sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Por que os juros importam tanto?

Semana de 06 a 12 de fevereiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Novamente, a presente análise de conjuntura vai tratar dos juros. O motivo é que o tema ainda está nos debates e noticiários políticos e econômicos. Desta vez, o foco que será dado aqui é o papel dos juros em uma economia como a nossa: capitalista e atrasada.

De uma forma geral, o capitalismo é um sistema em que a produção dos bens e serviços que necessitamos para sobreviver só acontece se houver também a geração de lucro. Nessa sociedade, os empresários são as únicas pessoas que têm as condições materiais para dar início ao processo de produção, pois detêm os recursos monetários que possibilitam a compra das forças produtivas ou tem a capacidade de adquiri-los.

Por sua vez, diversos são os ramos onde os empresários podem investir seu dinheiro: agropecuária, indústria extrativa, indústria de transformação e serviços. A decisão de aplicar o seu capital depende menos de onde (ou como) será obtido o lucro e mais de quanto será esse lucro e qual as chances de o investimento dar errado. Ou seja, para os capitalistas importa mais o aspecto quantitativo (o montante) da riqueza produzida pela humanidade do que o aspecto qualitativo (a utilidade).

Nas economias mais avançadas (aquelas onde as forças produtivas internas são baseadas em tecnologia de ponta e os sistemas comercial e financeiro são mais ramificados) há uma infinidade de possibilidades de aplicação dos recursos. Desde setores mais dinâmicos e vanguardistas até os mais tradicionais. Inclusive, devido ao poder econômico que alcançam, há maior facilidade de os empresários desses países poderem espalhar seu capital pelo mundo, buscando apenas o menor custo e, consequentemente, o maior lucro possíveis.

A situação é diferente nas economias atrasadas (aquelas que precisam do capital das economias avançadas para pôr sua própria economia em funcionamento). Em economias como a brasileira há menor diversidade nas opções de investimento. Por exemplo, não há os principais setores mais inovadores e, por isso, rentáveis. Mesmo quando alguns setores mais dinâmicos existem, eles são comandados por grandes empresas estrangeiras. Predominam nas economias atrasadas os setores tradicionais (de paradigmas tecnológicos anteriores e/ou atividades primárias), bem como os serviços. Assim, as possibilidades de investimento são menores.

Somado a isso, independentemente do país, há uma outra fonte de renda que não faz parte da dinâmica normal do mercado, mas faz parte dos interesses de aplicação dos capitalistas: o Estado. Como se sabe, o Estado pode obter dinheiro através dos tributos cobrados à população ou pode se endividar. É precisamente neste endividamento que surge uma via “alternativa” de aplicação do capital.

Voltando aos riscos associados a qualquer investimento, um empresário pode colocar seu dinheiro na produção de gado, por exemplo. Ao fazer isto, ele se expõe à possibilidade de chegada de uma doença que dizime o rebanho ou a uma intempérie que acabe com o pasto. Ao tentar desenvolver um novo remédio, uma empresa farmacêutica corre o risco de nunca encontrar uma fórmula eficaz para uma doença qualquer. Ao investir em microchips, uma empresa pode se deparar com a falta de matérias-primas para o andamento do processo.

No caso do dinheiro emprestado ao Estado, especificamente o endividamento em moeda local, a situação é muito diferente. Em última instância (o que é uma medida absolutamente extrema e indesejável), o Estado pode emitir moeda para pagar suas dívidas. Antes disso, como temos visto desde o Plano Real, os diversos governos se esforçaram em garantir o pagamento dos juros da dívida pública federal. É muito comum vermos os famosos contingenciamentos no orçamento para garantir o superávit primário (ou a redução do déficit). Até as verbas para educação e saúde já foram reduzidas.

Voltando ao montante de lucro que desejam ganhar, ao perceberem que os juros pagos pelo Estado são suficientemente altos, os empresários que estariam cogitando investir em fábricas, em tecnologia, em inovação, em pesquisa etc. deixam de aplicar o dinheiro no setor produtivo e passam a aplicar em títulos que estejam atrelados aos juros (que pagam mais e têm menos risco). Com isso a economia fica estagnada, o desemprego se mantém, a renda cai, a inovação e o desenvolvimento cessam e a economia fica em crise. Apenas os “investidores” ganham.

