sexta-feira, 1 de março de 2024

Apesar de tudo o país vai para a frente

Semana 19 a 25 de fevereiro de 2024

  

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

As aves agourentas estão de crista baixa. O Banco Central (BC) divulgou os números do IBC-Br, Indice de Atividade Econômica do Banco Central, para o mês de dezembro, em relação a novembro, e para o ano todo. Mas o que é o IBC-Br?

Todos sabemos o que é o Produto Interno Bruto (PIB). Ele expressa a soma de tudo que foi produzido no país, ou seja, a produção industrial, agrícola e os serviços. Apesar das reservas que temos a este dado, devido à metodologia dos cálculos, ele é o melhor indicador do estado da economia de um país e serve de comparação entre os países, pois esta metodologia é utilizada por todos. No Brasil, temos um outro indicador, que serve de prévia para o PIB: o IBC-Br, que é calculado pelo Banco Central. Geralmente, há alguma diferença entre os dois indicadores, mas é sempre pequena e por isso este último serve de indicador antecedente. Para desgosto das aves agourentas, que previram o caos com o governo Lula, o IBC-Br, para dezembro, mostrou uma alta de 0,8% e, para o ano de 2023, uma alta de 2,45%. Agora, as consultorias começam a rever apressadamente suas estimativas. O Banco Inter, por exemplo, alterou a sua de 2,9%, para 3,1%. O UBS BB, de 2,9% para 3,0%. O mesmo tem ocorrido com as previsões para 2024. Para este ano, até o Instituto Fiscal Independente (IFI), órgão do Senado Federal, reviu suas estimativas de crescimento de 1,2% para 1,6%.

Por outro lado, o Boletim Macro da FGV-Ibre mostra-se mais cauteloso. Afirma que o mercado está prevendo “um pouso suave e relativamente rápido” atribuído ao processo de desinflação e ao cenário externo. A FGV também se mostra preocupada com a meta de déficit zero para as contas públicas, uma vez que a política fiscal tem sido “expansionista” e este ano é ano de eleição. Fala ainda em “cenário desafiador” e prevê um enfraquecimento generalizado da atividade econômica. No entanto, no comércio o número de estabelecimentos cresceu de 2,33 milhões para 2,52 milhões, crescimento considerado modesto.

Como se explica este crescimento da economia? Temos falado que estamos na fase de crise do ciclo econômico e que isto dificulta os planos do governo de fazer o país crescer. É aqui que temos de levar em consideração os efeitos da política econômica. A primeira coisa a destacar é o funcionamento do Estado. Estamos passando de um funcionamento zero para uma ação permanente dos órgãos do Estado. Isto significa mais compras, mais pagamentos, mais atividades que lançam dinheiro na economia. Temos ainda a queda dos juros, que facilita o crédito, e a queda da inadimplência. Os ritmos da inflação igualmente estão se reduzindo. Lembremos ainda a PEC da transição, que permitiu o início do governo e a cobertura dos rombos do orçamento deixados pelo governo anterior. Há ainda um outro fator, que inicialmente era considerado como desastre, mas agora mostra seu lado positivo: o não pagamento dos precatórios, adiado pelo desgoverno anterior. R$92,4 bilhões deixaram de ser pagos em 2023. Desse montante, o governo Lula resolveu pagar R$30,1 bilhões logo agora em fevereiro. A questão é que este pagamento está fora dos limites do teto de gastos e torna-se um forte estímulo, ao injetar este volume de dinheiro na economia. Para irritar ainda mais a aves agourentas do bolsonarismo, a arrecadação federal de impostos alcançou R$280 bilhões, em janeiro, o que significa uma alta real de 6,6% em relação a igual mês de 2023. Este aumento é atribuído à taxação dos fundos exclusivos, ao ajuste das declarações de IRPJ e CSLL das empresas, ao aumento da massa salarial de 7,2%, que provocou um aumento das receitas previdenciárias de 7%, e a alta do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) de rendimentos do trabalho, que cresceu 8,7%.

Tudo isto são fatos que os mala-e-feios reunidos aos gritos histéricos na avenida Paulista não conseguem apagar. É lamentável que uma parcela da população ainda se deixe levar por esta histeria ideológica que, apesar de todo o barulho que consegue fazer, não está conseguindo impedir o país de continuar seu caminho para a frente.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Paola Arruda e Valentine Moura.

