia. Com isso, inúmeras termoelétricas, que são mais caras e mais poluentes, foram ligadas. O resultado veio na conta de energia, que subiu.

Resumidamente, a política de juros do BC em 2021 estava errada. Tudo bem que a inflação medida pelo IPCA naquele ano foi de 10,1% e várias categorias de produtos tiveram seus preços elevados, mas a política de aumento de juros foi intensa demais. E o descalabro está aqui: subir os juros é “indicado” no combate à inflação quando esta é causada por excesso generalizado de demanda sobre a oferta. Este, nem de longe, era o caso brasileiro. A nossa inflação era, majoritariamente, de “custos”.

Mas, com o passar de 2022, será que a política monetária se tornou certa?

Quase um ano depois do começo da elevação dos juros, no final de fevereiro de 2022, começou um conflito que dura até hoje: a Guerra da Ucrânia. Com isto, devido à participação da Rússia e da Ucrânia no mercado de petróleo e derivados, houve uma escalada ainda maior nos preços dos combustíveis. Foi nesse período que a gasolina chegou a R$ 7,50 em alguns lugares do Brasil. Claro, a inflação deu uma acelerada, mas logo foi controlada. Não pelos juros. Na verdade, tanto os preços internacionais cederam, quanto o desespero do finado Bolsonaro o fez intervir no ICMS sobre os combustíveis, energia e outros bens. No fim do ano de 2022, o IPCA fechou em 5,78%. Os grandes “vilões” foram Alimentos e Bebidas (contribuição de 2,47%) e Saúde e cuidados pessoais (1,42%).

Se o IPCA cedeu e se concentrou em alguns tipos de produtos, o que teria motivado o BC a elevar a Selic para 13,75% em agosto de 2022? A justificativa certamente não está na atividade econômica. Segundo o IBGE, a economia nacional cresceu só 2,9% em 2022. Há quem diga que a manutenção da atual política monetária é para “dar sinais ao mercado” de que o BC é forte. Obviamente, isto não é justificativa “técnica”.

Em suma, o que temos chamado a atenção não é meramente um “erro” de política econômica, mas uma deliberada tentativa de tutela de um governo que propõe outras políticas que vão de encontro aos interesses dos que são representados pelo BC (que é, sim, um lócus de disputa econômica e, portanto, política). Retomando ao primeiro dos três textos que aqui encerro, pergunto novamente: quem deve pautar a economia brasileira, o BC, que representa o sistema financeiro, ou Lula, que representa mais de 60 milhões de votos?


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Por que os juros importam tanto?

Semana de 06 a 12 de fevereiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Novamente, a presente análise de conjuntura vai tratar dos juros. O motivo é que o tema ainda está nos debates e noticiários políticos e econômicos. Desta vez, o foco que será dado aqui é o papel dos juros em uma economia como a nossa: capitalista e atrasada.

De uma forma geral, o capitalismo é um sistema em que a produção dos bens e serviços que necessitamos para sobreviver só acontece se houver também a geração de lucro. Nessa sociedade, os empresários são as únicas pessoas que têm as condições materiais para dar início ao processo de produção, pois detêm os recursos monetários que possibilitam a compra das forças produtivas ou tem a capacidade de adquiri-los.

Por sua vez, diversos são os ramos onde os empresários podem investir seu dinheiro: agropecuária, indústria extrativa, indústria de transformação e serviços. A decisão de aplicar o seu capital depende menos de onde (ou como) será obtido o lucro e mais de quanto será esse lucro e qual as chances de o investimento dar errado. Ou seja, para os capitalistas importa mais o aspecto quantitativo (o montante) da riqueza produzida pela humanidade do que o aspecto qualitativo (a utilidade).

Nas economias mais avançadas (aquelas onde as forças produtivas internas são baseadas em tecnologia de ponta e os sistemas comercial e financeiro são mais ramificados) há uma infinidade de possibilidades de aplicação dos recursos. Desde setores mais dinâmicos e vanguardistas até os mais tradicionais. Inclusive, devido ao poder econômico que alcançam, há maior facilidade de os empresários desses países poderem espalhar seu capital pelo mundo, buscando apenas o menor custo e, consequentemente, o maior lucro possíveis.

A situação é diferente nas economias atrasadas (aquelas que precisam do capital das economias avançadas para pôr sua própria economia em funcionamento). Em economias como a brasileira há menor diversidade nas opções de investimento. Por exemplo, não há os principais setores mais inovadores e, por isso, rentáveis. Mesmo quando alguns setores mais dinâmicos existem, eles são comandados por grandes empresas estrangeiras. Predominam nas economias atrasadas os setores tradicionais (de paradigmas tecnológicos anteriores e/ou atividades primárias), bem como os serviços. Assim, as possibilidades de investimento são menores.

Somado a isso, independentemente do país, há uma outra fonte de renda que não faz parte da dinâmica normal do mercado, mas faz parte dos interesses de aplicação dos capitalistas: o Estado. Como se sabe, o Estado pode obter dinheiro através dos tributos cobrados à população ou pode se endividar. É precisamente neste endividamento que surge uma via “alternativa” de aplicação do capital.