Eis um dos problemas de mantermos os juros altos.


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Quem deve pautar a economia brasileira?

Semana de 30 de janeiro a 05 de fevereiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Passado o primeiro mês de governo, que foi perturbado por uma tentativa fracassada de Golpe de Estado, o presidente Lula pode voltar suas forças à prometida retomada da atividade econômica. Porém, como temos acompanhado, não é de hoje que há uma tentativa de tutela das propostas divulgadas (oficiais, oficiosas e inventadas).

O mais novo capítulo dessa história está sendo escrito agora, depois da manutenção da taxa Selic em 13,75% e da posterior declaração oficial do Copom. Nela, o Comitê tentou pautar a política fiscal (instrumento operado pelo Ministério da Fazenda) a partir da política monetária (instrumento operado pelo Banco Central). O problema é que há uma incompatibilidade momentânea entre os interesses defendidos pelo Banco Central (BC), que quer manter a Selic alta, e pelo Governo Federal, que quer baixar os juros e estimular a economia. Mas, por que há essa disputa? Quem está certo?

Desde 2019, no governo Bolsonaro, o BC goza de independência formal na busca daquilo que é estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional, em especial, o controle da inflação. A pergunta que surge é: a independência é em relação ao quê? Logo respondo: essa independência se dá em relação ao Presidente do Brasil, um político eleito com a maioria dos votos da população. Em outras palavras, mesmo com o respaldo social, um político não deveria se intrometer em uma questão que seria, supostamente, técnica.

O argumento por trás disso é o seguinte: há um conjunto de variáveis macroeconômicas que dependem das expectativas dos agentes econômicos em relação aos preços (estes seriam os grandes guias das decisões das pessoas físicas e jurídicas). Através do uso de modelos econômicos que pressupõem uma realidade que não existe, um conjunto de cálculos são feitos e são estabelecidos parâmetros tidos como desejados para as referidas variáveis macroeconômicas. A partir daí, os valores calculados se tornam os guias da política monetária e qualquer coisa que fuja disso é tida como errada. Esse é o contexto do caráter “técnico” do papel do BC: por resultar de cálculos estatísticos produzidos a partir de pressupostos matemáticos, os números que saírem dali são supostamente neutros e sem a influência de interesses ou ideologias.

Não há espaço aqui para fazer uma discussão sobre a irrealidade das hipóteses que baseiam os modelos macroeconômicos. Bem como não dá para mostrar como isto decorre de uma ideologia específica, aquela que defende cegamente o mercado. Porém, é possível ver como o “mercado” usa esses instrumentos em benefício dos seus interesses.

Pergunto ao caro leitor, o BC é uma instituição realmente livre de conexões com a população brasileira? O BC é uma entidade acima de tudo e de todos? Além disso, quem são as pessoas que trabalham nessa tão nobre tarefa de exercer um trabalho tido como técnico e neutro?

O Banco Central tem uma conexão direta com uma fração muito específica e muito pequena da sociedade brasileira. Como se diz em todo começo de curso de Economia Monetária, o BC é o banco dos bancos. Em outras palavras, é a instituição responsável por organizar o sistema financeiro, basicamente. Dentre outras coisas, o BC deve criar regras e fiscalizar a ação dos empresários do ramo. Além disso, para atingir determinada meta de inflação, o BC utiliza como principal (quase-único) instrumento a taxa básica de juros. Por um lado, a taxa de juros determina o quanto os bancos ganham. Por outro, ao perseguir a meta de inflação (e outras metas), o BC consulta o “mercado” e leva em consideração suas expectativas (através do Boletim Focus). Ou seja, a ação do BC é independente de um presidente eleito, mas depende daquilo que o “mercado” diz. Para piorar, frequentemente os diretores e presidentes do BC são pessoas que trabalharam/prestaram consultoria a empresas do setor financeiro.