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Atraso tecnológico: mais um dilema para a Nova Indústria Brasil

Semana de 12 a 18 de fevereiro de 2024

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

O carnaval acabou e a semana passada sequer teve três dias úteis. Normalmente, pouca coisa muda na economia brasileira durante tais festejos. Por isso, seguiremos a série de textos sobre a política industrial chamada de Nova Indústria Brasil (NIB). Hoje, falaremos do chamado “gap” ou “hiato” tecnológico.

Termos muito utilizados no “economês”, o “gap” e o “hiato” são duas palavras usadas para expressar a mesma coisa: a diferença entre o valor real de uma variável e o seu valor ideal (previsto, estimado ou considerado de excelência). No caso da tecnologia, os termos “gap” e “hiato” servem para expressar o diferencial entre o nível de desenvolvimento tecnológico alcançado por um país e os padrões alcançados pelas economias mais avançadas. Quanto maior o hiato (ou gap), maior o atraso do país em questão.

Há diversas formas de mensurar o hiato tecnológico, desde a participação dos setores de média e alta tecnologia no PIB, no emprego, na renda, nas exportações e na P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), até o número de patentes registradas e inovações implementadas a cada ano. Disto podemos deduzir: os países que já dispõem de infraestrutura técnica-científica-produtiva avançada são aqueles que lideram o desenvolvimento industrial mundial.

No capitalismo, a pesquisadora Carlota Perez apontou cinco grandes revoluções tecnológicas que mudaram o curso da História e criaram novos paradigmas: Revolução Industrial; Era do vapor e ferrovias; Era do aço e engenharia pesada; Era do petróleo, automóveis e produção em massa; e Era da informática e telecomunicações. Dessas, o Brasil internalizou em seu território a estrutura produtiva das quatro primeiras, mas de forma muito desigual, dependente e descompassada. Só não internalizou a estrutura produtiva capaz de garantir a reprodução das tecnologias da informação e da comunicação (TIC). E isto é um grave problema.

Em todas as Eras, por mais que mudassem as tecnologias líderes, os produtos das tecnologias antigas eram incorporados ou “reinventados” a partir das novas. Inovação também é isso, fazer a mesma coisa, só que diferente. Por exemplo, mesmo com a Era dos automóveis, uma parte significativa dos transportes continuou a ocorrer em navios e trens. Com o advento da Era da informação foi a mesma coisa: colheitadeiras à diesel passaram a trabalhar sem a necessidade de motoristas, pois começaram a ser guiadas por redes móveis e GPS.

Por sua vez, tudo leva a crer que o próximo paradigma tecnológico está ligado à “economia verde” e às suas aplicações. Por exemplo, o transporte de cargas e pessoas ainda vai existir de maneira muito parecida com o que temos hoje. A diferença é que os motores à combustão serão substituídos por elétricos, e os motoristas, trocados pelos computadores. Enquanto isso, os recursos renováveis certamente se tornarão a base da geração de energia. Hoje, cerca de 80% de toda energia que move o mundo vem do petróleo e derivados, do carvão e do gás natural.

Como já vimos, para ter e desenvolver algo ligado aos novos paradigmas, é necessário ter know-how, ou seja, acumular elementos da infraestrutura técnico-científica-produtiva, baseada em tecnologias de ponta. O problema é que o Brasil tem um hiato tecnológico elevado, o que limita nosso crescimento de curto prazo.

Em primeiro lugar, o Brasil viu sua indústria definhar nos últimos 30 anos, através daquilo que chamamos de desindustrialização. Em segundo, essa indústria não deu o passo seguinte na implementação de novas fábricas produtoras de máquinas para outras fábricas. Isso é ainda pior com aquelas que fornecem o maquinário produtor das TIC. Em terceiro, vimos uma redução brutal das verbas públicas destinadas à pesquisa e à inovação, em especial após o Golpe de 2016. Sem falar que, em 2022, batemos recorde na “fuga de cérebros” para o exterior.

Diante do que foi levantado, alguns problemas se apresentam de maneira urgente: como realizar a transição de uma estrutura produtiva atrasada para uma (relativamente) avançada? Será possível “queimar” etapas e chegar à economia verde sem termos sólidas bases nas TIC? Como convencer nossa burguesia de que isso pode ser rentável pra ela? Como outros países mais avançados podem ser aproveitados (ou aproveitadores) nesse processo?