Voltando aos riscos associados a qualquer investimento, um empresário pode colocar seu dinheiro na produção de gado, por exemplo. Ao fazer isto, ele se expõe à possibilidade de chegada de uma doença que dizime o rebanho ou a uma intempérie que acabe com o pasto. Ao tentar desenvolver um novo remédio, uma empresa farmacêutica corre o risco de nunca encontrar uma fórmula eficaz para uma doença qualquer. Ao investir em microchips, uma empresa pode se deparar com a falta de matérias-primas para o andamento do processo.

No caso do dinheiro emprestado ao Estado, especificamente o endividamento em moeda local, a situação é muito diferente. Em última instância (o que é uma medida absolutamente extrema e indesejável), o Estado pode emitir moeda para pagar suas dívidas. Antes disso, como temos visto desde o Plano Real, os diversos governos se esforçaram em garantir o pagamento dos juros da dívida pública federal. É muito comum vermos os famosos contingenciamentos no orçamento para garantir o superávit primário (ou a redução do déficit). Até as verbas para educação e saúde já foram reduzidas.

Voltando ao montante de lucro que desejam ganhar, ao perceberem que os juros pagos pelo Estado são suficientemente altos, os empresários que estariam cogitando investir em fábricas, em tecnologia, em inovação, em pesquisa etc. deixam de aplicar o dinheiro no setor produtivo e passam a aplicar em títulos que estejam atrelados aos juros (que pagam mais e têm menos risco). Com isso a economia fica estagnada, o desemprego se mantém, a renda cai, a inovação e o desenvolvimento cessam e a economia fica em crise. Apenas os “investidores” ganham.

Eis um dos problemas de mantermos os juros altos.


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Quem deve pautar a economia brasileira?

Semana de 30 de janeiro a 05 de fevereiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Passado o primeiro mês de governo, que foi perturbado por uma tentativa fracassada de Golpe de Estado, o presidente Lula pode voltar suas forças à prometida retomada da atividade econômica. Porém, como temos acompanhado, não é de hoje que há uma tentativa de tutela das propostas divulgadas (oficiais, oficiosas e inventadas).

O mais novo capítulo dessa história está sendo escrito agora, depois da manutenção da taxa Selic em 13,75% e da posterior declaração oficial do Copom. Nela, o Comitê tentou pautar a política fiscal (instrumento operado pelo Ministério da Fazenda) a partir da política monetária (instrumento operado pelo Banco Central). O problema é que há uma incompatibilidade momentânea entre os interesses defendidos pelo Banco Central (BC), que quer manter a Selic alta, e pelo Governo Federal, que quer baixar os juros e estimular a economia. Mas, por que há essa disputa? Quem está certo?

Desde 2019, no governo Bolsonaro, o BC goza de independência formal na busca daquilo que é estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional, em especial, o controle da inflação. A pergunta que surge é: a independência é em relação ao quê? Logo respondo: essa independência se dá em relação ao Presidente do Brasil, um político eleito com a maioria dos votos da população. Em outras palavras, mesmo com o respaldo social, um político não deveria se intrometer em uma questão que seria, supostamente, técnica.

O argumento por trás disso é o seguinte: há um conjunto de variáveis macroeconômicas que dependem das expectativas dos agentes econômicos em relação aos preços (estes seriam os grandes guias das decisões das pessoas físicas e jurídicas). Através do uso de modelos econômicos que pressupõem uma realidade que não existe, um conjunto de cálculos são feitos e são estabelecidos parâmetros tidos como desejados para as referidas variáveis macroeconômicas. A partir daí, os valores calculados se tornam os guias da política monetária e qualquer coisa que fuja disso é tida como errada. Esse é o contexto do caráter “técnico” do papel do BC: por resultar de cálculos estatísticos produzidos a partir de pressupostos matemáticos, os números que saírem dali são supostamente neutros e sem a influência de interesses ou ideologias.

Não há espaço aqui para fazer uma discussão sobre a irrealidade das hipóteses que baseiam os modelos macroeconômicos. Bem como não dá para mostrar como isto decorre de uma ideologia específica, aquela que defende cegamente o mercado. Porém, é possível ver como o “mercado” usa esses instrumentos em benefício dos seus interesses.

Pergunto ao caro leitor, o BC é uma instituição realmente livre de conexões com a população brasileira? O BC é uma entidade acima de tudo e de todos? Além disso, quem são as pessoas que trabalham nessa tão nobre tarefa de exercer um trabalho tido como técnico e neutro?

O Banco Central tem uma conexão direta com uma fração muito específica e muito pequena da sociedade brasileira. Como se diz em todo começo de curso de Economia Monetária, o BC é o banco dos bancos. Em outras palavras, é a instituição responsável por organizar o sistema financeiro, basicamente. Dentre outras coisas, o BC deve criar regras e fiscalizar a ação dos empresários do ramo. Além disso, para atingir determinada meta de inflação, o BC utiliza como principal (quase-único) instrumento a taxa básica de juros. Por um lado, a taxa de juros determina o quanto os bancos ganham. Por outro, ao perseguir a meta de inflação (e outras metas), o BC consulta o “mercado” e leva em consideração suas expectativas (através do Boletim Focus). Ou seja, a ação do BC é independente de um presidente eleito, mas depende daquilo que o “mercado” diz. Para piorar, frequentemente os diretores e presidentes do BC são pessoas que trabalharam/prestaram consultoria a empresas do setor financeiro.