A independência do BC nunca foi outra coisa senão a entrega do galinheiro à raposa. Cedo ou tarde o conflito de interesses que vemos hoje surgiria. Porém, não há dúvidas que um lado está errado. É imoral que um projeto escolhido por mais de 60 milhões de pessoas esteja sendo atrapalhado por meia dúzia de banqueiros. Os representantes do povo é quem devem conduzir nossa política econômica, não o “mercado”.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Diminuem as estimativas de recessão mundial

Semana 23 a 29 de janeiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A histeria da guerra da Ucrânia continua crescendo. O palhaço Zelensky, travestido de presidente, obediente aos comandos do Pentágono, sedento de sangue, continua pedindo mais armas, e os velhos caquéticos generais da OTAN, babando de ódio contra a Rússia, prometem atender aos pedidos. Agora falam em tanques mais modernos a serem enviados pelos alemães, ingleses e americanos, além de misseis e artilharia. Mas ainda é pouco. São bilhões de dólares sendo queimados na guerra.

As despesas com armas começam a pesar nos orçamentos dos países da OTAN, aumentando seu endividamento. O teto dos EUA para endividamento já estourou e o governo está sendo forçado a pedir ao parlamento um crédito extraordinário. Os problemas das fontes de energia estão longe de serem resolvidos. A Rússia passou a vender seu gás e petróleo para a China e outros países da Ásia e do Pacífico. As trocas comerciais e os laços econômicos entre estes países se estreitaram. Até o Brasil sai ganhando com estas mudanças nos fluxos econômicos mundiais, coisa que o governo Lula parece disposto a explorar. Aliás, são intensas as movimentações do governo neste sentido, relançando o Brasil no universo das nações, em busca dos espaços perdidos com a estupidez do governo anterior.

A situação internacional é que não tem dado grande ajuda. Apesar disto as consultorias e órgãos internacionais melhoraram um pouco seus prognósticos para o crescimento do PIB mundial. Agora reduziram os prognósticos de recessão na União Europeia e fala-se em crescimento de 0,1% para este ano. Para os Estados Unidos, no entanto, as perspectivas continuam de recessão. A “Conference Board”, por exemplo, calcula índices antecedentes que continuam a apontar a desaceleração da economia. Os ânimos estão mais otimistas, porém, diante da esperança de que a China, apesar da abertura e do fim do programa covid zero, consiga controlar a pandemia e retomar o crescimento. 

Surgem assim esperanças de que a economia mundial não entre em recessão neste ano, embora tenha crescimento muito baixo. A nova estrela que surge para melhorar os humores é a Índia que já está sendo apontada como o novo motor da economia mundial, graças à sua população de 1,417 bilhão de habitantes (maior que a da China). Acrescente-se que é uma população jovem, pois mais de 50% dela tem menos de 30 anos.

Resumindo a semana, as notícias econômicas aparecem um pouco melhores, mas não o suficiente para elevar os prognósticos para a economia local. O crescimento por cá continua a ser estimado entre 0,5% e 0,8% para este ano.

Apesar disso o Copom na sua reunião de quarta-feira, deverá manter a Selic em 13,75%, continuando a mais elevada do mundo. O argumento é o mesmo: a inflação continua acima do topo da meta.  Os diretores do nosso Banco Central, no seu fanatismo ideológico, não conseguem escutar nem os conselhos dos seus grandes mestres Lara Resende e Joseph Stiglitz. Não conseguem perceber que taxa de juros elevadas encarecem o capital, dificultam os investimentos e, consequentemente, prejudicam a recuperação das economias. Os juros elevados favorecem o capital financeiro, os especuladores e prejudicam o capital produtivo. Não é por outra razão que entidades como a CNI e a Fiesp tanto reclamam. Por que o capital produtivo vai investir se a maior parte de seus lucros serão drenados para o pagamento dos juros?

Outro aspecto a ser considerado é o aumento do custo da dívida para o Tesouro. Em 2020 este custo representou 7,15% do PIB; em 2021, representou 8,9% do PIB e em 2022, 10,8%. Considere-se que os títulos públicos indexados à Selic representam 40% do total emitido. Com esta elevação da Selic, a dívida pública subiu de R$ 6,9 trilhões para 7,6 trilhões, comprometendo 50% da receita. Foram pagos de juros aos rentistas um montante superior à soma dos orçamentos dos ministérios da Saúde, Educação, Previdência, Ciência e Tecnologia e Segurança. Mas o BC, em sua demência “autônoma”, acha que pode reestruturar a economia mundial com a sua taxa Selic. Onde iremos parar?


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares e Nertan Alves, Maria Cecília Fernandes.