Resumindo, para o Brasil avançar, é preciso muito planejamento e engenharia econômica, para encontrar aqueles que certamente serão os gargalos da NIB. Caso contrário, continuaremos atrasados e, por isso, dependentes de empresas estrangeiras, para vermos nossa economia funcionar. Esse é outro dilema...


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Valentine de Moura, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima e Paola Arruda.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Ainda a Nova Indústria Brasil (NIB)

Semana 05 a 11 de fevereiro de 2024

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

Continua na pauta o debate sobre a Nova Indústria Brasil (NIB), divulgada em documento, semanas atrás, e de que já tratamos aqui. Como também falamos, fazia falta a elaboração de ações que orientassem a construção de uma política para a neoindustrialização do país. O Brasil já havia alcançado uma posição destacada no campo da agroindústria e como fornecedor de produtos agrícolas e minerais, as chamadas commodities. Tornou-se um dos maiores exportadores mundiais de várias delas. Avançamos em outra posição de destaque no campo do petróleo e derivados, o que foi consagrado com o convite para integrar a OPEP plus. Faz falta assumir, então, uma posição no terreno da produção industrial, onde já estivemos entre os 10 maiores do mundo. Esta posição foi sendo perdida diante da incompetência e subserviência da burguesia nacional e de sucessivos governos. Com o avanço do capitalismo e das tecnologias na agricultura, ganhamos a atual posição de destaque no agronegócio. Há que lamentar a destruição causada nos diferentes biomas, onde a ganância se sobrepõe à racionalidade e práticas predatórias foram disseminadas, provocando danos de difícil reparação. Todos estes fenômenos transcorreram sem despertar grandes celeumas ou controvérsias. Agora a casa de marimbondos foi assanhada. E o que vem provocando tal confusão?

Uma velha discussão, há muito superada, voltou: a discussão sobre o papel do Estado na economia. Falamos disso em uma análise anterior. A discussão divide os economistas em duas correntes: os chamados ortodoxos (liberais, neoclássicos), que defendem a não intervenção do Estado na economia, e a outra corrente, os heterodoxos (keynesianos, desenvolvimentistas, marxistas), que consideram que o Estado deve ter uma função de orientação e coordenação na promoção do crescimento. A predominância dos heterodoxos no governo atual levou à publicação do documento.

Para a realização da NIB, estão destinados recursos da ordem de R$ 300 bilhões a serem gastos em 4 anos. Aí começou o berreiro. Os guardiões do equilíbrio fiscal passaram a criticar a gastança, que terá consequências no aumento do déficit do orçamento. Não se deram conta que no documento não está previsto nenhum tostão do tesouro. Os recursos virão do FNDCT, do FUST, do FAT e de captação internacional. É de notar ainda que, quando o governo reservou R$ 364 bilhões para o Plano Safra gastar em um ano, não houve qualquer protesto. Os críticos nem sequer se dão ao trabalho de olhar para o que ocorre no mundo capitalista desenvolvido neste momento de reestruturação da globalização. As políticas industriais estão dominando o mundo. Para se ter uma ideia, em muitos países desenvolvidos estão sendo praticadas políticas de industrialização e, para isto, são destinados imensos recursos. Somando-se EUA, União Europeia, Reino Unido e Japão, por exemplo, o montante atinge US$ 6,8 trilhões. E é preciso considerar as desvantagens que temos por cá, como o “custo Brasil” que atinge R$ 1,7 trilhão. Além disso, os spreads bancários aqui são de 27,4%, enquanto a média mundial é de 7,3%.

O NIB destacou 4 temas para a ação do governo: inovação, produtividade, descarbonização e exportação, tendo como elemento central a indústria. Pretende-se estimular o combate às emissões dos gases de efeito estufa, a produção de biocombustíveis, a criação de uma matriz energética mais limpa, ações em que já temos experiência.

As propostas visam a nos posicionar melhor nesta nova etapa da globalização, uma vez que já se compreendeu que não há como fugir da integração neste processo. O acirramento das tensões internacionais ameaça interromper os circuitos comerciais que passam pelo mar vermelho. Aumentam as possibilidades de generalização da guerra na região da Palestina, diante dos massacres praticados por Israel em Gaza. Tornaram-se cada vez mais usados os termos como friend-shoring, nearshoring, indicando o deslocamento das relações comerciais do Ocidente para países mais próximos e o enfraquecimento das ligações com os países asiáticos, o que é ainda mais agravado pelas tensões com a China. Torna-se necessário aproveitar o momento.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Paola Arruda, Raquel Lima e Valentine Moura.