A independência do BC nunca foi outra coisa senão a entrega do galinheiro à raposa. Cedo ou tarde o conflito de interesses que vemos hoje surgiria. Porém, não há dúvidas que um lado está errado. É imoral que um projeto escolhido por mais de 60 milhões de pessoas esteja sendo atrapalhado por meia dúzia de banqueiros. Os representantes do povo é quem devem conduzir nossa política econômica, não o “mercado”.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Diminuem as estimativas de recessão mundial

Semana 23 a 29 de janeiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A histeria da guerra da Ucrânia continua crescendo. O palhaço Zelensky, travestido de presidente, obediente aos comandos do Pentágono, sedento de sangue, continua pedindo mais armas, e os velhos caquéticos generais da OTAN, babando de ódio contra a Rússia, prometem atender aos pedidos. Agora falam em tanques mais modernos a serem enviados pelos alemães, ingleses e americanos, além de misseis e artilharia. Mas ainda é pouco. São bilhões de dólares sendo queimados na guerra.

As despesas com armas começam a pesar nos orçamentos dos países da OTAN, aumentando seu endividamento. O teto dos EUA para endividamento já estourou e o governo está sendo forçado a pedir ao parlamento um crédito extraordinário. Os problemas das fontes de energia estão longe de serem resolvidos. A Rússia passou a vender seu gás e petróleo para a China e outros países da Ásia e do Pacífico. As trocas comerciais e os laços econômicos entre estes países se estreitaram. Até o Brasil sai ganhando com estas mudanças nos fluxos econômicos mundiais, coisa que o governo Lula parece disposto a explorar. Aliás, são intensas as movimentações do governo neste sentido, relançando o Brasil no universo das nações, em busca dos espaços perdidos com a estupidez do governo anterior.

A situação internacional é que não tem dado grande ajuda. Apesar disto as consultorias e órgãos internacionais melhoraram um pouco seus prognósticos para o crescimento do PIB mundial. Agora reduziram os prognósticos de recessão na União Europeia e fala-se em crescimento de 0,1% para este ano. Para os Estados Unidos, no entanto, as perspectivas continuam de recessão. A “Conference Board”, por exemplo, calcula índices antecedentes que continuam a apontar a desaceleração da economia. Os ânimos estão mais otimistas, porém, diante da esperança de que a China, apesar da abertura e do fim do programa covid zero, consiga controlar a pandemia e retomar o crescimento. 

Surgem assim esperanças de que a economia mundial não entre em recessão neste ano, embora tenha crescimento muito baixo. A nova estrela que surge para melhorar os humores é a Índia que já está sendo apontada como o novo motor da economia mundial, graças à sua população de 1,417 bilhão de habitantes (maior que a da China). Acrescente-se que é uma população jovem, pois mais de 50% dela tem menos de 30 anos.

Resumindo a semana, as notícias econômicas aparecem um pouco melhores, mas não o suficiente para elevar os prognósticos para a economia local. O crescimento por cá continua a ser estimado entre 0,5% e 0,8% para este ano.

Apesar disso o Copom na sua reunião de quarta-feira, deverá manter a Selic em 13,75%, continuando a mais elevada do mundo. O argumento é o mesmo: a inflação continua acima do topo da meta.  Os diretores do nosso Banco Central, no seu fanatismo ideológico, não conseguem escutar nem os conselhos dos seus grandes mestres Lara Resende e Joseph Stiglitz. Não conseguem perceber que taxa de juros elevadas encarecem o capital, dificultam os investimentos e, consequentemente, prejudicam a recuperação das economias. Os juros elevados favorecem o capital financeiro, os especuladores e prejudicam o capital produtivo. Não é por outra razão que entidades como a CNI e a Fiesp tanto reclamam. Por que o capital produtivo vai investir se a maior parte de seus lucros serão drenados para o pagamento dos juros?

Outro aspecto a ser considerado é o aumento do custo da dívida para o Tesouro. Em 2020 este custo representou 7,15% do PIB; em 2021, representou 8,9% do PIB e em 2022, 10,8%. Considere-se que os títulos públicos indexados à Selic representam 40% do total emitido. Com esta elevação da Selic, a dívida pública subiu de R$ 6,9 trilhões para 7,6 trilhões, comprometendo 50% da receita. Foram pagos de juros aos rentistas um montante superior à soma dos orçamentos dos ministérios da Saúde, Educação, Previdência, Ciência e Tecnologia e Segurança. Mas o BC, em sua demência “autônoma”, acha que pode reestruturar a economia mundial com a sua taxa Selic. Onde iremos parar?


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Alves, Maria Cecília Fernandes.

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