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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

“Herança maldita”, a expressão nunca foi tão adequada

Semana de 16 a 22 de janeiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Normalmente, os presidentes eleitos gozam de um período de bonança nos primeiros meses de governo. As urnas lhes conferem legitimidade suficiente para tocar uma parte das promessas feitas na campanha. Por outro lado, é mais comum ainda atribuir ao presidente anterior as dificuldades em colocar tais promessas em prática. Quando há a troca de governo, sempre se diz que ficou uma herança maldita.

Uma das formas de amenizar esse problema é escolher uma boa equipe de transição. Com ela é possível identificar as discordâncias e preparar medidas que coloquem as políticas de acordo com a nova orientação. E, sob a liderança de Geraldo Alckmin, isto foi muito bem-feito pela então equipe de transição do atual governo Lula. Tanto que inúmeras medidas ideologicamente orientadas pelo bolsonarismo foram imediatamente revogadas. Dentre tantas coisas que foram feitas no período, o que já sabemos é que o Orçamento de 2023 foi a que deu mais trabalho. Lula até precisou andar por Brasília e negociar com o Centrão antes mesmo de assumir seu terceiro mandato.

Entretanto, como temos visto nesses primeiros dias de 2023, o governo Bolsonaro não poderia ter sido pior. A primeira herança deixada resultou no ato de 8 de janeiro, não apenas pela destruição das sedes dos três poderes da república, mas pela (in)ação das forças militares. Não é de hoje que, formal ou informalmente, as forças armadas tutelam o poder civil no Brasil. Isto não vem do Golpe de 1964. Isto já está na raiz do Brasil Império e, mais ainda, na Proclamação da República (1889). Inclusive, em 1930, o fim da Velha República (do Café com Leite) se deu por meio de um golpe militar. Bolsonaro serviu para reativar esse estúpido e errôneo “sentimento” nas forças armadas brasileiras.

Por isso, nada melhor do que aproveitar o momento para realizarmos uma profunda mudança na formação do nosso oficialato. Aqui, não se trata apenas de mudar a forma como as Forças Armadas se organizam internamente. Problemas de hierarquia interna são facilmente resolvidos por eles mesmos, sendo, assim, os funcionários públicos mais corporativistas que existem. O problema da formação dos oficiais está no conteúdo do que aprendem, pois o que estamos vendo (ainda) é uma claríssima demonstração de insubordinação ao seu Comandante Supremo. Ou seja, há um grupo considerável de oficiais que não compreendem que estão subordinados aos desígnios da população e que é o povo quem os comanda, indiretamente, através de um presidente eleito.

Sem fugir do assunto, mas indo em outra direção, uma das funções dos militares brasileiros é proteger e contribuir para o desenvolvimento dos povos que vivem na Amazônia. Aqui entra uma segunda herança maldita do governo Bolsonaro, já vista em janeiro 2023. Não há palavras que possam descrever o sentimento gerado pelas imagens de indígenas Yanomamis desnutridos (no estado de Roraima). Ao longo dos anos, foram mais de duas dezenas de ofícios enviados e ignorados pela gestão Bolsonaro/Damares. Especificamente nesta região, o que motivou essa calamidade foi a invasão das terras Yanomamis por garimpeiros ilegais, os quais foram porcamente combatidos pelas forças militares brasileiras na gestão Bolsonaro/Ricardo Salles. De uma forma ou de outra, isto se reproduziu em outros territórios indígenas e, entre 2018 e 2021, triplicou as invasões e a exploração ilegal de terras indígenas.

Novamente, o momento atual é propício para o Brasil estabelecer políticas efetivas de ocupação do território. De um lado, é preciso que haja a devida demarcação e o respeito aos povos originários. Mas, por outro, precisamos de uma reforma agrária e uma justa distribuição de terras em prol de famílias que possam alimentar nossa população, que ainda passa fome e convive com a insegurança alimentar (terceira herança).

Infelizmente, outras heranças malditas devem aparecer ao longo de 2023. A esperança é que a desgraça já em curso sirva, ao menos, para se efetivar mudanças profundas na sociedade brasileira. Sei que é querer demais, mas são os ideais que transformam o que deixamos em herança bendita. Lutemos por eles!