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A economia política da “Nova Indústria Brasil”: o papel da burguesia

Semana de 29 de janeiro a 04 de fevereiro de 2024

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Para quem se interessa por economia e se preocupa com o Brasil, a política industrial lançada pelo governo Lula no fim de janeiro ainda tem muito o que render. Como vimos nas duas últimas semanas, a “Nova Indústria Brasil” tem dado o que falar. De um lado, seus apoiadores: economistas heterodoxos, a CNI, a Fiesp e demais associações patronais do setor industrial, além das principais Centrais Sindicais do país. Do outro, seus críticos: economistas ortodoxos, rentistas e colunistas zumbis (aqueles que fingem ter opinião própria, mas só reproduzem os burburinhos do “mercado”).

Para entender essa “disputa de narrativas”, é necessário entender de onde elas se originam. Como foi discutido em outro momento (leia neste link), a luta de classes nos campos político e ideológico reflete toda uma estrutura econômica, a qual é rodeada de interesses. Cada classe social é classificada e fracionada de acordo com a forma como seus integrantes se relacionam com os meios de produção (se são proprietários ou não), como participam da organização social do trabalho (como contribuem para a geração da riqueza social) e, por fim, como e do quanto se apropriam daquilo que é produzido (a forma e o montante da renda que obtém).

Os proprietários do capital se diferenciam pela forma como participam da divisão social do trabalho: industriais, comerciantes, latifundiários, banqueiros, especuladores ou aqueles que têm dinheiro suficiente para aplicar em tudo ao mesmo tempo. A política industrial, claro, beneficia diretamente os empresários e gera empregos na indústria. Contudo, o benefício não necessariamente se estende para as outras frações da burguesia.

Por exemplo, para os comerciantes, aqueles que apenas compram e revendem as mercadorias, uma política industrial pode não ser de seu interesse. O motivo é que o lucro que eles obtêm não depende da origem do produto, mas da diferença entre o preço que ele compra e o preço que ele vende. Por exemplo, se um smartfone vindo da China é mais barato do que o produzido no Brasil, claro que o comerciante revenderá o produto chinês.

O que o Estado brasileiro pode fazer? A primeira opção é: nada! Fechamos o parque industrial nacional, demitimos os trabalhadores do setor e passamos a importar todos os celulares (imagine se isso fosse aplicado a todas as atividades industriais). A segunda opção poderia ser: criar subsídios para os empresários ou então barreiras contra as importações, para que o produto nacional fique competitivo (com preços iguais aos importados). O ideal (e parece que isto será levado em consideração na “Nova Indústria Brasil”) é que essa ajuda dure até o momento em que a produção brasileira consiga evoluir e se tornar competitiva perante os produtos estrangeiros.

Para melhorar a competitividade, por sua vez, as empresas industriais precisam investir em capital produtivo e modelos de gestão mais modernos e eficientes. Isso tudo custa muito dinheiro e aí entram em cena os financiadores da industrialização. Para falar sobre isso, recorro a uma figura que sempre foi popular pelo seu pensar e jeito de se expressar: Maria da Conceição Tavares. Bem antes de os vídeos das suas aulas viralizarem nas redes sociais, a professora escreveu teses e livros mostrando como no Brasil nunca houve um sistema financeiro privado capaz de financiar a industrialização nacional. Ou seja, os bancos privados brasileiros nunca participaram de forma efetiva nos investimentos industriais, do século passado até hoje.

Este é o motivo pelo qual o BNDES sempre foi o grande financiador dos projetos industriais no Brasil. E agora vemos uma choradeira enorme por conta do retorno desse banco ao protagonismo no desenvolvimento. Mas aí a culpa não é do Estado. Caso a fração da burguesia que tem dinheiro suficiente para financiar e apostar nos projetos industriais quisesse, o BNDES nem seria acionado. Mas, como convencer nossos bilionários (“véio da Havan”, donos dos grupos Madero e Riachuelo, banqueiros do Itaú e Safra, agroexportadores, etc.) de que é melhor produzir semicondutores, painéis solares, carros elétricos, que fazer aquilo que os tornaram muito ricos?

Na prática, por si só, eles não tomarão essa decisão. Se não for por meio do Estado, nada acontecerá de diferente. O motivo é o senso de sobrevivência dos empresários: para que concorrer em setores de alta tecnologia dominados por grandes empresas multinacionais, se seus negócios estão indo muito bem? Por que se arriscar enfrentando o capital internacional, se é mais rentável se subordinar a eles?

Essas questões serão abordadas em outro momento. Agora, resta ver se nossa burguesia adere ao projeto. Caso contrário, nada feito...


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima e Paola Arruda.

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Uma política para a neoindustrialização

Semana 22 a 28 de janeiro de 2024

 

Nelson Rosas Ribeiro[i] 

           

Não resta dúvida de que um dos mais importantes acontecimentos da semana foi a publicação do documento intitulado a Nova Indústria Brasil (NIB). Nele está esboçada uma política industrial para o país. Estava fazendo falta. Temos sofrido com o fenômeno da desindustrialização, já há algumas décadas, sem que nenhuma reação tenha sido esboçada. A incompetência e debilidade de nossa burguesia dificilmente torná-lo-ia protagonista desta iniciativa. Seu comprometimento com o sistema financeiro, com o agronegócio e com o capital internacional a torna caudatária destes outros segmentos. Só o Estado teria a capacidade de lançar este projeto. Infelizmente, depois da deposição da Presidente Dilma, passamos por um tenebroso período de incompetência e desgovernos que paralisou o país. Com a eleição do novo governo, esta iniciativa tornou-se possível. Esperamos, agora, que os setores empresariais deem sua colaboração. Por enquanto, apenas a CNI declarou apoio. A poderosa Fiesp mostra-se reticente. Consultorias e economistas ligados ao setor financeiro e a conhecidos centros de pesquisa e universidades já vieram a campo para desferir ataques ideológicos ao projeto.

Alguns órgãos da imprensa entraram no combate. O problema é que mexeram com uma grande questão teórica que divide os economistas em duas grandes correntes. É um debate antigo sobre o papel do Estado na economia. Os chamados ortodoxos (liberais, neoclássicos) defendem a não intervenção do Estado nas questões econômicas, pois, as forças do mercado, espontaneamente, orientam os agentes econômicos, levando ao equilíbrio na utilização dos fatores de produção. A outra corrente, os heterodoxos (keynesianos, desenvolvimentistas, marxistas), consideram que o Estado deve ter uma função de orientação e coordenação na utilização dos fatores econômicos e que o mercado, por si só, não consegue conduzir um processo de desenvolvimento equilibrado. No governo atual, predominam os economistas heterodoxos que, finalmente, saíram a campo para aplicar suas teorias. Curiosamente, desta vez estão recebendo um grande suporte da situação internacional e das políticas econômicas, que estão sendo praticadas em muitos países desenvolvidos.

Temos destacado, em análises anteriores, que a atual situação econômica do mundo atravessa um momento muito delicado. Fenômenos de ordem não econômica têm interferido nas relações entre os países e contribuído para desorganizar a produção. Para não falar no aquecimento global, com as catástrofes que vem provocando, já mencionamos a pandemia do Covid-19 como um dos fatores de grande impacto. Ainda não bem superado este impacto, outro acontecimento, igualmente não econômico, abalou o panorama europeu: a guerra Rússia Ucrânia. Estes dois fenômenos atingiram em cheio o processo de recuperação da economia mundial, que vinha saindo de mais uma crise cíclica. Houve uma ruptura geral dos processos produtivos, das cadeias de valor, das comunicações, do comércio mundial, das rotas de navegação, do fornecimento de matérias primas e insumos os mais diversos. O processo de globalização, que vinha atravessando uma fase de reestruturação, sofreu um grande impacto. Agora, como se não fosse já suficiente, a nova guerra Israel Gaza voltou a levar as relações internacionais a um ponto ainda mais elevado de tensão. 

O envolvimento dos EUA e da União Europeia no massacre brutal, que ocorre em Gaza e no resto da Palestina, tem levado à revolta e reação de várias organizações árabes fazendo surgir o perigo de generalização da guerra em toda a área. A navegação pelo Mar Vermelho já começa a ser atingida pelos ataques efetuados pelos Houtis do Iêmen, que passou a ser bombardeado por ingleses e americanos. O sul do Líbano já está em estado de guerra e os ataques chegaram à Jordânia. Surge a ameaça de fechamento total da área, com o bloqueio do Canal de Suez, e o consequente deslocamento da navegação para o contorno do sul da África, o que acarretará o aumento dos fretes e do tempo de viagem dos navios. Se o processo de globalização vinha sofrendo uma reestruturação, agora a situação agravou-se ainda mais.