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

“Nenhuma bomba explode sem um estopim”

Semana 09 a 15 de janeiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Depois dos brutais acontecimentos da destruição da praça dos três poderes, as coisas começam a voltar à normalidade. Se é que se pode falar em normalidade em um país tão anormal como o nosso. As apurações e inquéritos estão em andamento, com algumas prisões, bloqueios de recursos, buscas e apreensões e tudo a que se tem direito. Mas, a justiça se move com a costumeira lentidão. Diz-se por aí que a justiça tarda, mas não falha. Esperemos que assim seja.

Como costuma acontecer, os baderneiros, cercados de advogados, choram e protestam pelos seus direitos. Aqueles mesmos que afirmavam dias atrás que “bandido bom é bandido morto”. Há que se destacar que a repressão aos vândalos foi branda e educada e tecnicamente muito bem-feita, sem mortos e poucos feridos. Diferente seria, provavelmente, se eles fossem estudantes, professores, operários ou gente do MST. Curioso é que a maior parte dos marginais presos o foi no acampamento do quartel do exército em Brasília. Conclui-se logicamente que o quartel havia se transformado em um covil de marginais e o coiteiro era o general comandante, que continua impune. Até o artefato que deveria explodir em um caminhão de combustíveis lá foi preparado, quem sabe, com assessoria de técnicos competentes locais. Aliás, não seria de surpreender, pois até o ex-presidente Bolsonaro já havia usado esta expertise para promover atentados contra a própria instituição, sendo por isso reformado, mas acalentado pelos seus algozes e preservado para alguma oportunidade futura. Quem sabe? 

Agora avança-se sobre os financiadores, mandantes e inspiradores da ação entre os quais se encontram certamente políticos, empresários, líderes religiosos, ou seja, homens “de bem”, para não falar de filhos, esposas e parentes de militares, igualmente “gente de bem”.  Mesmo depois da determinação do Alexandre de Moraes para o desmonte de todos os acampamentos de baderneiros em frente aos quarteis, em Brasília, o exército impediu, por algum tempo, a polícia do DF de cumprir a determinação judicial. Quem sabe, se não foi para dar tempo de fuga aos “cidadãos de bem” bombistas, foragidos da justiça, usuários de tornozeleiras eletrônicas etc. Uma coisa é certa: até agora, entre os detidos não apareceram os fardados graduados. Quem vai responder o que estavam fazendo os dois batalhões sediados no subsolo do palácio do planalto para defender os poderes da república? Quem são os comandantes do Regimento de Cavalaria da Guarda e do Batalhão da Guarda Presidencial? Por que não se moveram? Quem os comandava?

Na verdade, o partido do exército continua a mostrar sua força. Continuamos a viver sob a tutela militar que existe desde o início da república e que a sociedade civil ainda não se atreveu a abolir. Na conjuntura atual, nunca as condições internacionais foram tão propícias. Internamente, há provas evidentes da corrupção e dos desmandos da caserna que, vergonhosamente, deixou-se dirigir por um capitão que ela própria excluiu por incompatibilidade com seus princípios. Que vergonha!

Mas a violência dos bolsominions ultrapassou os limites da praça dos três poderes e ocorreu em outras áreas. Foram praticados atos de terrorismo clássicos como o bloqueio de refinarias e aeroportos e sabotagem derrubando torres de transmissão de energia. Com a descoberta da minuta do decreto do golpe, na casa do ex-secretário, Anderson Torres, o quadro ficou ainda mais completo demonstrando que o plano era muito mais ambicioso. Há muito a investigar. Como bem disse o ex-secretário geral da Unctad Rubens Ricupero, “atrás disso tem uma inteligência estratégica. Nenhuma bomba explode sem estopim”.

Na economia também as coisas voltam à normalidade. Como vínhamos falando, a recuperação continua a arrastar-se dificultada pela política econômica do governo anterior e com a colaboração do Banco Central (BC) com sua insensata elevação da taxa de referência Selic. No exterior, enquanto se desenrola o Fórum de Davos na Suíça, a diretora geral do FMI, Kristalina Georgieva, anuncia uma recessão mundial para este ano e o crescimento de 0,5% para os países avançados. Como complemento, o Banco Mundial publica um documento afirmando que a economia mundial “está por um fio”.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Nertan Alves e Maria Cecília Fernandes.

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

A barbárie deu sua primeira obrada

Semana de 02 a 08 de janeiro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Como não começar falando do absurdo ocorrido em Brasília no último fim de semana!? As cenas são as mais lamentáveis e contraditórias já vistas na história recente do país.

Quem diria que os defensores de Deus arrancariam símbolos religiosos (que nem deveriam estar ali, já que o Estado é laico) das paredes dos palácios dos três poderes? Quem diria que os patriotas arrancariam o Brasão de Armas do Brasil (brasão símbolo da nossa república) e o exibiriam como troféu, simbolizando, talvez, a cabeça de um inimigo (a própria democracia). Quem diria que veríamos as nádegas de um exemplar cidadão de bem, integrante da tradicional família brasileira, defecando em móveis oficiais?

Apesar da forma absolutamente peculiar desses fatos, a contradição fundamental das manifestações está em seu conteúdo. Como é possível pedir intervenção militar em favor da liberdade? Nem Freud explicaria a (in)consciência de um bolsominion. Não é nenhum exagero dizer que eles estão se comportando como gado, seguindo direitinho o berrante do seu algoz e indo em manada para o abate.

Porém, Jair Bolsonaro já abandonou o rebanho que reuniu para as eleições de 2018 e que se manteve fiel em 2022. Não são poucas as figuras públicas e/ou midiáticas que passaram rechaçá-lo após o Dia do Fujo (para o Orlando). Por isso mesmo, algumas questões precisam ser levantadas.

Por que há dois meses existem acampamentos que mais parecem Cracolândias diante de quarteis? Por que eles estavam recebendo o apoio das próprias Forças Armadas? Por que essa escória da democracia não dispersou com a fuga do Jair? Por que os integrantes das Forças Armadas (e seus familiares) passaram a compactuar, discursar e até ocupar esses ambientes? Seria o Capitão apenas a figura pública de algo maior e hierarquicamente superior? Não resta dúvidas de que há militares tentando trazer de volta os velhos tempos da Ditadura.

Contudo, o poder militar está subordinado ao poder econômico. Certamente, há muitos empresários financiando as manifestações desde seu início. Mas esta fração da burguesia brasileira (que, espero, será revelada em breve) não apresentou poder suficiente para financiar um efetivo golpe. Nesse contexto, a frente amplíssima costurada por Lula, até aqui, foi capaz de dar um esteio à nossa democracia. Claro, quanto mais diferentes forem os tecidos, mais difícil será manter essa colcha de retalhos. As linhas precisam ser devidamente ajustadas. Mesmo assim, a burguesia que efetivamente manda no país parece estar com Lula, mas, principalmente, com Alckmin e Tebet.

Além disso, mostrando que falta poder econômico aos golpistas, não se viu parlamentares ou grandes políticos defendendo a invasão de 08 de janeiro de 2023. Caso houvesse grandes garantias de que os ganhos (econômicos e políticos) com um possível golpe fossem maiores do que os ganhos segundo o cenário atual, certamente veríamos grandes figuras públicas contemporizando e justificando os atos.

Isto significa que tudo está tranquilo? É só esperar que as instituições façam sua parte? É achar que Xandão vai nos salvar sempre? Obviamente que não. Como temos visto, a democracia burguesa é um processo em permanente transformação. A disputa pelo poder é uma característica do capitalismo e da formação social que dele deriva. A história já mostrou que a burguesia é capaz de todo e qualquer expediente para ter seus interesses atendidos (vide Hitler, Mussolini, Pinochet, Franco, Salazar e muitos outros).

Se hoje a situação política está muito melhor do que no ano passado, isto é resultado da luta política travada por todos e pelo voto das massas. Claro que dará muito trabalho lavar toda a sujeira bolsonarista. E aí está o nosso papel nisso tudo: engrossar o caldo e fazê-lo entornar em cima daqueles que querem destruir nossa frágil democracia.

A barbárie bolsonarista deu sua primeira obrada. Preparemo-nos para a próxima, que, cedo ou tarde, certamente virá. É só alguma fração relevante da burguesia desejar. Os militares já mostraram que ainda estão dispostos a embarcar nesse tipo de aventura.