Tornam-se, portanto, urgentes as medidas que possam buscar soluções, para a nossa industrialização, a fim de que possamos nos colocar em posição mais vantajosa dentro deste processo de grande ebulição na conjuntura mundial.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima, Maria Vitória Freitas, Brenda Tiburtino e Paola Arruda.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A necessária “Nova Indústria Brasil”: um prelúdio...

Semana de 15 a 21 de janeiro de 2024

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Esta semana, enquanto me preparava para escrever sobre as notícias econômicas da semana passada, o governo brasileiro veio e lançou uma política industrial chamada de “Nova Indústria Brasil” (NIB). Ela tem sido vista como uma bala de prata contra a desindustrialização brasileira. Mas, antes de entendermos o contexto dessa medida, vamos repercutir duas notícias da semana passada.

A primeira vem da Alemanha, país onde a economia diminuiu em 0,3%, puxada pela queda nas exportações, nas vendas internas e na produção industrial. Com isso, o país deve ser o de pior performance dentre os grandes em 2023. Além disso, como maior economia europeia, isso também puxou para baixo os dados da União Europeia, que em novembro chegou a três meses seguidos de queda na produção industrial.

A China foi um caso à parte, pois teve um crescimento de 5,2% em 2023. Esse dado é melhor que o esperado pelo governo do país, mas ainda abaixo da média histórica. Segundo os analistas ocidentais, o principal problema está no mercado imobiliário chinês, que está em recessão há três anos. Além disso, devido às sanções e à desaceleração da economia mundial, as exportações chinesas caíram pela primeira vez desde 2016.

Apesar dos indicativos de que a economia dos EUA não está tão mal, os dados internacionais confirmam que 2023 foi um ano de “pouso suave” e isso deve se repetir no começo de 2024. É justamente isto que torna a “Nova Indústria Brasil” necessária neste atual momento.

Não é de hoje que temos destacado a necessidade de o Brasil adotar uma política industrial ampla e contundente. Isso não acontece desde os anos 1980, quando se iniciou a Era da Globalização e a industrialização mundial passou por uma profunda transformação. Agora, mais de 40 anos depois, a organização da produção de mercadorias em escala internacional está sofrendo novas modificações. Isso se dá não apenas em relação ao aspecto geográfico (antes concentrado na Ásia), mas também em relação às tecnologias que guiam o desenvolvimento tecnológico (antes a informação e comunicação). Essa é uma janela de oportunidade que o Brasil deve aproveitar.

O momento é tão crítico que até a vertente da literatura econômica que via a política industrial com maus olhos passou a admiti-la, sob certas condições. Isso pode ser visto em alguns pouquíssimos artigos de jornais que circulam no Brasil, mas, principalmente, nos meios científicos internacionais. É tanto que até o Fundo Monetário Internacional publicou recentemente um texto de lançamento do “Novo Observatório de Política Industrial”, em que serão reunidos dados e documentos sobre o tema.

De acordo com o texto, as medidas adotadas por China, União Europeia e Estados Unidos corresponderam a 48% do total em 2023. As medidas mais adotadas foram os subsídios concedidos às empresas, mas também tiveram restrições às importações e às exportações. Já as motivações variaram entre questões estratégicas de competitividade, mudanças climáticas, segurança nacional e fatores geopolíticos.

O Brasil só agora entrou na disputa. Isto é sintomático, pois representa bem nosso atraso em relação aos países mais avançados, quando o assunto é economia e tecnologia. Reflete bem a nossa própria burguesia e nossos “liberais”, que em grande parte se opõem ferreamente à “intervenção” estatal na economia (o que pode ser visto pelas “opiniões” veiculadas nos maiores meios de comunicação). E isso pode ser um problema.

Como se viu, a Confederação Nacional da Indústria aprovou a “Nova Indústria Brasil”. Não é por menos, pois ela será a maior beneficiada pelas medidas e foi bastante ouvida na elaboração da proposta. A questão é que os industriais brasileiros há muito tempo não têm a mesma força política e, principalmente, econômica que já tiveram. Isso pode pôr em xeque a efetividade das medidas, pois a grandeza da proposta requer participação, também, do Estado e do setor bancário-financeiro. Se o objetivo é garantir o desenvolvimento industrial sob os moldes capitalistas no país, será necessária a participação ativa de todos nesse processo.