[i] Professor do DRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Cecília Fernandes e Nertan Gonçalves.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Dificuldades da Conjuntura em 2022. Feliz 2023

Semana 26 de dezembro de 2022 a 01 de janeiro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Terrível foi este ano de 2022 que se foi, não somente para o Brasil e o mundo, mas particularmente para os que tem por ofício fazer Análise de Conjuntura. Quando falamos em conjuntura falamos das evoluções da economia no curto prazo, ao longo das semanas e meses, e mesmo anos. No nosso caso, atrevemo-nos a fazer análise no curtíssimo prazo de uma semana. Claro que para não cair na dita “economia do sobe e desce” precisamos ter como suporte uma teoria econômica e, como já referimos, usamos a teoria marxiana das crises cíclicas de superprodução na versão por mim desenvolvida (Ver “A crise econômica – Uma visão marxista”, J.P., UFPB, Ed. Universitária, 2008). Certamente, sendo uma teoria econômica, dentro dela não cabe a análise de fenômenos que se processam em outras esferas. Assim, as nossas dificuldades neste ano de 2022 foram muito amplificadas, pois o ano sofreu a ação de outros fenômenos que não cabem na análise econômica nos obrigando a grandes desvios para os campos da política, da história, da sociologia e até mesmo da biologia.

Com efeito, durante o ano ocorreram três fenômenos que, diretamente, nada tiveram a ver com a economia: a pandemia do Covid-19, a guerra na Europa Oriental e as eleições. Os dois primeiros tiveram como consequências o acirramento da inflação, a desorganização dos mercados, dos transportes, do comércio, a crise de abastecimento e da energia, o fechamento de fábricas, a falta de mão de obra, o desemprego etc. Fatores não econômicos provocaram o caos na economia a nível local e mundial. O terceiro fator teve consequências internas. O desgoverno local, que já havia maltratado terrivelmente a economia com suas medidas de política econômica insensatas, saídas da cabeça doente do sinistro da economia Paulo Guedes, no desespero de ganhar as eleições para manter-se no poder usou todo o aparelho de Estado com este objetivo. Deixou de governar para comprar votos a qualquer custo mesmo comprometendo o orçamento e o futuro do país. Se já vinha destruindo tudo o que podia com sua fanática estupidez ideológica, a situação foi ainda agravada e o Estado quase foi a falência. O novo governo vai pagar muito caro para reparar os males que foram produzidos e que continuarão a repercutir nos próximos anos. Este ano de 2023 será mesmo um ano de sacrifício.

Em Análises anteriores já vínhamos demonstrando que a economia do país estava entrando em um ciclo de crise, mesmo antes dos primeiros casos de covid-19. Era a entrada do país na fase de crise do ciclo econômico. A deflagração da pandemia e depois o início da guerra da Ucrânia aceleraram o processo e entramos com força na crise. Contra a vontade do governo as vacinas foram compradas e iniciou-se o ataque ao vírus. Também contra a vontade do governo foi aprovado o auxílio emergencial. Para comprar votos o governo abriu o cofre e foram aprovados vários subsídios que contribuíram para a aliviar a situação dos mais pobres. A campanha de vacinação foi vitoriosa apesar das sabotagens e conseguiu-se controlar a pandemia. A injeção de recursos estimulou a demanda e a economia iniciou uma tênue recuperação a partir do setor de serviços e com o trabalho informal. A longa paralização criou um vácuo que começou a ser ocupado pela retomada da produção o que resultou em indicadores econômicos mais positivos embora os números da inflação continuem a mostrar aceleração. Para este mal, o BC já aponta teimosamente com a possibilidade de novo aumento da Selic, o que prejudicará a economia.

Esta é a situação que o novo governo terá de enfrentar. O presidente Lula já empossou quase todo o seu ministério com uma notável habilidade que só ele é capaz. Na verdade, a frente formada é por demais ampla e muitas serão as dificuldades de manter a articulação de tantas tendências. Será um grande desafio que, esperamos, tenha sucesso, para o bem da democracia e a sobrevivência do país.

Para finalizar, temos que aplaudir os discursos do presidente, discursos de um grande estadista, e a seriedade do ministério por ele constituído. E com esperanças enfrentemos o ano de 2023. Afinal podemos dizer: Feliz Ano Novo para todos nós.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Nertan Alves e Maria Cecília Fernandes.

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