É esperar para ver até onde essa política vai na prática, porque na teoria ela parece muito boa. Em breve falaremos mais dela.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima e Paola Arruda.

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O “pouso suave” em ano de instabilidade e eleição

Semana 08 a 14 de janeiro de 2024

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

Somos forçados a começar esta análise ainda falando no fascista Milei. Ele faz questão de manter-se nas manchetes. Infelizmente ainda há pessoas e órgãos de imprensa dando palanque ao canalha, armado em salvador, enquanto ele manda o “Carajo” para o seu próprio povo. Para vergonha geral, o mundo foi obrigado a ouvir, no Fórum de Davos, os impropérios proferidos pelo marginal, que, apesar de economista, não é capaz de distinguir e caracterizar as diferentes correntes econômicas e iguala Keynes, comunismo, socialismo, social-democracia, democracia cristã etc., como se fossem a mesma teoria. Só o grande pensador Milei tem a verdade capaz de salvar a humanidade. E, claro, terminou o seu discurso com um sonoro “carajo”. Coitados dos argentinos que já começam a sentir o tamanho do “carajo” que lhes foi endereçado.

Mas, o Fórum de Davos abriu espaço para outro palhaço, fantoche do belicismo ocidental, o ator Zelensky. Embora de mãos vazias (não conseguiu verbas para continuar o massacre do seu próprio povo), foi cortejado e aplaudido. Apenas o Netanyahu ainda não conseguiu audiência, apesar de todos os crimes que os sionistas vêm cometendo, em Gaza, e das declarações que tem feito contra todas as decisões da ONU, sobre o território. A consequência disto é o agravamento da situação em toda a região, com a expansão do conflito aos países vizinhos. Israel já ameaça a invasão do Líbano, em resposta aos ataques de mísseis que tem recebido de grupos aliados ao Hamas. No mar Vermelho, os rebeldes no Iêmen têm atacado navios, ameaçando a circulação comercial na área, o que já provocou ataques dos ingleses e americanos a instalações no país. O próprio Irã lançou mísseis para os territórios do Iraque e da Síria, alegando atingir alvos militares inimigos. Todo este panorama ameaça as rotas comerciais, que circulam pelo mar Vermelho e Canal de Suez, obrigando a mudança de rotas comerciais para o contorno da África. Temos, portanto, mais uma perturbação para a economia mundial que, todas as organizações internacionais reconhecem que se encontra em situação crítica e preveem para ela um “pouso suave”. O Banco Mundial, por exemplo, em seu relatório Perspectivas Econômicas Globais, prevê que, neste ano, a economia mundial crescerá apenas 2,4%, continuando seu ritmo de desaceleração, pelo terceiro ano consecutivo. A ONU faz estimativas idênticas. O Banco Mundial reconhece que o período entre 2020 e 2024 é o pior em 30 anos.

Temos de levar em consideração este panorama internacional adverso para fazer considerações sobre a nossa economia. Podemos ser atingidos pelas perturbações provocadas pelas guerras e pelo afundamento da economia argentina. O pouso suave externo vai contribuir para o nosso próprio “pouso suave”, que também já teve seu início. Não é uma questão de opinião ou vontade, é uma questão de dados e fatos. O Banco Mundial, para o Brasil, prevê um crescimento de 1,5%, para este ano de 2024. Apesar do endividamento das famílias ter caído, pela primeira vez em 4 anos, a inadimplência bateu recorde, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Isto significa que o consumo das famílias não contribuirá para o crescimento. Por outro lado, os estímulos provocados pelo aumento do salário-mínimo e pelos auxílios, como o bolsa família, perderam seu efeito estimulador.

Outro acontecimento que terá de ser enfrentado pelo governo é a substituição do presidente do Banco Central Campos Neto que, com sua política monetária restritiva, tanto prejuízo nos causou. Espera-se que o governo substitua o sabotador.

Finalmente, há que lembrar que este ano é ano de eleições municipais. Muitas serão as negociações e é preciso consciência na hora de escolher os candidatos. Nada de votar no compadre, amigo ou vizinho. A votação tem de levar em consideração o partido político do candidato. Nenhum voto para qualquer partido de direita ou do centrão. É preciso tirar o apoio que sustenta o Congresso mais reacionário e corrupto da nossa história, para que o presidente Lula possa governar. Basta de chantagens. Agora estará nas mãos dos eleitores.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima, Maria Vitoria Freitas e Paola Arruda.

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